
“Vai ter criança, sim”: presidente da Parada LGBT desafia projeto de lei e reacende debate sobre limites do evento em São Paulo
Declaração de Nelson Matias provoca reação após avanço de proposta que tenta proibir menores na Parada LGBT+ e restringir evento a locais fechados
A declaração do presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, Nelson Matias, voltou a colocar a tradicional manifestação no centro de uma forte disputa política e jurídica. Durante coletiva realizada nesta semana, Matias afirmou que “vai ter criança, sim” na edição de 2026 da Parada LGBT+, marcada para o dia 7 de junho, na Avenida Paulista, mesmo diante do projeto de lei aprovado em primeira votação na Câmara Municipal de São Paulo que pretende proibir a presença de menores de idade no evento.
A fala gerou críticas de setores conservadores, juristas e parlamentares que defendem que qualquer manifestação pública precisa respeitar limites legais, classificação indicativa e proteção integral de crianças e adolescentes prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O projeto, de autoria do vereador Rubinho Nunes (União Brasil), determina que eventos com temática LGBTQIA+ sejam realizados apenas em locais fechados e com controle de entrada, além de impedir a participação de menores, mesmo acompanhados pelos pais. O texto também prevê multas que podem chegar a R$ 1 milhão em caso de descumprimento.
Apesar disso, Nelson Matias adotou um tom de enfrentamento ao afirmar que a Parada continuará ocupando a Avenida Paulista. Segundo ele, o evento representa “um ato de resistência” e “defesa da democracia”. A declaração, porém, acabou aumentando a tensão política em torno da proposta e abriu espaço para críticas sobre o que muitos classificam como desrespeito ao debate legislativo em andamento.
Para defensores do projeto, a proposta não impede manifestações da comunidade LGBT+, mas busca estabelecer regras semelhantes às exigidas em outros tipos de eventos públicos, principalmente quando há exposição de conteúdos considerados inadequados para crianças.
Críticos da postura da organização afirmam que, em vez de buscar diálogo institucional com a Câmara Municipal e setores da sociedade, parte da liderança da Parada preferiu transformar o tema em confronto político e ideológico. A fala de Nelson Matias foi vista por opositores como uma tentativa de desafiar antecipadamente uma possível futura legislação.
Nos bastidores políticos paulistanos, parlamentares ligados à oposição argumentam que a discussão não envolve censura ou proibição da comunidade LGBT+, mas sim o direito dos pais, a proteção de menores e o respeito às normas públicas. Eles afirmam que qualquer evento de grande porte precisa seguir regras claras de segurança, classificação etária e responsabilidade social.
A edição de 2026 da Parada também enfrenta dificuldades financeiras. Segundo a Associação Comercial de São Paulo, o impacto econômico esperado neste ano será menor do que em 2025. A previsão é de movimentação de cerca de R$ 466 milhões, uma queda de aproximadamente 15% em relação ao ano anterior.
A redução no número de patrocinadores preocupa os organizadores. Alguns artistas confirmados para o evento, como Gloria Groove, Melody, Pepita e Diego Martins, teriam aceitado participar mesmo com redução ou ausência de cachê. Neste ano, o desfile contará com 14 trios elétricos — número inferior ao das edições anteriores.
Enquanto apoiadores da Parada classificam o projeto como preconceituoso e inconstitucional, parlamentares favoráveis à proposta afirmam que o debate precisa ser tratado com responsabilidade e equilíbrio, sem transformar qualquer questionamento em perseguição política.
O texto ainda precisará passar por nova votação no plenário da Câmara Municipal antes de seguir para eventual sanção ou veto do prefeito Ricardo Nunes.
A discussão promete continuar intensa nas próximas semanas e deve ganhar ainda mais repercussão às vésperas do evento, principalmente diante do choque entre liberdade de manifestação, proteção de menores e respeito às normas públicas.