
Brasil registra recorde de feminicídios enquanto mortes violentas atingem menor patamar em 13 anos
Contraste expõe uma das principais contradições da segurança pública brasileira: assassinatos caem ao menor nível desde 2012, mas mulheres continuam sendo mortas em número crescente; violência doméstica e descumprimento de medidas protetivas também avançam
O Brasil encerrou 2025 diante de um cenário marcado por uma contradição brutal. Enquanto o número geral de mortes violentas intencionais caiu ao menor patamar em 13 anos, os feminicídios atingiram o maior número desde que o crime passou a ser tipificado no país.
Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento mostra que 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025 — uma média de aproximadamente quatro mortes por dia. O número representa alta de 4% em relação aos 1.504 casos registrados em 2024.
O crescimento ocorre justamente em um momento de redução expressiva da violência letal em geral. No ano passado, foram contabilizadas 40.775 mortes violentas intencionais no país, 8% menos que as 44.126 registradas em 2024. É o menor número desde 2012, quando começou a série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O contraste coloca em evidência uma característica específica da violência contra as mulheres: a redução geral dos assassinatos não tem sido acompanhada pela queda das mortes motivadas por violência doméstica, familiar, menosprezo ou discriminação à condição feminina.
Quatro mulheres mortas por dia
O feminicídio foi incluído no Código Penal como crime específico em 2015. Desde então, os registros vêm sendo acompanhados de forma sistemática pelas autoridades de segurança pública.
Em 2025, o país atingiu o maior número da série histórica, com 1.571 vítimas. Além da alta de 4% em relação ao ano anterior, o dado representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia em circunstâncias classificadas como feminicídio.
A coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, avalia que o aumento não pode ser explicado apenas pela melhoria na identificação e no registro dos crimes.
Segundo a especialista, o crescimento contínuo ao longo dos anos indica “sinais consistentes de aumento real” desse tipo de violência. A avaliação é que, caso o fenômeno fosse resultado exclusivamente de uma melhora na classificação dos crimes, seria esperada uma estabilização depois de alguns anos de monitoramento.
O cenário, porém, aponta para uma trajetória diferente.
A alta dos feminicídios ocorre paralelamente ao aumento de outros indicadores relacionados à violência contra mulheres, o que reforça a hipótese de agravamento de um problema estrutural.
Violência doméstica avança em diferentes frentes
O Anuário revela crescimento em vários tipos de violência contra as mulheres em 2025.
Os registros de tentativa de feminicídio aumentaram 6%. As agressões decorrentes de violência doméstica cresceram 2,6%. A violência psicológica subiu 17%, enquanto os casos de descumprimento de medidas protetivas avançaram 17%.
Também houve aumento de 30% nos registros de stalking, modalidade de perseguição que pode envolver monitoramento insistente, invasão da privacidade e ameaças à vítima. Os registros de ameaças cresceram 0,5%.
Outro dado chama atenção: para cada feminicídio consumado, foram registradas três tentativas ao longo de 2025.
O conjunto dos números sugere que a violência letal frequentemente representa o estágio final de uma trajetória que já havia sido identificada por familiares, autoridades ou pela própria vítima.
Para Juliana Brandão, a violência doméstica está relacionada à desigualdade de gênero, a padrões culturais de dominação masculina e ao controle coercitivo sobre a vida e a autonomia das mulheres.
A especialista também aponta fragilidades na rede de proteção e limites na capacidade do Estado de interromper ciclos de violência antes que eles terminem em morte.
Menor número de mortes violentas desde 2012
No sentido oposto ao avanço dos feminicídios, o Brasil registrou uma queda expressiva nas mortes violentas intencionais.
Foram 40.775 vítimas em 2025, uma redução de 8% em relação ao ano anterior. A taxa nacional chegou a 19,1 mortes violentas por 100 mil habitantes, a menor registrada desde o início da série histórica, em 2012.
O resultado representa também a primeira vez em que o país ficou abaixo da marca de 20 mortes violentas por 100 mil habitantes.
