Roberta Luchsinger admite que pediu apoio a Marcola para proposta de canabidiol e afirma que amizade com Lulinha é anterior à Presidência de Lula

Roberta Luchsinger admite que pediu apoio a Marcola para proposta de canabidiol e afirma que amizade com Lulinha é anterior à Presidência de Lula

Empresária investigada pela Polícia Federal diz que considerou “erro” e “ingenuidade” procurar o então chefe de gabinete do presidente; ela nega ter pago por favores e afirma que relação com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é antiga

A empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal em inquéritos que envolvem suspeitas de tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro, afirmou que procurou o então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, para buscar apoio a uma proposta relacionada ao fornecimento de canabidiol ao Ministério da Saúde. Ao mesmo tempo, ela negou que tenha realizado pagamentos em troca de favorecimento e classificou a estratégia de procurar o auxiliar presidencial como um “erro” e uma atitude de “ingenuidade”.

Em entrevista ao g1, Roberta também afirmou que sua amizade com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, é antiga e começou antes de Lula chegar à Presidência da República. Segundo ela, a relação é pessoal e não teria sido utilizada para solicitar ao presidente qualquer intervenção em negócios privados.

“Eu e Fábio somos amigos. Muito amigos. Renata, esposa dele, é minha melhor amiga”, afirmou a empresária. Ela disse ainda que os dois chegaram a cogitar realizar negócios juntos, mas que qualquer iniciativa envolvendo Lulinha poderia ser interpretada de maneira negativa por causa da posição política de seu pai.

A declaração ocorre em meio à repercussão das investigações da PF e às declarações de Lula durante entrevista à TV Globo. Questionado sobre Roberta, o presidente afirmou que não a conhecia e disse que nunca havia conversado com ela. A declaração, entretanto, passou a ser questionada depois que fotografias publicadas pela própria empresária mostraram registros em que ela aparece ao lado do presidente e da primeira-dama, Janja Lula da Silva, em diferentes ocasiões.

Proposta de canabidiol

Um dos principais pontos investigados pela Polícia Federal envolve uma proposta para fornecimento de produtos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.

Segundo as investigações, Roberta encaminhou a Marcola, em maio de 2024, uma minuta de Termo de Referência que estabelecia parâmetros para uma eventual aquisição de frascos de canabidiol pela pasta. O documento previa a possibilidade de dispensa de licitação e indicava a empresa World Cannabis, ligada ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Nenhum contrato com o Ministério da Saúde chegou a ser assinado.

Roberta reconheceu que pretendia obter apoio para que a proposta fosse acompanhada dentro do governo.

“Ter apoio era o objetivo das conversas com Marcola. Talvez erro meu de pedir apoio. Ingenuidade. Bobeira”, afirmou.

A empresária, porém, rejeita a interpretação de que sua iniciativa tenha representado uma tentativa de comprar influência dentro do governo. Segundo ela, o objetivo era discutir uma questão que considerava relevante na área de saúde e canabidiol.

A PF investiga justamente se a atuação de Roberta e sua proximidade com integrantes do governo ultrapassaram os limites de uma interlocução empresarial e configuraram tentativa de tráfico de influência.

Pagamentos a Marcola entram no centro da investigação

Outro ponto relevante do caso são os pagamentos realizados por Roberta em favor de Marcola.

De acordo com a investigação, a empresária pagou despesas atribuídas ao ex-chefe de gabinete, e a PF apura se esses pagamentos poderiam estar relacionados a eventuais favores ou solicitações feitas por ela dentro do governo. O próprio Marcola apresentou outra versão: afirmou que os valores correspondiam a um empréstimo pessoal, de R$ 249 mil, que já teria sido quitado.

Roberta nega que tenha realizado pagamentos para comprar apoio.

“Não fiz pagamentos ao Marcola. Eu ajudei um amigo”, afirmou. Ela reconheceu, contudo, que deveria ter levado em consideração a posição ocupada por ele no governo.

“Óbvio, eu deveria ter sido atenta ao fato de ser ele chefe de gabinete do presidente”, declarou.

A investigação procura estabelecer se havia uma relação entre as despesas pagas por Roberta e sua tentativa de fazer avançar propostas comerciais dentro de órgãos públicos.

Relação com Lulinha

A proximidade com Fábio Luís Lula da Silva é outro dos elementos centrais das investigações.

Roberta afirma que os dois são amigos há muitos anos e que a relação começou antes de Lula assumir a Presidência. Ela também afirmou que Renata, mulher de Lulinha, é sua melhor amiga.

A empresária disse que poderia ter utilizado essa proximidade para pedir que Lulinha levasse ao pai a discussão sobre o canabidiol, mas afirmou que nunca fez isso.

“Eu poderia ter falado: ‘Fábio, mostra aí para seu pai essa questão do canabidiol, como o Brasil está atrasado’. Ele é meu amigo, eu poderia ter pedido. Nunca pedi”, relatou.

