
Ciro Nogueira aparece dançando com Daniel Vorcaro em festa nos Alpes franceses; viagem de quase R$ 2 milhões bancada pelo banqueiro entra novamente no centro das investigações
Novas imagens mostram o senador do PP ao lado de Daniel Vorcaro, Flávia Rosalen e Martha Graeff durante festa em Courchevel; documentos analisados pela Polícia Federal apontam despesas milionárias atribuídas ao ex-banqueiro e levantam novos questionamentos sobre a relação entre o político e o antigo controlador do Banco Master
Novas imagens divulgadas neste sábado (3) pela revista piauí colocam novamente o senador Ciro Nogueira (PP-PI) no centro das atenções no caso envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Os vídeos e fotografias foram extraídos do celular de Vorcaro e mostram Ciro em momentos de descontração ao lado do banqueiro durante uma viagem a Courchevel, uma das mais conhecidas e luxuosas estações de esqui dos Alpes franceses.
Em uma das gravações, Ciro aparece dançando diante da câmera ao lado de Daniel Vorcaro, de sua então companheira Flávia Rosalen e da então noiva do banqueiro, Martha Graeff. O registro foi feito em 22 de janeiro de 2025, durante uma festa no restaurante Baïes.
As imagens não mostram, por si mesmas, qualquer ilegalidade. O que coloca o episódio sob escrutínio é o contexto financeiro da viagem e os documentos apreendidos pela Polícia Federal, que apontam que despesas relacionadas à estadia de Ciro e Flávia teriam sido custeadas por Vorcaro.
UMA VIAGEM DE QUASE R$ 2 MILHÕES
Segundo a investigação citada pela piauí, Ciro e Flávia permaneceram em Courchevel entre 12 e 25 de janeiro de 2025.
O casal ficou hospedado em estabelecimentos de alto padrão e frequentou restaurantes considerados sofisticados. Entre as despesas identificadas aparecem aproximadamente R$ 63 mil no restaurante La Soucoupe e mais de R$ 58 mil no Le Tremplin. O conjunto de despesas relacionadas à temporada chegou a aproximadamente R$ 1,8 milhão, segundo documentos analisados pela PF.
A reportagem da piauí trata a viagem como uma temporada de praticamente R$ 2 milhões custeada por Vorcaro.
A questão que naturalmente surge é simples: por que um banqueiro arcaria com despesas milionárias de um senador da República e de sua companheira?
Essa é uma das questões que precisam ser respondidas no curso das investigações.
“UM DOS MEUS GRANDES AMIGOS DE VIDA”
As próprias mensagens atribuídas a Vorcaro ajudam a dimensionar a proximidade entre os dois.
Em uma conversa com Martha Graeff, o banqueiro teria se referido a Ciro como “um dos meus grandes amigos de vida”.
A expressão, atribuída ao próprio Vorcaro, ganha relevância diante das demais informações reunidas pela PF sobre viagens, hospedagens, restaurantes e contatos entre os dois.
Ao mesmo tempo, é importante separar amizade ou proximidade pessoal de eventual ilícito. Fotografias, viagens e pagamentos não demonstram automaticamente corrupção ou compra de influência.
A investigação busca justamente descobrir se existiu alguma contrapartida relacionada aos benefícios atribuídos ao senador.
JANTAR COM EMPRESÁRIOS
A temporada em Courchevel também teria incluído encontros com outros empresários.
Segundo a piauí, Vorcaro havia mencionado à então noiva que teria “reuniões importantes” durante a estadia.
Uma delas teria sido um jantar com Ciro Nogueira e José Seripieri Filho, conhecido como Junior, empresário e proprietário da Amil.
O encontro teria ocorrido no chalé de Alberto Leite, empresário ligado à empresa de tecnologia FS Security.
Alberto Leite aparece em outro episódio mencionado pela publicação: ele teria hospedado Ciro e o ministro do STF Dias Toffoli em seu camarote durante a final da Liga dos Campeões da Europa.
A presença de empresários em encontros privados também não constitui, isoladamente, prova de irregularidade. O interesse investigativo está em compreender quem participava dessas reuniões, quais assuntos eram tratados e se existiam negócios ou interesses públicos relacionados aos participantes.
