
R$ 15 milhões para ONG ligada a sindicato do ABC retirarem lixo na terra Yanomami: dinheiro público, pouca transparência
Enquanto a terra indígena Yanomami acumula 70 toneladas de plástico, governo repassa alto valor a ONG que funciona numa sala alugada dentro do sindicato dos metalúrgicos, sem explicações claras e com diretores ligados ao PT.
O Ministério do Trabalho destinou quase R$ 16 milhões para uma ONG vinculada ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), com a missão de retirar o lixo acumulado na terra indígena Yanomami, localizada em Roraima. O contrato foi fechado pela Secretaria de Economia Popular e Solidária, liderada pelo ex-ministro Gilberto Carvalho, figura próxima ao PT e ao presidente Lula.
Curiosamente, a ONG Unisol — responsável por essa tarefa — ocupa uma pequena sala de 40 metros quadrados no subsolo do prédio do sindicato e tem em sua direção pessoas que também são dirigentes do sindicato, todos filiados ao PT. A reportagem tentou contato com a ONG, mas não obteve respostas.
O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC tem papel histórico na política brasileira: foi presidido por Lula nos anos 1970 e sua sede foi o local onde ele se entregou à Polícia Federal em 2018, durante a Operação Lava Jato.
O valor destinado à Unisol é o segundo maior dentro do orçamento do governo para “gestão de políticas para povos indígenas” em 2024, ficando atrás apenas de uma empresa aérea que recebeu R$ 64 milhões para deslocamentos até a região Yanomami — acesso possível só por avião devido à difícil logística local.
O repasse para a ONG foi feito integralmente logo após a assinatura do acordo, com a justificativa do governo de que se tratava de uma ação emergencial para enfrentar a crise humanitária no território indígena. O dinheiro deverá ser usado para contratar serviços de limpeza, assessoria jurídica, contábil e coordenação das ações no local.
Apesar de o dinheiro já estar na conta da ONG, as atividades práticas na terra Yanomami ainda devem começar somente no segundo semestre, após meses de reuniões e estudos técnicos. O Ministério do Trabalho estima que há cerca de 70 toneladas de plástico acumuladas no local, consequência das cestas básicas doadas às comunidades indígenas, que geram lixo e prejudicam o meio ambiente e a saúde dos moradores.
O plano de trabalho apresentado pela Unisol não define metas claras de quanto lixo deverá ser removido. A promessa é de fortalecer grupos de catadores, qualificar cerca de 80 catadoras, realizar ações de educação ambiental e garantir a retirada de resíduos sólidos em dez bases indígenas.
A seleção da ONG pelo Ministério do Trabalho gerou dúvidas, pois a avaliação da equipe técnica teve opiniões divergentes, com alguns membros questionando a qualificação dos profissionais e outros reconhecendo experiência comprovada. Além disso, outras entidades que participaram do edital receberam pagamentos parciais, enquanto a Unisol teve o valor integral liberado.
Enquanto isso, a população Yanomami segue convivendo com o acúmulo de resíduos, esperando que as promessas feitas com o dinheiro público se transformem em ações concretas no território.