
Trump condiciona acordo nuclear civil com a Arábia Saudita à adesão aos Acordos de Abraão
Presidente dos Estados Unidos atrela cooperação nuclear à normalização das relações entre Riad e Israel, enquanto os sauditas mantêm como condição histórica a criação de um Estado palestino
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, condicionou a aprovação de um acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita à adesão do país aos Acordos de Abraão, mecanismo criado para promover a normalização das relações entre Israel e países árabes.
A declaração foi feita nesta quinta-feira (23), em uma publicação na rede Truth Social. Trump afirmou que o pacto nuclear negociado entre Washington e Riad será aprovado, mas vinculou sua entrada em vigor à decisão da Arábia Saudita de estabelecer relações diplomáticas com Israel.
“O acordo será aprovado, mas está totalmente condicionado à adesão da Arábia Saudita aos muito respeitados e bem-sucedidos Acordos de Abraão”, escreveu o presidente norte-americano.
A exigência coloca a cooperação nuclear no centro de uma negociação geopolítica mais ampla envolvendo segurança, energia, Israel, a questão palestina e a disputa por influência no Oriente Médio.
Acordo prevê cooperação nuclear civil
O pacto entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita foi anunciado na quarta-feira (22) pelo Departamento de Energia norte-americano. O acordo prevê cooperação para o desenvolvimento de energia nuclear civil, incluindo a construção de reatores e a transferência de tecnologia norte-americana.
Trump afirmou que o entendimento não prevê o uso militar da tecnologia nuclear.
“O acordo nuclear civil — não haverá enriquecimento de material — diz respeito apenas ao uso não militar”, afirmou.
O presidente norte-americano citou o Irã e os Emirados Árabes Unidos como exemplos de países que possuem programas de energia nuclear civil.
O acordo ainda precisa passar pelo Congresso dos Estados Unidos. A análise dos parlamentares pode resultar em oposição ao pacto, embora a derrubada de um acordo firmado pelo Poder Executivo exigisse uma maioria suficiente para superar eventual veto presidencial.
Ponto mais sensível: enriquecimento de urânio
Apesar da afirmação de Trump de que o acordo não permitirá o enriquecimento de material nuclear, informações sobre os termos do pacto geraram preocupação entre especialistas e setores de segurança internacional.
Segundo a Reuters, o entendimento permitiria à Arábia Saudita enriquecer urânio e reprocessar resíduos nucleares. As duas atividades são consideradas especialmente sensíveis porque podem, em determinadas circunstâncias, ser utilizadas como caminhos para a produção de material destinado a armas nucleares.
Os Emirados Árabes Unidos, que possuem um acordo semelhante com os Estados Unidos, abriram mão dessas duas atividades como parte do pacto firmado em 2009.
O governo norte-americano afirma que o acordo com Riad respeita os padrões de segurança nuclear e de não proliferação previstos na legislação dos Estados Unidos.
O secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, declarou que o pacto segue os mais altos padrões de segurança e não proliferação e envolve tecnologia e especialistas desenvolvidos nos Estados Unidos.
Arábia Saudita mantém exigência sobre Estado palestino
A exigência feita por Trump esbarra em uma posição histórica do governo saudita.
Riad tem afirmado que não aderirá aos Acordos de Abraão sem um roteiro concreto para a criação de um Estado palestino. A questão palestina permanece como um dos principais obstáculos para a normalização formal das relações entre a Arábia Saudita e Israel.
A vinculação feita por Trump transforma o acordo nuclear em uma ferramenta de pressão diplomática. De um lado, os Estados Unidos oferecem cooperação tecnológica e energética; de outro, exigem um avanço político de grande impacto regional.
A Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo do mundo, afirma que o acordo nuclear faz parte de seus esforços para diversificar sua matriz energética e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
O governo saudita também declarou que o pacto contempla elevados padrões internacionais de segurança, proteção e não proliferação nuclear.
O que são os Acordos de Abraão
Os Acordos de Abraão foram negociados durante o primeiro governo Trump, em 2020, com o objetivo de normalizar as relações entre Israel e países árabes.
Os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein foram os primeiros países a aderir ao processo. Posteriormente, Marrocos e Sudão também estabeleceram acordos de normalização com Israel.
A iniciativa rompeu um longo período em que apenas Egito e Jordânia mantinham relações diplomáticas formais com o Estado israelense entre os países árabes.
A expansão dos acordos, contudo, foi prejudicada pela guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza. O conflito aumentou a pressão política sobre os governos árabes e tornou mais difícil a aproximação pública com Israel.
Trump tenta ampliar acordo regional
Ao condicionar o pacto nuclear à adesão saudita, Trump busca reabrir uma das principais frentes de sua política externa no Oriente Médio: a ampliação dos Acordos de Abraão.
A entrada da Arábia Saudita no grupo teria peso estratégico muito maior do que os acordos anteriores, devido à influência econômica, política e religiosa do país na região.
Para Washington, uma normalização entre Riad e Israel poderia alterar o equilíbrio regional e fortalecer a aproximação entre os dois países. Para os sauditas, entretanto, o custo político de uma decisão desse tipo permanece elevado enquanto não houver avanços concretos na questão palestina.
O acordo nuclear, portanto, passou a integrar uma negociação mais ampla. A discussão não envolve apenas energia e tecnologia, mas também a arquitetura política do Oriente Médio, a relação entre Israel e os países árabes e o futuro da questão palestina.
Por enquanto, o pacto ainda depende da análise do Congresso dos Estados Unidos, enquanto a Arábia Saudita precisa decidir se aceitará a condição política imposta por Trump ou se manterá sua exigência de avanços em direção à criação de um Estado palestino antes de normalizar relações com Israel.