
Apoiadores de Flávio Bolsonaro tomam a Paulista em ato contra Lula e Moraes
Manifestação transforma o 7 de Setembro em palanque eleitoral para a direita e testa a capacidade de mobilização do candidato do PL à Presidência
A Avenida Paulista voltou a ser, nesta segunda-feira (7), um dos principais palcos da disputa política brasileira. Apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, começaram a se concentrar para um grande ato convocado para o feriado de 7 de Setembro, em uma mobilização marcada por críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A manifestação foi convocada para as 15h e adotou como principais palavras de ordem “Fora Lula, Fora Moraes” e “É agora ou nunca”. O Partido Liberal também divulgou a mensagem “Vamos juntos resgatar o Brasil” como parte da convocação.
O evento tem importância particular para Flávio Bolsonaro porque representa um dos primeiros grandes testes de rua de sua campanha presidencial. A Avenida Paulista foi durante anos um dos principais palcos das manifestações lideradas por seu pai, Jair Bolsonaro, e agora passa a ser utilizada pelo filho em uma tentativa de demonstrar que o movimento político continua capaz de mobilizar grandes contingentes mesmo depois da saída do ex-presidente da disputa eleitoral.
Paulista vira termômetro eleitoral
A escolha do local não é casual. A Paulista se transformou, nos últimos anos, em símbolo das grandes manifestações da direita brasileira. Em 2024 e 2025, atos realizados no endereço tiveram como um dos principais alvos o ministro Alexandre de Moraes.
Em 2026, Flávio decidiu assumir diretamente a organização política de uma nova manifestação e utilizar a data da Independência para testar sua força eleitoral. A mobilização ocorre em um momento no qual sua campanha tenta consolidar o nome do senador como principal representante do bolsonarismo na corrida pelo Palácio do Planalto.
A expectativa em torno do tamanho do público também ganhou dimensão política. Para os organizadores, uma grande concentração poderia funcionar como demonstração de força e dar impulso à candidatura. Para os adversários, o número de participantes será utilizado como indicador da capacidade real de mobilização do candidato.
A imprensa também trata o evento como um teste para a candidatura de Flávio. O objetivo não é apenas realizar um protesto contra Lula e Moraes, mas mostrar que o senador consegue transformar a herança política de Jair Bolsonaro em uma estrutura eleitoral própria.
Crise no STF domina o discurso
A mobilização ocorre em meio a uma nova crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal, especialmente depois da divulgação de mensagens relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes e ao empresário Daniel Vorcaro.
O episódio passou a ser explorado intensamente pela oposição e tornou-se um dos principais argumentos utilizados pela campanha de Flávio. A estratégia consiste em apresentar as críticas a Moraes como parte de uma defesa mais ampla das instituições e da necessidade de responsabilização individual de autoridades.
A situação também provocou tensão dentro do próprio STF. O ministro André Mendonça passou a ocupar posição de destaque no discurso dos grupos que criticam Moraes depois de divulgar informações relacionadas ao caso. O episódio aumentou a pressão política sobre a Corte e ofereceu à oposição um novo argumento para levar manifestantes às ruas.
Tarcísio também entra no cenário
A manifestação ganha ainda mais peso com a participação de Tarcísio de Freitas. O governador de São Paulo decidiu não comparecer ao desfile oficial realizado no Anhembi e cumpriu, pela manhã, uma agenda na Igreja Mundial do Poder de Deus, ao lado de Flávio Bolsonaro.
Posteriormente, sua presença estava prevista no ato da Avenida Paulista.
A movimentação coloca Tarcísio ao lado do candidato presidencial do PL justamente em um momento decisivo da disputa eleitoral. O governador, que concentra forte influência sobre o eleitorado conservador paulista, pode funcionar como um dos principais cabos eleitorais de Flávio no maior colégio eleitoral do país.
Ao mesmo tempo, Tarcísio tenta preservar sua própria trajetória política e sua posição como governador em busca da reeleição.
Zema faz manifestação própria
A direita, porém, não chegou unificada à Paulista.