A redução foi registrada em 20 das 27 unidades federativas. Entre as maiores quedas estão:
- Amazonas: redução de 32,5%;
- Rio Grande do Sul: queda de 25,7%;
- Mato Grosso: redução de 23,2%.
O resultado também fez o Brasil alcançar, com dois anos de antecedência, uma meta prevista no Plano Nacional de Segurança Pública. O objetivo estabelecido para 2027 era alcançar uma taxa de 16 homicídios dolosos por 100 mil habitantes. Em 2025, o país registrou 15,4 homicídios dolosos por 100 mil habitantes.
David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, classificou a queda das mortes violentas como um resultado significativo e parte de uma tendência de redução observada desde 2018.
Para ele, o resultado representa um avanço importante nas políticas de segurança pública. Ao mesmo tempo, o especialista destaca que a queda geral da violência não elimina problemas específicos que continuam se agravando.
Entre eles estão justamente os feminicídios e as mortes decorrentes de intervenções policiais.
A contradição que desafia as políticas públicas
Os dados mostram que a violência no Brasil não se comporta de maneira uniforme.
O país pode reduzir homicídios, latrocínios e outras formas de mortes violentas e, ao mesmo tempo, registrar aumento de crimes praticados dentro de residências, relações afetivas e contextos de violência doméstica.
Essa diferença é fundamental para a formulação de políticas públicas. A queda geral dos assassinatos não significa necessariamente que todos os grupos estejam igualmente protegidos.
No caso dos feminicídios, a violência frequentemente ocorre em ambientes conhecidos pela vítima e pode ser precedida por ameaças, agressões, perseguição, violência psicológica e descumprimento de medidas protetivas.
Por isso, o crescimento desses indicadores levanta questionamentos sobre a capacidade de prevenção do Estado. A existência de uma denúncia, de uma medida protetiva ou de um histórico de violência nem sempre tem sido suficiente para impedir que a agressão avance até o assassinato.
O Anuário aponta justamente para essa dificuldade: interromper trajetórias de violência que, em muitos casos, já eram conhecidas pelas instituições.
Nordeste concentra as cidades mais violentas
O levantamento também apresenta um recorte territorial da violência letal. As dez cidades mais violentas do país estão localizadas no Nordeste, e metade delas fica na Bahia.
Maranguape, no Ceará, lidera o ranking pelo segundo ano consecutivo. O município foi o único a superar a marca de 100 mortes violentas por 100 mil habitantes.
O dado evidencia que, apesar da queda nacional, a violência continua concentrada em determinados territórios e regiões. A redução média do país, portanto, convive com áreas que permanecem submetidas a níveis extremamente elevados de criminalidade letal.
Essa desigualdade territorial também exige políticas específicas, uma vez que as causas da violência e a capacidade de resposta do poder público variam significativamente entre estados e municípios.
Uma queda histórica que não alcança todas as mulheres
O balanço de 2025 deixa uma mensagem dupla para a segurança pública brasileira.
De um lado, o país conseguiu reduzir as mortes violentas ao menor nível desde 2012. A taxa geral caiu para 19,1 mortes por 100 mil habitantes, consolidando uma tendência positiva observada nos últimos anos.
De outro, o feminicídio atingiu um recorde histórico. O crescimento dos assassinatos de mulheres veio acompanhado de aumentos em tentativas de feminicídio, violência psicológica, stalking e descumprimento de medidas protetivas.
A combinação desses dados mostra que a redução da violência letal no Brasil não pode ser analisada apenas por números gerais. A queda dos homicídios não significa que a violência tenha diminuído da mesma forma em todos os contextos.
Para milhares de mulheres, 2025 foi mais um ano de ameaças, perseguições, agressões e violência doméstica. Para 1.571 delas, essa trajetória terminou em morte.
A principal conclusão do Anuário é, portanto, tão clara quanto incômoda: o Brasil avançou na redução geral dos assassinatos, mas continua falhando em impedir que a violência contra as mulheres se transforme em uma sentença fatal.