
Zema leva protesto contra STF à Paulista e defende reforma do Judiciário
Candidato à Presidência transforma 7 de Setembro em ato de oposição ao Supremo, critica Alexandre de Moraes e afirma que é necessário mudar a estrutura do Judiciário brasileiro
O candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) aproveitou o feriado de 7 de Setembro para realizar uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, com críticas contundentes ao Supremo Tribunal Federal (STF) e defesa de uma ampla reforma do Judiciário.
Zema iniciou o ato pela manhã, por volta das 9h20, na região da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Depois, caminhou em direção ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) e concedeu declarações à imprensa. A manifestação foi organizada separadamente do ato convocado por Flávio Bolsonaro (PL), marcado para a tarde no mesmo endereço. A campanha de Zema afirmou que ele não participaria do evento de Flávio.
A mobilização foi apresentada pelo candidato como uma manifestação contra o que considera excessos do sistema político brasileiro, especialmente do Poder Judiciário. Antes do evento, Zema afirmou que o protesto não deveria ser entendido como uma manifestação exclusivamente sua ou do Partido Novo, mas como uma mobilização de brasileiros insatisfeitos com o funcionamento das instituições.
Críticas diretas a Alexandre de Moraes
Durante o discurso na Paulista, Zema elevou o tom contra o ministro Alexandre de Moraes. Ao abordar as acusações e questionamentos relacionados à relação do ministro com o empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, o candidato fez uma das declarações mais duras do ato.
Zema afirmou que, em sua avaliação, um ministro que tivesse prestado serviços a alguém que ele classificou como criminoso deveria ser afastado e poderia até ser preso. A declaração foi apresentada como opinião política do candidato e não como conclusão judicial sobre a existência de crime por parte do ministro.
O candidato também criticou outros integrantes da Suprema Corte. Em seu discurso, citou Flávio Dino, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, associando-os politicamente ao grupo que, segundo sua avaliação, estaria próximo de Moraes e Vorcaro.
As acusações feitas por Zema ocorrem em um momento de elevada tensão dentro do próprio STF. A divulgação de informações relacionadas à investigação envolvendo Daniel Vorcaro e as discussões envolvendo Moraes e o ministro André Mendonça ampliaram o confronto político em torno da Corte.
Defesa de uma reforma do Judiciário
Mais do que atacar ministros individualmente, Zema procurou apresentar o protesto como parte de uma proposta mais ampla de transformação do sistema judicial brasileiro.
O candidato defendeu uma reforma do Judiciário e afirmou que é necessário estabelecer limites mais claros para a atuação das instituições. A mensagem apresentada por sua campanha foi a de que o Brasil precisa enfrentar aquilo que considera um desequilíbrio entre os Poderes.
A manifestação ocorre justamente quando a discussão sobre uma reforma do Judiciário ganhou espaço também entre setores que tradicionalmente não fazem oposição ao STF.
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, passou a discutir uma agenda própria de reforma judicial, incluindo propostas relacionadas à transparência, combate à corrupção, controle de gastos e eventual discussão sobre mandatos para ministros do Supremo. Isso mostra que, embora os diagnósticos e objetivos sejam diferentes, o funcionamento do Judiciário entrou definitivamente no debate eleitoral de 2026.
Zema tenta ocupar espaço na direita
O ato também tem importância eleitoral. Zema disputa a Presidência em um campo político no qual outros candidatos da direita procuram conquistar o eleitorado que se identifica com o bolsonarismo e com uma agenda de oposição ao governo Lula.
No mesmo 7 de Setembro, Flávio Bolsonaro convocou um ato para a Avenida Paulista com os lemas “Fora Lula” e “Fora Moraes”. Tarcísio de Freitas também tinha participação prevista na manifestação da tarde. Zema, entretanto, decidiu realizar uma mobilização própria pela manhã.
A divisão dos atos revela também uma disputa por protagonismo dentro da direita brasileira. Em vez de concentrar todos os nomes em uma única manifestação, diferentes candidatos escolheram agendas próprias para marcar posição diante de seus respectivos eleitores.
Zema tenta, dessa maneira, apresentar-se como uma alternativa dentro do campo conservador, combinando discurso liberal na economia, oposição ao PT e uma postura particularmente dura em relação ao STF.
O contexto da crise no Supremo
O discurso de Zema ocorre em meio a uma crise institucional que se intensificou nas últimas semanas.
O caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master passou a ocupar o centro das discussões políticas depois da divulgação de informações relacionadas à investigação conduzida pela Polícia Federal. O episódio provocou novos embates entre integrantes do Supremo, especialmente entre Alexandre de Moraes e André Mendonça.
A crise passou a ser explorada eleitoralmente pela oposição, que utiliza o episódio para questionar a independência, a transparência e os mecanismos de controle da Suprema Corte.
Ao mesmo tempo, integrantes e defensores do STF rejeitam a ideia de que críticas políticas possam ser utilizadas para antecipar conclusões sobre investigações ainda em andamento.
É nesse ambiente de forte polarização que Zema decidiu colocar o Judiciário no centro de sua manifestação de 7 de Setembro.
Um 7 de Setembro marcado pela disputa política
O contraste entre as agendas dos principais grupos políticos foi evidente.
Em Brasília, Lula participou do desfile oficial de Independência ao lado de representantes dos Três Poderes. Em São Paulo, diferentes setores da direita organizaram manifestações contra o governo federal e contra ministros do Supremo.
A Avenida Paulista voltou, assim, a funcionar como um dos principais palcos da disputa política brasileira.
Para Zema, o objetivo foi transformar a data nacional em uma demonstração de força contra o que chama de excessos do Judiciário. O candidato afirmou que pretende dar voz aos brasileiros que considera indignados com instituições que, em sua avaliação, se tornaram excessivamente poderosas.
A estratégia é clara: associar sua candidatura à defesa de uma mudança estrutural no funcionamento das instituições brasileiras e explorar o desgaste provocado pela atual crise envolvendo o STF.
Discurso mais duro em ano eleitoral
A manifestação também confirma o tom que Zema pretende imprimir à sua campanha presidencial. Em vez de adotar uma posição moderada diante da crise institucional, o candidato escolheu confrontar diretamente ministros da Suprema Corte e transformar a reforma do Judiciário em uma das bandeiras de sua candidatura.
A estratégia poderá ajudá-lo a disputar o eleitorado que deseja mudanças profundas no sistema político e que considera o STF excessivamente influente. Por outro lado, o tom das declarações também tende a aumentar a polarização em torno de sua candidatura.
O episódio mostra que o Judiciário deixou de ser apenas tema institucional e passou a ocupar posição central na disputa eleitoral de 2026.
Na Avenida Paulista, Zema tentou transformar essa insatisfação em discurso político. Ao defender uma reforma do Judiciário e atacar diretamente Alexandre de Moraes e outros ministros, o candidato apresentou sua campanha como uma proposta de ruptura com aquilo que chama de “intocáveis” de Brasília.
O 7 de Setembro de 2026, portanto, não foi apenas uma data de celebração da Independência. Em São Paulo, transformou-se também em um dos mais importantes palcos da batalha eleitoral pela direita e em uma demonstração de que a crise envolvendo o Supremo será um dos temas centrais da corrida presidencial.