
Sapucaí entre aplausos e tropeços
Atrasos, falhas técnicas, vaias e tensão política marcam a primeira noite do Carnaval do Rio
O que era para ser uma noite de pura celebração acabou misturando espetáculo, desorganização e constrangimentos. O desfile do Grupo Especial do Carnaval 2026, na Sambódromo da Marquês de Sapucaí, começou no domingo (15) e atravessou a madrugada de segunda-feira (16) com brilho na avenida — e uma sequência de problemas fora do script.
Quatro escolas passaram pela pista: Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense, Portela e Estação Primeira de Mangueira. Mas o que ficou na memória de muitos não foram apenas os enredos — e sim os atrasos, as vaias e as falhas técnicas que atravessaram a noite.
Lula na avenida e enredo sob críticas
A Acadêmicos de Niterói abriu os trabalhos homenageando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”.
A presença de Lula na Sapucaí, cercado por forte esquema de segurança e ao lado da primeira-dama Rosângela Lula da Silva, dividiu opiniões. Desde o anúncio do tema, a escola vinha sendo alvo de críticas nas redes sociais, com acusações de politização da festa.
Janja chegou a ser anunciada como destaque da escola, mas houve mudança de última hora, e a cantora Fafá de Belém ocupou o posto. Mesmo assim, a passagem da agremiação foi marcada por forte simbolismo político.
Imperatriz, brilho e críticas a Iza
A Imperatriz trouxe o enredo “Camaleônico”, celebrando Ney Matogrosso. Com figurinos elaborados e referências à trajetória do artista, a escola empolgou parte do público.
No entanto, nas redes sociais, a performance de Iza como rainha de bateria foi alvo de comentários negativos. Internautas apontaram suposta falta de energia e entrega durante o desfile e na entrevista pós-apresentação.
Enquanto isso, nos camarotes, celebridades como Sabrina Sato, Paolla Oliveira e Virginia Fonseca atraíam flashes e exigiam esquemas reforçados de segurança — contraste evidente com o público das arquibancadas, que enfrentava horas de espera.
Show de drones, atraso e revolta
Um dos momentos mais tensos da noite ocorreu após a saída da Imperatriz. Um show de drones patrocinado pela casa de apostas Superbet interrompeu o ritmo da programação.
O atraso foi longo o suficiente para provocar vaias generalizadas. O público nas arquibancadas reagiu com gritos e xingamentos, inclusive direcionados ao presidente da Liesa, Gabriel David.
Enquanto a plateia aguardava impaciente, camarotes seguiam com atrações privadas, aumentando a sensação de divisão entre quem pagou caro por exclusividade e quem enfrentava desconforto nas arquibancadas.
Portela corre contra o tempo
Quando finalmente entrou na avenida, a Portela apresentou o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará”. Apesar da beleza plástica e da presença de Adriane Galisteu como musa, a escola enfrentou dificuldades técnicas.
Um dos carros alegóricos apresentou falhas antes mesmo de entrar na pista, obrigando integrantes a improvisar soluções rápidas. O problema gerou um espaçamento irregular entre alas e carros — o temido “buraco” que pode custar pontos.
No fim, a escola precisou acelerar a evolução para não estourar o tempo máximo. Cruzou a linha final com apenas um minuto de margem.
Mangueira: tensão na concentração e pista escorregadia
A Mangueira entrou já com a madrugada avançada. Prevista para desfilar entre 2h30 e 3h, só iniciou sua apresentação por volta das 4h.
Antes mesmo de pisar na avenida, uma componente posicionada no alto de um carro alegórico alertou que a estrutura não estava firme. Funcionários agiram às pressas para evitar acidente.
Durante o desfile, um vazamento de óleo na pista comprometeu a movimentação de um dos carros, exigindo auxílio extra de empurradores. O risco de penalização rondava a escola.
Apesar dos contratempos, a Verde e Rosa concluiu sua apresentação já sob a luz do amanhecer. Ao final, o tradicional “arrastão” liberou o público para ocupar a avenida, encerrando uma noite que misturou emoção e desgaste.
Uma noite de brilho — e de falhas
O Carnaval do Rio segue sendo um espetáculo grandioso, mas a primeira noite de 2026 deixou evidente que organização e logística ainda são desafios.
Entre enredos políticos, patrocínios invasivos, atrasos extensos, problemas técnicos e vaias do público, a Sapucaí mostrou que nem tudo é fantasia e perfeição.
Por trás do brilho das alegorias, a noite revelou improvisos, tensão e um público cada vez menos disposto a aceitar erros como parte do show.