CIRO, VORCARO E AS VIAGENS INTERNACIONAIS
A viagem aos Alpes não seria um episódio isolado.
Documentos analisados pela PF também apontam despesas atribuídas a Vorcaro em outras viagens de Ciro.
Em maio de 2024, o senador esteve em Nova York para um evento do Lide, grupo fundado pelo empresário e ex-governador João Doria.
Segundo a documentação citada nas reportagens, Ciro teria viajado aos Estados Unidos em avião particular de Vorcaro.
Embora a viagem constasse como missão oficial do Senado, Ciro teria recebido aproximadamente R$ 12,7 mil em diárias da Casa, enquanto o deslocamento aéreo teria sido custeado pelo banqueiro.
Mensagens apreendidas também indicariam que Vorcaro orientou um auxiliar a reservar quartos para Ciro e para o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria.
A FESTA DE R$ 5 MILHÕES
Outro episódio já revelado pela investigação envolve uma festa privada organizada por Vorcaro no The Carnegie Club, em Nova York.
Segundo relatório da Polícia Federal, o evento teve participação de Ciro Nogueira e Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados.
O custo total teria alcançado aproximadamente US$ 1,023 milhão, equivalente a cerca de R$ 5,25 milhões pela cotação utilizada no relatório.
Somente a aquisição de uísque teria custado cerca de US$ 674,7 mil, aproximadamente R$ 3,46 milhões. O relatório também registra a preocupação de Vorcaro com a privacidade do evento.
O episódio reforça a necessidade de esclarecer a natureza da relação entre o banqueiro e autoridades que frequentavam seus eventos privados.
HOSPEDAGEM DE CIRO E HUGO MOTTA
O relatório da PF também cita hospedagens de Ciro Nogueira e Hugo Motta no Four Seasons.
Segundo o documento, uma reserva de cinco diárias atribuída a Ciro teria totalizado cerca de R$ 91,3 mil, equivalente a aproximadamente R$ 18,2 mil por diária.
Mais uma vez, o valor elevado não é, sozinho, demonstração de crime. O que está sob investigação é quem pagou, por qual razão pagou e se houve alguma contrapartida relacionada ao exercício de funções públicas.
O PAPEL DE FÁBIO FARIA
O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria também aparece na rede de relações investigada.
Segundo informações divulgadas sobre o conteúdo do celular de Vorcaro, Faria participava de conversas e encontros com o banqueiro, Ciro Nogueira e Hugo Motta.
Um grupo de WhatsApp criado por Ciro em abril de 2024 reunia Ciro Nogueira, Daniel Vorcaro, Fábio Faria e Hugo Motta. As mensagens recuperadas pela investigação mostram conversas sobre encontros, viagens e outros assuntos.
A existência do grupo e dos encontros é factual conforme os registros divulgados; eventuais crimes ou favorecimentos precisam ser demonstrados pelas investigações.
O GRUPO “CIRO DANIEL FÁBIO HUGO”
O grupo de mensagens teria recebido o nome “Ciro Daniel Fábio Hugo” e sido criado pelo próprio Ciro Nogueira.
Segundo reportagem publicada pelo UOL, as mensagens disponíveis estão concentradas principalmente entre agosto e novembro de 2025, período em que Vorcaro acabou preso.
O grupo também teria sido utilizado para organizar encontros sociais e viagens e para discutir assuntos relacionados a operações da Polícia Federal.
A PF continua analisando o conteúdo obtido nos aparelhos e documentos relacionados ao caso.
A QUESTÃO POLÍTICA
Ciro Nogueira não é um cidadão sem função pública.
Ele é senador pelo Piauí, presidente nacional do Progressistas (PP) e foi ministro-chefe da Casa Civil durante o governo Jair Bolsonaro.
A relação com Vorcaro, portanto, merece atenção adicional porque envolve um banqueiro que atualmente está no centro de uma investigação de grandes proporções e um político que exerce papel relevante no Congresso Nacional.
