
Otoni de Paula troca Bolsonaro por Lula e recebe resposta das urnas: fica fora da Câmara
Ex-bolsonarista que passou a atacar Bolsonaro e sua família declarou apoio a Lula ainda no primeiro turno e terminou a eleição com apenas 19.364 votos
A política tem dessas ironias que nem precisam de comentário: Otoni Moura de Paulo Junior, conhecido como Otoni de Paula, decidiu trocar o campo político que o ajudou a chegar à Câmara dos Deputados pelo apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e acabou sem mandato para a próxima legislatura.
Otoni de Paula, deputado federal pelo PSD do Rio de Janeiro, recebeu 19.364 votos nas eleições de 2026 e não conseguiu renovar sua cadeira na Câmara. A derrota encerra, pelo menos por enquanto, sua trajetória como deputado federal, depois de duas eleições consecutivas em que conseguiu se eleger.
E o resultado ganhou ainda mais repercussão porque sua mudança de posicionamento ocorreu justamente depois de anos de atuação associada ao bolsonarismo.
De aliado de Bolsonaro a apoiador de Lula
Otoni de Paula não era um político desconhecido dentro do campo bolsonarista.
Em 2018, foi eleito deputado federal pelo então PSC e, em 2022, conseguiu a reeleição pelo MDB. Antes disso, havia sido eleito vereador do Rio de Janeiro.
Ao longo de sua trajetória, Otoni adotou um discurso fortemente contrário ao PT e a Lula. Em 2022, por exemplo, chegou a fazer declarações extremamente duras contra o petista e afirmou que enfrentaria Lula “na bala”. Posteriormente, disse ter se arrependido da forma como havia se referido ao atual presidente.
O problema é que a mudança não ficou apenas na crítica ao antigo adversário.
Nos últimos tempos, Otoni passou a se afastar cada vez mais do bolsonarismo e a fazer críticas a Jair Bolsonaro, aos filhos do ex-presidente e à própria família Bolsonaro.
Até que veio a decisão definitiva: Otoni declarou apoio a Lula ainda no primeiro turno das eleições de 2026.
A aposta em Lula
No dia 2 de outubro, já na reta final do primeiro turno, Otoni anunciou publicamente seu voto em Lula.
O deputado afirmou que havia feito oposição “muito ferrenha” ao petista, mas que teria chegado a uma nova conclusão sobre Lula. Também disse que sua decisão era uma escolha consciente e que considerava a vitória do presidente importante para o país.
Na prática, Otoni decidiu colocar-se contra o candidato do campo político de onde havia surgido e declarar apoio ao principal adversário de Jair Bolsonaro.
E não parou aí.
O parlamentar afirmou que sua decisão também tinha como objetivo fazer oposição a Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência que avançou ao segundo turno contra Lula.
Ou seja: depois de anos construindo sua carreira dentro de um espaço político ligado ao bolsonarismo, Otoni resolveu apostar justamente no grupo que havia combatido durante boa parte de sua trajetória.
A resposta veio das urnas
O eleitorado fluminense respondeu no dia 4 de outubro.
Otoni de Paula recebeu 19.364 votos e ficou fora da próxima composição da Câmara dos Deputados. Segundo as informações eleitorais divulgadas, ele terminou como suplente.
É impossível afirmar que a derrota tenha ocorrido exclusivamente por causa de sua declaração de apoio a Lula. Uma eleição envolve inúmeros fatores, candidatos, partidos, quociente eleitoral, campanhas e escolhas individuais.
Mas existe uma coincidência política impossível de ignorar: Otoni anunciou apoio a Lula e, logo depois, não conseguiu renovar o próprio mandato.
Para quem acompanhou sua trajetória recente, a ironia praticamente se escreve sozinha.
O político que criticou Bolsonaro e perdeu espaço
Durante os últimos anos, Otoni se distanciou progressivamente do grupo político que havia sido fundamental para sua projeção nacional.
A crítica política faz parte da democracia. Um parlamentar tem todo o direito de mudar de opinião, romper com antigos aliados e escolher outro candidato.
O problema, para qualquer político profissional, é que o eleitor também tem o direito de mudar de opinião sobre o próprio político.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Otoni poderia romper com Bolsonaro. Poderia criticar Flávio. Poderia apoiar Lula. Poderia mudar de partido. Tudo isso é permitido.
