
Tiririca perde eleição no Ceará após quatro mandatos e encerra ciclo de 16 anos na Câmara
Humorista que chegou à política com uma das maiores votações da história terminou 2026 com apenas 5.523 votos; trajetória que começou com 1,3 milhão de votos chega ao fim na Câmara
Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, não conseguiu retornar à Câmara dos Deputados nas eleições de 2026. Depois de quatro mandatos consecutivos representando São Paulo, o humorista decidiu disputar uma vaga pelo Ceará, estado onde nasceu, mas terminou a eleição com apenas 5.523 votos, ficando fora da nova composição da Câmara.
O resultado encerra uma trajetória de 16 anos no Congresso Nacional, iniciada em 2010 com uma votação histórica e marcada por uma impressionante queda no número de votos ao longo das quatro eleições seguintes.
A diferença entre a estreia e o resultado deste ano é tão grande que se tornou um dos principais símbolos da eleição de Tiririca em 2026.
Em 2010, ele recebeu aproximadamente 1,3 milhão de votos em São Paulo e foi o deputado federal mais votado do país. Em 2014, voltou a superar a marca de 1 milhão. Em 2018, recebeu 453.855 votos e, em 2022, conseguiu a reeleição com 71.754 votos.
Agora, no Ceará, foram somente 5.523 votos.
Ou seja: a votação de 2026 corresponde a menos de 0,5% daquela obtida em sua primeira eleição.
De fenômeno eleitoral a uma votação de 5 mil votos
A história política de Tiririca começou como uma das maiores demonstrações de insatisfação do eleitorado brasileiro.
Com o conhecido slogan “pior do que tá, não fica”, o então candidato transformou o humor em instrumento eleitoral e conquistou uma quantidade extraordinária de votos.
A estratégia funcionou de maneira espetacular.
Tiririca foi eleito em 2010 com cerca de 1,3 milhão de votos, tornando-se um fenômeno nacional e também um exemplo clássico do chamado voto de protesto.
Naquela eleição, sua votação ajudou ainda a legenda a conquistar outras cadeiras pelo sistema proporcional.
Quatro anos depois, repetiu o sucesso: recebeu aproximadamente 1,01 milhão de votos e novamente ficou entre os candidatos mais votados de São Paulo.
A partir daí, entretanto, começou uma queda contínua.
Em 2018, foram 453.855 votos.
Em 2022, apenas 71.754.
E em 2026, na tentativa de começar novamente no Ceará, o resultado foi ainda menor: 5.523 votos.
A matemática eleitoral é implacável.
De 1,3 milhão para 5.523.
O Ceará não repetiu São Paulo
A mudança de domicílio eleitoral foi uma das grandes apostas de Tiririca.
Nascido em Itapipoca, no Ceará, Francisco Everardo Oliveira Silva decidiu voltar às origens e tentar construir uma nova etapa de sua carreira política no estado.
A transferência ocorreu depois de sua votação de 2022 em São Paulo, quando conseguiu permanecer entre os eleitos, mas na última posição entre os deputados que conquistaram cadeira naquele pleito.
A expectativa era de que a ligação com o estado natal pudesse produzir uma nova oportunidade.
Não aconteceu.
Com 5.523 votos, Tiririca não conseguiu alcançar uma das 22 cadeiras destinadas ao Ceará na Câmara dos Deputados. A eleição teve André Fernandes (PL) como candidato mais votado, com 678.426 votos, seguido por outros nomes que garantiram as cadeiras pelo sistema proporcional.
A ironia está justamente aí: o político que chegou ao Congresso como um dos maiores fenômenos eleitorais do país agora deixa a Câmara com uma votação que representa uma fração mínima daquela que o consagrou.
Quatro mandatos e 16 anos de Câmara
Apesar da derrota de 2026, é preciso reconhecer o tamanho da trajetória construída por Tiririca.
Ele foi eleito deputado federal quatro vezes consecutivas por São Paulo, permanecendo no Congresso de 2011 até o encerramento da atual legislatura, em 31 de janeiro de 2027.
Foram 16 anos de presença na Câmara dos Deputados.
E, independentemente da avaliação política sobre sua atuação, não é possível apagar o fato de que ele conseguiu transformar uma carreira artística em uma das candidaturas mais populares da história eleitoral brasileira.
Tiririca nasceu em uma família humilde, trabalhou desde cedo e teve contato com o circo ainda no Ceará. Tornou-se conhecido nacionalmente como humorista e ganhou popularidade especialmente por suas apresentações na televisão e pela música “Florentina”.
Foi justamente essa popularidade que o levou à política.
