
Resort associado a Toffoli abriga cassino ilegal e vira novo foco de controvérsia
Empreendimento construído pela família do ministro do STF no Paraná oferece máquinas de apostas e jogos proibidos no Brasil, levantando suspeitas e conflitos de interesse
O Resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no interior do Paraná, e construído pela família do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou-se o centro de um escândalo que mistura jogos de azar, negócios milionários e decisões judiciais sensíveis. No local, funciona um cassino com máquinas eletrônicas de apostas e mesas de jogos de cartas, incluindo blackjack, prática proibida pela legislação brasileira quando envolve apostas em dinheiro.
Conhecido na cidade como o “resort do Toffoli”, o empreendimento, embora não tenha o nome do ministro nos registros oficiais, é associado a ele de forma direta por funcionários e moradores da região. Durante visita ao local, a reportagem constatou que o cassino opera abertamente, oferecendo apostas em dinheiro real para hóspedes.
O espaço conta com máquinas de vídeo loteria, que funcionam na prática como caça-níqueis, além de mesas de jogos carteados. O ambiente reproduz fielmente o clima de cassinos internacionais, com luzes de neon, carpetes escuros e iluminação artificial, criando um cenário voltado exclusivamente à jogatina.
Mesmo após o horário oficial de encerramento, repórteres foram convidados a participar de jogos como blackjack, modalidade em que o jogador disputa diretamente contra um “dealer” para alcançar a soma de 21 pontos — um tipo de aposta explicitamente ilegal no Brasil quando envolve dinheiro.
Outro ponto alarmante observado no local foi a ausência de controle de acesso ao cassino. A reportagem presenciou crianças utilizando máquinas de apostas, circulando entre adultos que consumiam bebidas alcoólicas, o que agrava ainda mais a situação sob o ponto de vista legal e ético.
Negócios, relações e conflitos de interesse
O Tayayá esteve ligado, ao longo dos anos, a personagens centrais de investigações e grandes grupos empresariais. Antes de ser vendido por dois irmãos e um primo de Toffoli a um advogado ligado ao grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, parte do empreendimento teve ações adquiridas por um fundo que contava com investimento de Fabiano Zettel, pastor e empresário que é cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
O detalhe que chama atenção: Dias Toffoli é relator no STF de processos que envolvem o Banco Master e já atuou em julgamentos relacionados à própria J&F, o que intensifica questionamentos sobre conflito de interesses.
No fim de 2025, mesmo após a venda do resort, Toffoli fechou o local para uma festa privada, reunindo familiares e convidados. O evento mobilizou toda a equipe do hotel e contou com apresentações artísticas e a presença do ex-jogador Ronaldo Nazário, o Fenômeno. Segundo funcionários, Ronaldo teria participado da inauguração da área de jogos. Uma foto do ex-atleta no local chegou a circular, mas foi apagada pouco depois.
Legalidade seletiva
Jogos de azar presenciais seguem proibidos no Brasil. Em 2020, no entanto, o STF decidiu que os estados poderiam explorar as chamadas vídeo loterias, sob o argumento de que a União não detém exclusividade sobre essa atividade. O voto foi relatado por Gilmar Mendes e acompanhado por Dias Toffoli.
Apesar disso, jogos com cartas, dealers e apostas diretas em dinheiro continuam ilegais, o que coloca o funcionamento do cassino do resort em clara colisão com a legislação vigente.
O “refúgio” do ministro
Toffoli frequenta o Tayayá regularmente e dispõe de uma residência exclusiva na área de alto padrão do resort, chamada Ecoview. Ele também utiliza uma embarcação particular, mantida no píer do hotel. Outra casa no complexo é ocupada por seu irmão, José Carlos Dias Toffoli.
José Carlos e outro irmão do ministro, José Eugênio, foram sócios de uma incorporadora avaliada em cerca de R$ 30 milhões, responsável pela construção dos apartamentos do resort. Antes de ingressar no ramo imobiliário, José Carlos atuava como padre.
Ministros do STF também já se hospedaram no local, entre eles Cármen Lúcia, segundo relatos de funcionários.
O resort fica às margens da represa de Xavantes, próximo à divisa com São Paulo. As diárias ultrapassam R$ 2 mil, mesmo nas acomodações mais simples. A estrutura inclui seis piscinas, quadras esportivas, recreação infantil e acesso restrito, que exige voo fretado até Ourinhos (SP) e deslocamento de helicóptero.
Defesa e silêncio
Procurado, o advogado Paulo Humberto, ligado ao empreendimento, negou irregularidades e afirmou que os jogos existentes seriam autorizados pela loteria estadual, classificando as mesas de cartas como mero entretenimento entre hóspedes.
O ministro Dias Toffoli, por sua vez, não respondeu aos questionamentos da reportagem.
O caso amplia a pressão sobre o STF e lança novas dúvidas sobre a linha tênue entre poder público, negócios privados e decisões judiciais — uma combinação que, quando mal explicada, mina a confiança nas instituições.
Fonte e Créditos: Metrópoles