Mas existe uma consequência democrática que nenhum político consegue controlar: o voto do eleitor.
E o eleitor fluminense falou.
De 158 mil votos a 19 mil
O tamanho da queda também chama atenção.
Em 2022, Otoni de Paula havia sido reeleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com 158.507 votos. Em 2018, quando chegou pela primeira vez à Câmara, recebeu 120.498 votos.
Em 2026, terminou com 19.364 votos.
A diferença entre a votação de 2022 e a de 2026 é de aproximadamente 139 mil votos a menos.
É uma queda eleitoral gigantesca.
E talvez seja justamente aí que esteja a principal lição dessa história: mandato não é propriedade particular de político.
O deputado pode mudar de lado. Pode mudar de discurso. Pode mudar de partido. Pode mudar de candidato.
Quem não é obrigado a acompanhar a mudança é o eleitor.
“Bem feito”? A política responde com o voto
Para os adversários políticos de Otoni, o resultado certamente será comemorado.
E, para aqueles que acompanharam sua passagem de aliado de Bolsonaro a crítico da família Bolsonaro, a derrota pode parecer uma espécie de acerto de contas eleitoral.
Mas a democracia não funciona como tribunal de vingança.
O resultado não significa que Otoni tenha cometido um crime por mudar de posição. Não significa que todo eleitor que votou nele anteriormente fosse obrigado a permanecer fiel ao político. E também não significa que todo voto tenha sido motivado exclusivamente por sua ruptura com Bolsonaro.
O que a eleição mostrou é algo muito mais simples:
Otoni fez sua escolha. O eleitor fez a dele.
E dessa vez, as duas escolhas não combinaram.
A ironia da eleição
Otoni de Paula chegou à política nacional defendendo posições que o aproximavam do eleitorado conservador e bolsonarista.
Foi eleito deputado federal em 2018 e reeleito em 2022.
Anos depois, afastou-se desse campo, passou a criticar Jair Bolsonaro e seus familiares e, na reta final do primeiro turno de 2026, declarou apoio a Lula.
Agora, ficará fora da Câmara a partir de 2027.
É difícil imaginar uma ironia eleitoral mais evidente.
O político decidiu abandonar o grupo que havia ajudado a elegê-lo e apostar em Lula.
O eleitor, por sua vez, parece ter respondido: “Boa sorte na nova escolha, mas o meu voto não vai junto.”
A família Bolsonaro, por outro lado, sai fortalecida
Enquanto Otoni ficou sem mandato, a família Bolsonaro teve uma eleição expressiva.
Flávio Bolsonaro avançou ao segundo turno da eleição presidencial contra Lula, enquanto Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal, Carlos Bolsonaro conquistou uma cadeira no Senado por Santa Catarina, Jair Renan Bolsonaro foi eleito deputado federal por Santa Catarina e Renato Bolsonaro conseguiu uma vaga na Câmara por São Paulo.
O resultado mostra que o eleitorado associado ao bolsonarismo continuou tendo força eleitoral significativa em 2026.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos e disputará a Presidência contra Lula no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Enquanto isso, Otoni, que decidiu apoiar justamente Lula e fazer oposição a Flávio, não conseguiu sequer renovar sua cadeira de deputado federal.
A política brasileira, às vezes, parece escrever seus próprios capítulos de ironia.
A lição para quem troca de lado
O caso Otoni de Paula deixa uma mensagem que vale para qualquer partido ou grupo político.
Nenhum político é dono do voto de seus eleitores.
A fidelidade partidária pode existir no papel, mas a fidelidade eleitoral precisa ser conquistada eleição após eleição.
Quem muda de posição tem esse direito.
Quem rompe com antigos aliados tem esse direito.
Quem passa a apoiar o adversário também tem esse direito.
Mas o eleitor possui exatamente o mesmo direito de dizer não.
E, em 2026, uma parcela enorme do eleitorado que antes havia escolhido Otoni de Paula simplesmente não repetiu a escolha.
No fim das contas, Otoni trocou Bolsonaro por Lula. Lula ganhou o apoio de Otoni. Mas Otoni perdeu o mandato.
Essa é a parte da história que nenhuma estratégia política consegue esconder.
Porque, no Brasil, pode-se mudar de partido, mudar de discurso, mudar de candidato e até mudar de lado.
Só não se pode escolher o próprio eleitor.