
Sem vacina no SUS, mas com milhões para propaganda e incentivos culturais
Decisão do governo Lula de barrar imunizante caro reacende críticas sobre prioridades na saúde pública
A decisão do Ministério da Saúde de não incluir a vacina contra o herpes-zóster no Sistema Único de Saúde (SUS) provocou forte reação e críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O argumento oficial é o alto custo do imunizante, considerado inviável para os cofres públicos. Para muitos brasileiros, porém, a justificativa soa contraditória diante dos bilhões destinados a propaganda governamental, incentivos culturais pela Lei Rouanet e patrocínios a artistas.
A negativa foi baseada em parecer da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que reconheceu a eficácia da vacina, mas concluiu que o valor torna sua adoção insustentável. Hoje, o esquema completo de duas doses pode custar até R$ 2 mil na rede privada, valor inacessível para a maioria da população — justamente aquela que depende do SUS.
O próprio Ministério da Saúde havia solicitado a análise para ofertar a vacina a idosos acima de 80 anos e pessoas imunossuprimidas, grupos mais vulneráveis à doença. Ainda assim, a Conitec estimou um impacto de R$ 5,2 bilhões em cinco anos, o que levou à recomendação contrária. Para que a vacina fosse considerada viável, o preço teria de cair drasticamente.
A decisão, no entanto, escancara um debate incômodo: quando o assunto é saúde, falta dinheiro; quando se trata de publicidade oficial, eventos culturais e repasses via Lei Rouanet, os recursos aparecem. Críticos apontam que o governo prefere investir em visibilidade política e apoio simbólico a setores artísticos enquanto deixa milhões de brasileiros sem acesso a uma vacina que poderia evitar dor, complicações e internações.
A vacina Shingrix, aprovada no Brasil desde 2021, protege contra o herpes-zóster — doença conhecida como “cobreiro”, que pode causar dores intensas e sequelas prolongadas, especialmente em idosos. Segundo dados internacionais, uma em cada três pessoas pode desenvolver a enfermidade ao longo da vida.
Embora o governo afirme que a decisão não é definitiva e que novas negociações podem ocorrer no futuro, a frustração permanece. Para muitos, a mensagem passada é clara: o custo da prevenção pesa mais quando o investimento não rende capital político imediato.
Em um país que se orgulha de ter um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, a exclusão de uma vacina eficaz por razões financeiras levanta um questionamento inevitável: falta dinheiro ou falta prioridade?