
Rachel Sheherazade fica fora da Câmara e vê nas urnas o desafio de transformar fama em voto
Jornalista recebeu 22.453 votos na disputa por uma vaga de deputada federal em São Paulo e terminou longe das 70 cadeiras disponíveis; estreia eleitoral termina sem mandato
A jornalista e apresentadora Rachel Sheherazade não conseguiu se eleger deputada federal por São Paulo nas eleições de 2026. Candidata pelo PSD, ela recebeu 22.453 votos e ficou fora das 70 vagas destinadas ao estado na Câmara dos Deputados.
Foi a primeira disputa eleitoral de Rachel, que chegou à política depois de uma longa trajetória no jornalismo e na televisão. Sua carreira ganhou forte projeção nacional especialmente a partir de 2011, quando passou a integrar a bancada do SBT Brasil e ficou conhecida por seus editoriais e comentários de conteúdo político e social.
Mas uma coisa é ter milhões de pessoas acompanhando seus comentários na televisão ou nas redes sociais. Outra, bastante diferente, é transformar essa visibilidade em votos suficientes para conquistar uma cadeira no Congresso.
E foi justamente aí que apareceu a realidade das urnas.
22.453 votos
Rachel terminou a eleição com 22.453 votos.
O número ficou muito distante da votação necessária para garantir uma das 70 cadeiras paulistas. Na apuração consolidada, ela aparecia na 169ª posição entre os candidatos a deputado federal.
A diferença para os candidatos eleitos foi enorme.
O campeão de votos em São Paulo foi Lucas Pavanato (PL), com impressionantes 3.038.438 votos. Na sequência apareceram Erika Hilton, Sâmia Bomfim, Kim Kataguiri e Tabata Amaral, entre outros nomes que conquistaram as vagas do estado.
Rachel, portanto, ficou muito distante do grupo que conseguiu transformar sua votação individual em uma cadeira na Câmara.
Da televisão para a urna
A candidatura representava uma mudança importante na trajetória profissional de Rachel Sheherazade.
Durante anos, ela construiu uma imagem pública associada à opinião política. Seus editoriais televisivos, especialmente durante sua passagem pelo SBT, fizeram dela uma figura conhecida nacionalmente.
Depois, também participou de programas de entretenimento e reality show, ampliando sua exposição pública.
A eleição, entretanto, mostrou uma diferença fundamental entre ser conhecida e ser eleita.
Popularidade pode ajudar uma candidatura, mas não substitui uma campanha eleitoral, organização partidária, estrutura regional e, principalmente, votos distribuídos de maneira suficiente para alcançar uma das vagas disponíveis.
Uma primeira tentativa que não deu certo
Rachel reconheceu a derrota após o resultado.
Em manifestação publicada nas redes sociais, afirmou que “perder faz parte do processo eleitoral” e destacou a importância de reconhecer a soberania das urnas. Também agradeceu aos mais de 22 mil eleitores que votaram nela e desejou sabedoria aos eleitos.
A declaração é importante porque eleição também é isso.
O candidato apresenta seu nome.
O eleitor decide.
E o resultado precisa ser respeitado, seja ele uma vitória ou uma derrota.
A comparação com 2022
Rachel também lembrou que já havia recebido votos em uma tentativa anterior de candidatura, quando concorreu de forma mais rápida e sem tempo suficiente para desenvolver uma campanha.
Segundo ela, naquela ocasião recebeu cerca de 31 mil votos.
Em 2026, apesar de uma campanha mais estruturada, terminou com 22.453 votos.
Ou seja, a primeira experiência já havia mostrado que sua popularidade não se converteria automaticamente em mandato.
A segunda tentativa confirmou o desafio.
A ironia eleitoral
E aqui está a ironia da história.
Rachel passou boa parte de sua carreira falando sobre política.
Comentou governos.
Criticou políticos.
Debateu decisões.
Construiu uma identidade pública justamente em torno da análise dos acontecimentos políticos.
Quando chegou sua vez de entrar oficialmente na disputa, porém, descobriu aquilo que milhares de candidatos descobrem a cada eleição:
falar sobre política é uma coisa; conseguir votos para exercer um mandato é outra completamente diferente.
A urna eletrônica não mede audiência.
Não mede número de seguidores.
Não mede quantidade de entrevistas.
Não mede repercussão de comentário.
Ela registra votos.
E, em 2026, foram 22.453 para Rachel.
Outros famosos também ficaram pelo caminho
Rachel não foi a única personalidade conhecida a tentar uma vaga na Câmara e terminar sem mandato.
Em São Paulo, José Luiz Datena recebeu pouco mais de 51 mil votos e também não foi eleito. Silvia Abravanel ficou com 22.472 votos, praticamente empatada com Rachel, enquanto Manoel Gomes, o Caneta Azul, terminou com pouco mais de 7 mil.
A lista também contou com outros nomes conhecidos da televisão, do entretenimento e do esporte.
O fenômeno mostra que a transferência automática de fama para a política não é garantida.
O eleitor pode admirar um artista, acompanhar um jornalista, assistir a um apresentador ou conhecer um influenciador — e, ainda assim, escolher outra pessoa para representá-lo.
O que as urnas disseram
Não é necessário transformar a derrota em algo pessoal.
A mensagem eleitoral é mais simples.
Rachel Sheherazade apresentou seu nome. O eleitorado paulista respondeu.
Foram 22.453 pessoas que decidiram votar nela.
Outros milhões escolheram candidatos diferentes.
E São Paulo definiu suas 70 cadeiras na Câmara, seguindo o sistema proporcional, no qual os votos individuais e os votos recebidos pelos partidos ou federações influenciam a distribuição das vagas.
Portanto, mesmo uma votação aparentemente significativa não garante uma cadeira.
Um capítulo encerrado, mas não necessariamente o fim
A derrota de Rachel não significa necessariamente o fim de sua participação na política.
Ela continua sendo uma personalidade pública conhecida nacionalmente e poderá avaliar os próximos passos de sua carreira.
Mas a eleição de 2026 deixa uma lição bastante objetiva para qualquer celebridade que pretenda entrar na política:
o eleitor não vota em currículo televisivo. Vota em candidatos.
Rachel tinha reconhecimento nacional, experiência diante das câmeras e uma trajetória marcada pelo debate político.
Ainda assim, não conseguiu chegar à Câmara.
E talvez essa seja a parte mais interessante dessa eleição: a fama abre a porta da disputa, mas quem entrega a cadeira é o eleitor.
Desta vez, a porta se abriu.
A cadeira, não.
E a urna, como sempre, deu a última palavra.