
Brasileiras apoiam Lula na Polônia e viram alvo de eurodeputado após foto com símbolos do PT
Duas eleitoras brasileiras apareceram em Varsóvia fazendo o gesto de “L” e usando símbolos do PT; eurodeputado Dominik Tarczyński pediu informações sobre elas nas redes sociais e posteriormente falou em possível deportação

A eleição presidencial brasileira atravessou as fronteiras e acabou provocando uma situação inusitada na Polônia. Duas brasileiras que foram votar em Varsóvia no primeiro turno das eleições de 2026 passaram a ser alvo de uma mobilização nas redes sociais depois que uma fotografia delas, com referências ao Partido dos Trabalhadores (PT) e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi publicada pelo eurodeputado polonês Dominik Tarczyński.
A imagem foi registrada em frente ao Consulado-Geral do Brasil em Varsóvia, onde brasileiros residentes ou presentes na Polônia participaram da votação. As duas mulheres aparecem sorrindo, fazendo com as mãos o gesto de “L”, associado a Lula. Uma delas aparece usando um broche vermelho em formato de estrela com a inscrição “PT”, enquanto a outra utiliza um acessório vermelho.
A cena, que para as eleitoras representava uma manifestação pública de apoio político ao candidato brasileiro, acabou ganhando uma dimensão internacional depois da publicação feita pelo parlamentar polonês.
Tarczyński compartilhou a fotografia em suas redes sociais e pediu que seus seguidores fornecessem informações sobre as mulheres por mensagem privada.
“Se alguém tiver informações sobre estas senhoras, por favor, entre em contato por mensagem privada. URGENTE”, escreveu o eurodeputado.
A publicação provocou milhares de reações e abriu uma discussão sobre liberdade de manifestação política, legislação polonesa e os limites da exposição de cidadãos nas redes sociais.
O apoio a Lula foi público
Não há dúvida, pela própria fotografia, de que as brasileiras demonstravam apoio a Lula. O gesto de “L” e os símbolos associados ao PT deixavam clara a manifestação política naquele momento.
E aí está uma das ironias do episódio: elas estavam em outro país, mas continuavam participando ativamente da política brasileira.
Mesmo vivendo ou estando temporariamente na Polônia, as eleitoras tinham o direito de participar da eleição presidencial brasileira realizada no exterior, dentro das regras estabelecidas para o voto de brasileiros fora do país.
A fotografia mostra justamente uma cena de participação eleitoral: duas brasileiras foram votar e decidiram demonstrar publicamente a preferência política que haviam feito.
O problema surgiu quando a imagem deixou de ser apenas uma fotografia de duas eleitoras brasileiras e passou a ser utilizada por um parlamentar polonês para tentar identificá-las.
Eurodeputado também declarou apoio a Flávio Bolsonaro
O episódio ganhou uma dimensão ainda maior porque Tarczyński havia se manifestado favoravelmente a Flávio Bolsonaro (PL), que terminou o primeiro turno na liderança da disputa presidencial brasileira.
Antes de divulgar a fotografia das brasileiras, o parlamentar parabenizou Flávio pelo resultado eleitoral e publicou uma mensagem defendendo que o Brasil se afastasse do que classificou como comunismo.
O eurodeputado integra o partido Lei e Justiça (PiS) e é membro do Parlamento Europeu. Sua atuação política está associada a posições conservadoras, incluindo pautas relacionadas à imigração e à política externa.
Portanto, o episódio envolvendo as brasileiras ocorreu em um ambiente de forte disputa política, com o parlamentar demonstrando simultaneamente seu posicionamento favorável a Flávio e sua oposição ao campo político representado por Lula e pelo PT.
A questão da legislação polonesa
Tarczyński relacionou a situação à legislação polonesa que estabelece restrições à promoção de regimes totalitários.
A Constituição da Polônia possui dispositivos que proíbem partidos e organizações cujos programas ou atividades se baseiem em métodos e práticas associados a regimes totalitários, incluindo nazismo, fascismo e comunismo.
A legislação penal polonesa também possui dispositivos relacionados à promoção pública desses sistemas.
