
đ Orçamento de 2026 expĂ”e contradiçÔes do governo Lula
Presidente sanciona regras fiscais, mas reforça dependĂȘncia do Congresso e mantĂ©m modelo que pressiona as contas pĂșblicas
O presidente Luiz InĂĄcio Lula da Silva sancionou a Lei de Diretrizes OrçamentĂĄrias (LDO) de 2026 com alguns vetos, em mais um movimento que evidencia a dificuldade do governo em equilibrar discurso fiscal e prĂĄtica polĂtica. O texto define as bases do Orçamento do prĂłximo ano e impĂ”e ao Executivo a obrigação de liberar rapidamente grande parte das emendas parlamentares â uma concessĂŁo clara ao Congresso em pleno ano eleitoral.
Pelas regras aprovadas, o governo terĂĄ de pagar 65% das emendas individuais e de bancada atĂ© o fim do primeiro semestre, especialmente nas ĂĄreas de saĂșde e assistĂȘncia social. Na prĂĄtica, isso antecipa bilhĂ”es de reais para redutos eleitorais de deputados e senadores, reduzindo a margem de manobra do Planalto e ampliando a dependĂȘncia polĂtica do governo em relação ao Parlamento.
đž Emendas aceleradas e orçamento engessado
A determinação tambĂ©m vale para as chamadas transferĂȘncias especiais, conhecidas como âemendas PIXâ, que seguem sob investigação do STF. Mesmo assim, o governo aceitou o calendĂĄrio acelerado, atendendo Ă pressĂŁo de congressistas interessados em ver os recursos liberados antes das eleiçÔes municipais.
Embora o relator da LDO afirme que houve negociação com o Planalto, o resultado final reforça a percepção de que Lula governa reagindo Ă s demandas do Congresso, e nĂŁo conduzindo uma estratĂ©gia fiscal consistente. Em dezembro, o prĂłprio Parlamento aprovou um Orçamento que reserva R$ 61 bilhĂ”es para emendas, valor que pesa diretamente sobre as contas pĂșblicas.
đ« Veto ao fundo partidĂĄrio nĂŁo muda o quadro
Lula vetou o trecho que ampliaria o cĂĄlculo do Fundo PartidĂĄrio, evitando um aumento estimado em cerca de R$ 150 milhĂ”es. O gesto, embora simbĂłlico, nĂŁo altera o cenĂĄrio geral: os fundos partidĂĄrio e eleitoral continuam protegidos de contingenciamento, e o financiamento pĂșblico de campanhas seguirĂĄ elevado em 2026.
O Fundo Eleitoral, por exemplo, foi fixado em R$ 4,9 bilhĂ”es, reforçando a contradição entre o discurso de responsabilidade fiscal e a manutenção de despesas polĂticas intocĂĄveis.
đ Meta fiscal flexĂvel e exceçÔes estratĂ©gicas
A LDO estabelece como objetivo central um superĂĄvit de R$ 34,3 bilhĂ”es, mas permite que o governo considere a meta cumprida mesmo com resultado neutro, sem saldo positivo. AlĂ©m disso, gastos de atĂ© R$ 10 bilhĂ”es com estatais ficaram fora do cĂĄlculo da meta â uma brecha que, segundo parlamentares, atende Ă necessidade de socorrer empresas como os Correios.
Na prĂĄtica, o governo poderĂĄ usar o piso da meta (dĂ©ficit zero) como referĂȘncia para congelar despesas, reduzindo o esforço fiscal efetivo. A flexibilização foi vista como vitĂłria do Planalto apĂłs recuo do TCU, que inicialmente defendia uma postura mais rĂgida.
â ïž Mais acomodação, menos clareza
O conjunto das medidas revela um governo que fala em equilĂbrio, mas aceita exceçÔes, posterga ajustes e amplia concessĂ”es polĂticas. A LDO de 2026 reflete um Planalto que evita decisĂ”es duras, prefere acordos imediatos e transfere custos para o futuro.
Para crĂticos, o problema nĂŁo estĂĄ apenas no texto sancionado, mas na falta de firmeza de Lula em conduzir a polĂtica fiscal com previsibilidade e coerĂȘncia â algo essencial em um paĂs que jĂĄ convive com dĂvida alta, crescimento lento e desconfiança do mercado.
đ No fim, o Orçamento de 2026 deixa claro que, mais uma vez, o discurso nĂŁo acompanha a prĂĄtica.