Antes do ato de Flávio, o governador de Minas Gerais e candidato presidencial Romeu Zema realizou uma manifestação própria na região, com críticas ao STF e defesa de uma reforma do Judiciário. O candidato do Novo decidiu não participar do evento organizado por Flávio.
Renan Santos, candidato pelo Missão, também realizou uma manifestação separada no Obelisco do Ibirapuera.
A divisão revela uma disputa dentro do próprio campo da direita pelo protagonismo eleitoral. Embora os diferentes grupos tenham críticas semelhantes ao governo Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, cada candidatura procura construir uma identidade própria para conquistar o eleitor conservador.
Protestos também contra Tarcísio
A manhã na região da Paulista foi marcada ainda por manifestações contrárias ao governador Tarcísio de Freitas.
Grupos de manifestantes protestaram nas proximidades da avenida antes do início do ato de Flávio. Cartazes foram registrados com críticas ao governador e referências ao PT. Em determinado momento, a Polícia Militar utilizou gás e bombas para dispersar manifestantes nas proximidades da Rua Carlos Comenale. A ocorrência aconteceu antes do início da concentração principal e, segundo relatos divulgados, a situação estava controlada no início da tarde.
O episódio adicionou mais tensão a um cenário que já era marcado pela forte polarização política.
Michelle Bolsonaro não participa
Outro elemento que chama atenção é a ausência de Michelle Bolsonaro no ato paulista.
A ex-primeira-dama decidiu permanecer ao lado de Jair Bolsonaro e não participou da manifestação organizada por Flávio em São Paulo. A ausência também é observada dentro do contexto das diferentes agendas políticas da família Bolsonaro neste 7 de Setembro.
Apesar disso, a campanha de Flávio procurou reunir no mesmo palanque diferentes setores do bolsonarismo, lideranças políticas, religiosos e aliados de outros partidos.
Uma disputa pelo legado de Jair Bolsonaro
O ato da Paulista representa, portanto, mais do que uma manifestação contra Lula ou Alexandre de Moraes.
É também uma tentativa de responder a uma pergunta que passou a dominar a direita brasileira: quem será capaz de herdar politicamente o movimento construído por Jair Bolsonaro?
Flávio Bolsonaro parte da posição de filho do ex-presidente e candidato escolhido para disputar o Palácio do Planalto. Tarcísio de Freitas possui uma estrutura política própria e forte influência em São Paulo. Romeu Zema tenta apresentar uma alternativa liberal e mais independente do bolsonarismo tradicional. Outros candidatos também buscam espaço no mesmo eleitorado.
A Paulista, nesse cenário, funciona como uma espécie de medidor político.
Uma grande mobilização poderá ser apresentada pela campanha de Flávio como demonstração de força popular. Uma participação abaixo das expectativas, por outro lado, poderá alimentar dúvidas sobre a capacidade do candidato de reproduzir a força de mobilização que marcou os grandes atos de Jair Bolsonaro.
7 de Setembro vira palco da eleição
Enquanto Lula participou do desfile oficial de Independência em Brasília ao lado de representantes dos Poderes, São Paulo foi transformada pela oposição em palco de campanha e protesto.
A diferença entre as duas agendas resume a polarização política brasileira às vésperas das eleições de 2026.
De um lado, o governo procura preservar o caráter institucional da data. Do outro, a oposição utiliza o feriado para ocupar as ruas, atacar o governo federal e pressionar o Supremo Tribunal Federal.
Na Paulista, Flávio Bolsonaro tenta transformar essa insatisfação em capital eleitoral.
O desafio agora é converter a mobilização de rua em votos. E, sobretudo, provar que o sobrenome Bolsonaro continua sendo capaz de levar multidões às ruas mesmo sem a presença de Jair Bolsonaro no comando do palanque.
O 7 de Setembro de 2026, dessa forma, deixa de ser apenas uma celebração da Independência e se transforma em um dos primeiros grandes capítulos da disputa presidencial. Na Avenida Paulista, o tamanho da multidão, a força dos discursos e a presença de lideranças políticas serão observados como sinais do que poderá acontecer nas urnas.