
Após explosão em trem, Haddad acusa Tarcísio de levar São Paulo ao “caos” e promete revisar privatizações
Pré-candidato ao governo paulista aproveitou pane que paralisou três linhas ferroviárias para ampliar críticas à gestão estadual; além dos transportes, citou problemas na Sabesp, segurança pública, escolas e aumento dos feminicídios
A explosão registrada em um trem da Linha 12-Safira, na manhã desta quinta-feira (23), transformou-se em novo combustível para a disputa política pelo governo de São Paulo. Em meio à paralisação de três linhas ferroviárias, passageiros caminhando pelos trilhos e sobrecarga no sistema metroviário, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), pré-candidato ao Palácio dos Bandeirantes, elevou o tom contra a administração do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Durante entrevista à rádio Nova Brasil FM, Haddad acusou o governo estadual de conduzir São Paulo a um cenário de deterioração dos serviços públicos e resumiu suas críticas em uma sequência de temas que devem ocupar espaço central na campanha eleitoral de 2026.
“Caos nos trens privatizados. Falta de água na Sabesp privatizada. Corrupção na segurança e na Secretaria da Fazenda. Escola pública sucateada. Feminicídio em alta. Parabéns, Tarcísio.”
A declaração ocorreu justamente no dia em que uma ocorrência em um trem provocou uma das maiores interrupções recentes na operação ferroviária da Região Metropolitana de São Paulo. Por volta das 6h, uma explosão atingiu uma composição da Linha 12-Safira. Um dos vagões ficou carbonizado e a ocorrência afetou o fornecimento de energia em parte da malha ferroviária.
Imagens registradas por passageiros mostraram o momento de tensão dentro da composição. A explosão foi seguida por gritos, correria e a retirada dos usuários. Apesar do impacto do incidente, não houve registro de feridos, segundo as informações divulgadas sobre a ocorrência.
A interrupção, no entanto, provocou efeitos em cadeia. As linhas 11-Coral e 13-Jade também tiveram a operação afetada, assim como o Serviço Expresso Aeroporto. Em determinados pontos, passageiros precisaram deixar os trens e caminhar pelos trilhos. Com a interrupção da circulação ferroviária, muitos usuários migraram para a Linha 3-Vermelha do Metrô, que passou a operar com forte sobrecarga.
O episódio ganhou peso político porque ocorreu apenas no terceiro dia da operação definitiva da Trivia Trens, concessionária que assumiu ramais anteriormente administrados pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).
A empresa privada passou, portanto, a ser alvo de atenção justamente no momento em que o governo estadual enfrenta críticas sobre o modelo de concessão e a qualidade dos serviços oferecidos à população. Para a oposição, o incidente reforça questionamentos sobre a capacidade de fiscalização do Estado diante da transferência de serviços públicos para a iniciativa privada.
Haddad promete revisar contratos
A partir desse cenário, Haddad afirmou que, caso seja eleito governador, pretende revisar contratos de concessão relacionados ao sistema de transporte sobre trilhos. A análise, segundo ele, também alcançaria a privatização da Sabesp e o projeto de construção de um novo Centro Administrativo do governo paulista.
“Em SP, vou fazer a mesma coisa. Vou analisar o contrato da Sabesp, o contrato do Centro Administrativo e os contratos da CPTM, que vêm apresentando tantos problemas depois da privatização”, afirmou.
Embora tenha utilizado a expressão “contratos da CPTM”, Haddad se referia às concessões de linhas ferroviárias que anteriormente estavam sob responsabilidade da estatal e passaram a ser administradas por empresas privadas.
O pré-candidato, contudo, não defendeu o cancelamento automático de todos os contratos. A proposta apresentada é que cada acordo seja examinado individualmente, com a preservação de medidas consideradas positivas e a revisão de cláusulas que possam, na avaliação de um eventual governo petista, causar prejuízos ao poder público ou aos usuários.
A estratégia coloca as privatizações no centro da disputa eleitoral paulista. O modelo adotado pelo governo Tarcísio para setores como transporte e saneamento deverá ser confrontado pela oposição com uma proposta de maior revisão dos contratos e cobrança de resultados das concessionárias.
Transporte, água e segurança entram no centro da disputa
Ao citar os problemas nos trens, a situação da Sabesp, a segurança pública, a educação e os feminicídios, Haddad procurou ampliar o alcance de sua crítica. A avaliação do pré-candidato é que a eleição estadual não deverá ser decidida apenas pela discussão ideológica, mas também pela percepção dos eleitores sobre a qualidade dos serviços que utilizam diariamente.
O transporte público, especialmente, tende a se tornar uma das principais frentes de confronto entre Haddad e Tarcísio. A sucessão de falhas, interrupções e acidentes envolvendo a rede ferroviária oferece à oposição um argumento para questionar o processo de concessão e a fiscalização dos serviços.
A gestão estadual, por outro lado, deverá defender o modelo de participação privada e argumentar que a responsabilidade das concessionárias não elimina o papel do poder público na fiscalização e na aplicação de medidas corretivas.
A privatização da Sabesp também deverá ocupar lugar importante na campanha. Haddad afirmou que pretende analisar o contrato da companhia, numa indicação de que o tema poderá ser levado para o centro do debate sobre tarifas, abastecimento, investimentos e controle público dos serviços de saneamento.
Um novo capítulo na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes
A declaração de Haddad ocorre em um momento de intensificação da disputa pelo governo de São Paulo. De um lado, Tarcísio de Freitas busca consolidar sua imagem de gestor associado à agenda de investimentos, concessões e privatizações. De outro, a oposição tenta transformar problemas cotidianos — como falhas no transporte, abastecimento de água, segurança e condições das escolas — em símbolos de uma administração que, na visão de seus adversários, teria priorizado a transferência de serviços ao setor privado sem garantir qualidade suficiente à população.
A explosão no trem da Linha 12-Safira acabou funcionando como uma imagem poderosa para esse embate político. Enquanto milhares de passageiros enfrentavam uma manhã de transtornos, a oposição encontrou um episódio concreto para atacar a política de concessões do governo estadual.
Ao resumir sua crítica com a frase “Parabéns, Tarcísio”, Haddad adotou um tom irônico e direto, sinalizando que sua pré-campanha pretende explorar cada falha na prestação dos serviços públicos como parte de uma narrativa mais ampla sobre os resultados da atual administração.
A disputa, portanto, começa a ganhar contornos mais definidos. Privatizações, concessões, qualidade do transporte, saneamento, segurança pública, educação e proteção às mulheres deverão formar o núcleo de uma campanha em que a avaliação da gestão Tarcísio será confrontada com a promessa de revisão dos contratos e de retomada de maior controle estatal sobre áreas consideradas estratégicas.
Com o calendário eleitoral avançando, episódios como a paralisação dos trens deixam de ser apenas problemas administrativos e passam a integrar diretamente o campo de batalha político. Em São Paulo, a crise nos trilhos já se transformou em munição eleitoral.