Segundo Roberta, o motivo para não fazer esse pedido seria justamente a natureza técnica da questão e a consciência de que qualquer atuação de Lulinha poderia gerar suspeitas.

A PF, entretanto, analisa mensagens e relações empresariais que envolvem Roberta e Lulinha. Em conversas obtidas pelos investigadores, a empresária chegou a mencionar uma sociedade com o filho do presidente. Questionada sobre o assunto, ela afirmou que houve apenas intenção de realizar negócios, sem que isso representasse uma atuação conjunta dentro do governo.

Relação com o chamado “Careca do INSS”

As investigações também aproximaram Roberta de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, personagem central das apurações sobre descontos ilegais em benefícios previdenciários.

A PF investiga negócios que envolveriam Roberta e empresas ligadas a Antunes, inclusive propostas relacionadas ao Ministério da Saúde. Segundo informações divulgadas sobre o caso, Roberta teria recebido R$ 1,5 milhão de uma empresa de consultoria para prospectar negócios. Ela afirma que não sabia que Antunes estaria envolvido em irregularidades relacionadas ao INSS.

A investigação também analisa outros contatos e possíveis negócios envolvendo órgãos públicos, inclusive uma tentativa de negócio com a Dataprev.

Três inquéritos

Roberta é investigada em três inquéritos da Polícia Federal que também alcançam, em diferentes contextos, Fábio Luís Lula da Silva.

Um dos procedimentos trata da tentativa de viabilizar negócios envolvendo canabidiol e o Ministério da Saúde. Outro investiga uma possível negociação relacionada à Dataprev. Um terceiro procedimento apura outras relações comerciais e contatos com órgãos públicos.

As investigações estão sob relatoria de ministros do Supremo Tribunal Federal. André Mendonça é relator de dois dos procedimentos, enquanto Flávio Dino é responsável pelo terceiro, segundo informações divulgadas sobre o caso.

Roberta afirma que suas conversas foram retiradas de contexto e que as mensagens foram “distorcidas” ou “picotadas”. Seu advogado, Roberto Podval, pediu ao Supremo a retirada do sigilo das investigações para que o conteúdo integral das conversas possa ser conhecido.

Lula diz que não protegerá o filho

A controvérsia ganhou dimensão política depois que Lula foi questionado sobre as investigações envolvendo seu filho e seu ex-chefe de gabinete.

O presidente afirmou que acredita na inocência de Lulinha, mas declarou que, caso seja comprovado algum ilícito, o filho deverá responder perante a Justiça como qualquer cidadão.

Lula também reconheceu que a relação de Marcola com Roberta trouxe desgaste para o governo. Segundo o presidente, a atuação do então chefe de gabinete foi inadequada e levou desconfiança ao Palácio do Planalto.

“Não é adequado, é totalmente errado e o Marcola sabe o erro que cometeu, porque não é esse o papel de um chefe de gabinete”, afirmou Lula.

O presidente também disse que não faria qualquer movimento para impedir uma investigação contra o próprio filho.

Fotos de Roberta com Lula aumentam pressão política

A situação ganhou novo componente após Lula afirmar, em entrevista à TV Globo, que não conhecia Roberta Luchsinger.

Fotografias publicadas nas redes sociais da empresária mostram, porém, registros em que ela aparece ao lado do presidente e de Janja, além de integrantes do círculo político do PT. Uma das imagens foi publicada em julho de 2022 e trazia Roberta ao lado do casal presidencial.

A equipe de campanha de Lula posteriormente afirmou que as fotografias não comprovam uma relação pessoal, profissional ou política entre o presidente e Roberta. Segundo a campanha, Lula é frequentemente abordado por pessoas para fotografias durante eventos públicos e campanhas eleitorais.

A explicação foi divulgada após a repercussão da declaração do presidente na sabatina.

O que está comprovado e o que ainda é investigado

Até o momento, as investigações não estabeleceram que a proposta de fornecimento de canabidiol tenha resultado em contrato com o Ministério da Saúde. Também não há, segundo as informações disponíveis, comprovação definitiva de que os pagamentos feitos por Roberta a Marcola tenham sido realizados como contrapartida por favores dentro do governo.

Essas são justamente algumas das questões que a Polícia Federal procura esclarecer.

Roberta admite ter buscado apoio de Marcola, mas sustenta que não pagou para obter favorecimento. Afirma ainda que sua relação com Lulinha é de amizade antiga e nega ter utilizado essa proximidade para pressionar Lula ou obter vantagens no governo.

O caso, portanto, reúne três dimensões distintas: a investigação policial sobre possíveis crimes, as relações pessoais e empresariais de Roberta com pessoas próximas ao núcleo presidencial e a disputa política em torno das declarações de Lula e das imagens que mostram o presidente ao lado da empresária.

Enquanto a PF procura determinar se houve tráfico de influência ou outras irregularidades, Roberta sustenta que houve amizade, negócios que não avançaram e ajuda pessoal a pessoas próximas. As defesas dos envolvidos negam irregularidades e contestam a interpretação dada pelos investigadores às conversas e movimentações financeiras.

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