Segundo a piauí, Vorcaro obteve autorização para se tornar banqueiro durante o período em que Roberto Campos Neto presidia o Banco Central, no governo Bolsonaro. Antes disso, seu pedido havia sido rejeitado duas vezes, quando Ilan Goldfajn presidia o BC.
Isso não significa que Ciro tenha participado da autorização ou que tenha cometido qualquer irregularidade nesse processo. São fatos diferentes que precisam ser tratados separadamente.
A EMENDA SOBRE O FUNDO GARANTIDOR
Outro ponto citado pela imprensa diz respeito à atuação parlamentar de Ciro.
Em 2024, o senador apresentou uma emenda relacionada à autonomia do Banco Central que ampliaria significativamente o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Segundo a Folha, investigadores analisam se a medida poderia beneficiar o Banco Master de Vorcaro antes da quebra da instituição.
A existência da proposta legislativa é um fato; já a existência de uma relação causal entre a emenda e eventual benefício pessoal a Vorcaro é uma questão investigativa que não pode ser tratada como fato comprovado sem conclusão das autoridades.
O CASO DOS R$ 350 MIL
A PF também encontrou referência a um pagamento de R$ 350 mil em espécie destinado a alguém identificado como “Ciro”.
Entretanto, conforme reportagem do Estado de Minas baseada nos documentos da investigação, não havia comprovação de que esse dinheiro tenha sido efetivamente entregue ao senador Ciro Nogueira.
Esse detalhe é fundamental.
Uma anotação ou ordem de pagamento não equivale à prova de recebimento. A investigação precisa determinar quem recebeu o dinheiro, qual era sua finalidade e se havia relação com Ciro Nogueira.
CRÍTICA: O QUE AS IMAGENS REVELAM — E O QUE AINDA PRECISA SER PROVADO
As imagens dos Alpes franceses não provam, por si só, corrupção.
Mas também seria inadequado tratá-las como uma simples fotografia de férias sem considerar o contexto financeiro revelado pelos investigadores.
O problema político está justamente na combinação de elementos:
um senador da República; um banqueiro sob investigação; viagens internacionais; hospedagens de alto padrão; restaurantes com contas de dezenas de milhares de reais; festas privadas milionárias; mensagens que descrevem Ciro como um grande amigo; encontros com empresários; e documentos da PF apontando despesas atribuídas a Vorcaro.
É esse conjunto que exige explicações.
A crítica mais legítima, nesse contexto, não é condenar antecipadamente Ciro Nogueira, mas cobrar transparência sobre quem pagou, por que pagou e o que foi discutido nas reuniões e encontros.
Se os gastos foram legítimos, as explicações e documentos podem esclarecer. Se houve vantagem indevida ou contrapartida, isso deverá ser demonstrado pela investigação e, posteriormente, pelo devido processo legal.
TODOS OS NOMES QUE APARECEM NO EPISÓDIO
Entre os principais personagens citados nas reportagens e documentos relacionados ao caso estão:
- Ciro Nogueira — senador pelo Piauí e presidente do PP;
- Daniel Vorcaro — ex-controlador do Banco Master;
- Flávia Rosalen — então companheira de Ciro durante a viagem a Courchevel;
- Martha Graeff — então noiva de Vorcaro;
- Hugo Motta — presidente da Câmara dos Deputados;
- Fábio Faria — ex-ministro das Comunicações;
- José Seripieri Filho (Junior) — empresário e proprietário da Amil;
- Alberto Leite — empresário ligado à FS Security;
- João Doria — fundador do Lide e ex-governador de São Paulo;
- Roberto Campos Neto — ex-presidente do Banco Central;
- Ilan Goldfajn — ex-presidente do Banco Central;
- Jair Bolsonaro — ex-presidente, sob cujo governo Ciro comandou a Casa Civil;
- Dias Toffoli — ministro do STF citado em episódio relacionado a Alberto Leite.
A PERGUNTA QUE FICA
As novas imagens tornam visualmente evidente a proximidade entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro durante a viagem aos Alpes.
O que ainda precisa ser esclarecido é a natureza dessa relação e se os benefícios financeiros atribuídos ao banqueiro tiveram alguma contrapa