O trabalho voltado ao circo
Existe também um aspecto concreto de sua passagem pelo Congresso que merece ser registrado.
Segundo levantamento do R7, Tiririca apresentou 42 projetos ao longo de sua trajetória parlamentar. Entre suas principais iniciativas estão propostas relacionadas à atividade circense.
Uma delas resultou na inclusão do circo como manifestação cultural para fins da Lei Rouanet.
Outra proposta, apresentada em 2019, buscou criar uma Política Nacional de Apoio ao Circo. O projeto avançou na Câmara, mas ainda dependia do Senado.
Portanto, a trajetória de Tiririca não pode ser resumida apenas às piadas, ao personagem ou ao slogan que marcou sua primeira campanha.
Houve atuação parlamentar, especialmente em defesa da cultura circense.
Mas a força eleitoral acabou
Ao mesmo tempo, os números mostram que a força eleitoral de Tiririca foi diminuindo eleição após eleição.
O fenômeno de 2010 não se repetiu.
O candidato que conseguiu mais de um milhão de votos passou para pouco mais de 450 mil, depois para pouco mais de 70 mil e finalmente para apenas 5.523 votos.
A comparação é inevitável.
Em 2010, Tiririca precisava de votos para entrar na Câmara. Em 2026, nem o histórico de quatro mandatos foi suficiente para convencer o eleitorado cearense a lhe entregar uma quinta oportunidade.
É uma mudança gigantesca.
O eleitor também muda
E talvez essa seja a principal mensagem do resultado.
O eleitor não assina contrato de fidelidade com político.
Pode eleger alguém com 1,3 milhão de votos em uma eleição e, alguns anos depois, decidir que aquele mesmo candidato não merece uma nova cadeira.
Pode transformar um desconhecido em fenômeno nacional.
E pode, posteriormente, simplesmente deixar de votar nele.
Foi exatamente isso que aconteceu com Tiririca.
O povo brasileiro — e, neste caso específico, o eleitorado cearense — fez sua escolha nas urnas.
A leitura política do resultado pode variar.
Alguns podem enxergar o fim de um ciclo. Outros podem interpretar como desgaste de uma figura que já não mobiliza o mesmo eleitorado. Há ainda quem veja a derrota como consequência natural de uma carreira política que perdeu o impacto inicial.
O fato objetivo, entretanto, é um só:
Tiririca não foi eleito.
O contraste que virou ironia eleitoral
A comparação entre 2010 e 2026 praticamente dispensa comentários.
2010: aproximadamente 1,3 milhão de votos.
2014: aproximadamente 1,01 milhão.
2018: 453.855 votos.
2022: 71.754 votos.
2026: 5.523 votos.
Aquele candidato que chegou à política fazendo humor com a própria falta de experiência parlamentar acabou construindo uma permanência de quatro mandatos.
Mas a quinta tentativa não funcionou.
E existe uma ironia inevitável nessa história: o slogan que marcou sua entrada na política falava que “pior do que tá, não fica”.
Depois de quatro mandatos, quem decidiu se continuava ou não na Câmara foi justamente o eleitor.
E o eleitor respondeu nas urnas.
O mérito do eleitor também precisa ser reconhecido
A derrota de Tiririca não apaga sua história.
Mas também não obriga o eleitor a repetir escolhas do passado.
O mérito, neste momento, está justamente no funcionamento do processo democrático: Tiririca teve direito de se candidatar, apresentou seu nome ao eleitorado e o eleitor teve o direito de escolher outro candidato.
Não existe mandato eterno.
Não existe cadeira garantida.
Não existe votação passada que assegure votação futura.
O resultado de 2026 mostra isso de maneira bastante clara.
O homem que um dia recebeu mais de um milhão de votos terminou sua última tentativa com 5.523.
É uma diferença que fala por si.
Fim de uma era política
Tiririca deixa a Câmara após quatro mandatos consecutivos e 16 anos de vida parlamentar.
Sua chegada ao Congresso foi extraordinária. Sua permanência também foi incomum. Poucos candidatos conseguiram transformar uma carreira artística em uma trajetória política tão longa.
Mas a eleição de 2026 encerrou esse ciclo.
O palhaço que entrou na política como fenômeno eleitoral agora deixa Brasília pela porta da derrota eleitoral.
Sem apagar o que construiu.
Sem ignorar os projetos apresentados.
Sem esquecer a importância de sua trajetória no circo e na cultura.
Mas também sem esconder aquilo que as urnas disseram.
De 1,3 milhão de votos a 5.523.
O número é a própria história.
E, no fim, fica uma lição simples: o eleitor pode transformar um candidato em fenômeno, mas também pode decidir que chegou a hora de virar a página.