Entretanto, uma questão importante precisa ser destacada: o simples fato de uma brasileira utilizar um broche com a sigla PT não significa automaticamente que ela tenha cometido um crime na Polônia.
Reportagens sobre o caso apontaram que o parlamentar não apresentou, em sua primeira publicação, uma acusação formal contra as mulheres nem indicou qual crime específico elas teriam cometido.
Também não havia, até as informações divulgadas, confirmação de que uma autoridade policial ou judicial polonesa tivesse aberto investigação oficial contra as brasileiras.
Ou seja, uma publicação de um parlamentar nas redes sociais não equivale a uma decisão da Justiça ou a uma determinação de deportação.
A polêmica da exposição nas redes
Depois da publicação, usuários começaram a tentar descobrir quem eram as brasileiras. Perfis que supostamente pertenceriam às mulheres foram compartilhados por internautas, enquanto alguns pedidos de deportação apareceram nos comentários.
Algumas dessas contas posteriormente foram fechadas ou apagadas.
A situação levanta uma questão importante: até onde pode chegar uma mobilização política nas redes sociais quando envolve pessoas comuns que não ocupam cargos públicos?
As brasileiras não eram candidatas, parlamentares ou autoridades. Eram eleitoras que foram a um local de votação e manifestaram sua preferência política.
A exposição das imagens, seguida de pedidos públicos para identificação, acabou transformando duas eleitoras desconhecidas em personagens de uma disputa política internacional.
A ironia de votar no exterior
O caso também carrega uma dose evidente de ironia.
As brasileiras estavam na Polônia, mas continuavam votando em uma eleição que dizia respeito diretamente ao futuro do Brasil.
Em vez de deixarem a política brasileira para trás por estarem no exterior, fizeram questão de demonstrar sua preferência por Lula.
E, ao fazerem isso, acabaram chamando a atenção de um político polonês que justamente apoiava o adversário de Lula.
É uma demonstração curiosa de como a polarização brasileira ultrapassou as fronteiras nacionais.
O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, e os dois candidatos avançaram para o segundo turno. No exterior, como no Brasil, os brasileiros foram às urnas para escolher o próximo presidente.
Para as duas eleitoras fotografadas em Varsóvia, a escolha foi demonstrada publicamente: Lula.
Deportação não foi determinada
Outro ponto fundamental é separar declaração política de decisão oficial.
Embora Tarczyński tenha posteriormente falado em ajudar as brasileiras a “arrumar as malas” antes de uma eventual deportação, não havia confirmação de que uma autoridade polonesa tivesse determinado a expulsão das mulheres.
Também não havia confirmação de uma decisão judicial que estabelecesse que o uso do símbolo do PT pelas brasileiras configuraria, por si só, uma infração passível de deportação.
A eventual aplicação das normas polonesas dependeria de uma análise concreta das circunstâncias pelas autoridades competentes.
Liberdade política também atravessa fronteiras
O episódio mostra como uma eleição brasileira pode provocar reações muito além do território nacional.
Duas brasileiras foram votar em Varsóvia, demonstraram apoio a Lula e acabaram entrando no radar de um parlamentar europeu que apoia o campo político adversário.
O caso também demonstra a necessidade de distinguir manifestação política, investigação oficial e decisão judicial.
As brasileiras fizeram uma escolha eleitoral. Tarczyński fez uma manifestação política. Usuários das redes sociais reagiram. Mas, até então, não havia decisão oficial de deportação nem comprovação de que as mulheres tivessem cometido algum crime.
No fim, a cena que começou com duas brasileiras fazendo o “L” em frente ao local de votação transformou-se em mais um capítulo da intensa disputa política brasileira de 2026 — desta vez, com a eleição de Lula, o PT, Flávio Bolsonaro e até a política interna da Polônia dividindo espaço na mesma história.
E talvez a maior ironia seja justamente essa: elas foram à Polônia para votar no Brasil, exibiram publicamente que apoiavam Lula e acabaram virando notícia justamente por causa da escolha política que fizeram nas urnas.