Alckmin exalta Lula como guardião da democracia e ignora o passado

Alckmin exalta Lula como guardião da democracia e ignora o passado

Vice-presidente muda o discurso e transforma antigo “inimigo” em símbolo democrático

Durante o ato que marcou os três anos do 8 de janeiro, o vice-presidente Geraldo Alckmin protagonizou um dos discursos mais simbólicos — e irônicos — do evento. Diante de autoridades dos Três Poderes, governadores, parlamentares e ministros, ele atribuiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um papel central na defesa da democracia brasileira, numa reviravolta política que não passou despercebida.

O discurso ocorreu pouco antes de Lula assinar o veto integral ao PL da Dosimetria, aprovado anteriormente pelo Congresso. Para Alckmin, a liderança de Lula teria sido decisiva para conter uma suposta ruptura institucional após as eleições. A fala arrancou aplausos no Salão Nobre do Planalto, embora tenha causado estranhamento fora dele.

A ironia é inevitável: o mesmo Lula que por anos foi tratado por Alckmin e seu grupo político como ameaça, adversário perigoso e até criminoso condenado, agora surge no discurso como herói da democracia e fiador das instituições. O que antes era ataque virou elogio; o que era crítica virou reverência.

Segundo o vice-presidente, o 8 de janeiro representou um teste extremo para o país, superado graças à reação das instituições — com Lula no centro do palco. Alckmin chegou a afirmar que, se mesmo perdendo a eleição houve tentativa de golpe, é possível imaginar o que teria ocorrido se o resultado fosse outro. A declaração reforçou a narrativa oficial do governo, alinhada à ideia de que apenas um lado político representa a democracia.

Ao citar figuras históricas como Mário Covas e o jurista Sobral Pinto, Alckmin defendeu que divergências ideológicas são naturais, mas que o compromisso com a democracia seria o verdadeiro divisor de águas. Ainda assim, críticos apontam a contradição: até ontem, Lula era alvo de duras acusações; hoje, é apresentado como exemplo de virtude institucional.

O vice-presidente também associou democracia a crescimento econômico, estabilidade e boa imagem internacional, creditando esses avanços à atual gestão. Para opositores, o discurso soou mais como peça de marketing político do que como análise honesta da história recente.

No encerramento, Alckmin defendeu punição rigorosa aos envolvidos nos atos antidemocráticos e afirmou que o futuro do Brasil depende do fortalecimento das instituições. A mensagem foi clara — embora seletiva: na nova versão da história, Lula deixa de ser vilão para assumir o papel de defensor da democracia, enquanto antigas críticas são convenientemente esquecidas em nome da aliança política do momento.

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