“Deixará grana no Fábio”: mensagens recuperadas apontam pagamentos ligados a Lulinha

“Deixará grana no Fábio”: mensagens recuperadas apontam pagamentos ligados a Lulinha

Diálogos atribuídos à lobista Roberta Luchsinger registram ordem para entregar dinheiro a “Fábio”, pagamento de R$ 26.809 a uma agência de viagens e cobrança de R$ 100 mil; defesa de Fábio Luís Lula da Silva contesta autenticidade e nega que ele tenha recebido dinheiro

Mensagens recuperadas pela Polícia Federal do celular da lobista Roberta Luchsinger colocam novamente no centro das investigações o nome de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os diálogos, divulgados em 24 de setembro de 2026 pelo Metrópoles e repercutidos por outros veículos, registram orientações de Roberta a seu motorista para levar dinheiro a uma pessoa identificada como “Fábio”, além de um pagamento de R$ 26.809 relacionado a uma agência de viagens utilizada por Roberta e Lulinha.

É importante destacar, porém, que as mensagens, isoladamente, não comprovam que o destinatário mencionado como “Fábio” seja Fábio Luís Lula da Silva nem demonstram, por si só, que Lulinha tenha recebido os valores. A defesa dele contesta a autenticidade do material e afirma que ele nunca recebeu dinheiro de Roberta Luchsinger.

O dinheiro que deveria ser levado “lá no Fábio”

Um dos episódios mais importantes ocorreu em 29 de novembro de 2024.

Na conversa com seu motorista, Ulisses Barbosa Viana Junior, Roberta Luchsinger perguntou:

“Cadê o dinheiro?”

Pouco depois, determinou:

“Tem que levar lá no Fábio.”

O motorista respondeu que estava indo ao depósito e informou que o dinheiro estava no porta-malas de um veículo Volvo.

Na sequência, Roberta deu instruções para a entrega:

“Tenho almoço no Cidade Jardim. De lá, você pegará Uber, deixará grana no Fábio e pega outro carro.”

O conteúdo divulgado pelo Metrópoles identifica o “Fábio” como Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, embora a defesa questione essa identificação.

R$ 26.809 para a TTW

Outro episódio documentado ocorreu em 25 de julho de 2024.

Roberta encaminhou ao motorista o valor:

“26.809”

Em seguida, escreveu:

“Tem que pagar mais isso para Fábio na TTW.”

Ulisses respondeu que faria o pagamento e posteriormente enviou um comprovante no valor exato de R$ 26.809, destinado à TTW Group, uma agência de viagens utilizada para organizar viagens internacionais de Roberta Luchsinger e de Lulinha.

O episódio é relevante porque existe um documento de pagamento associado à ordem registrada na conversa. Ainda assim, o comprovante de pagamento à agência não demonstra sozinho que o dinheiro tenha sido entregue pessoalmente a Lulinha.

A cobrança de R$ 100 mil

Outro trecho das mensagens envolve uma quantia muito maior.

Em 8 de novembro de 2024, Roberta Luchsinger cobrou do ex-secretário de Saúde de Goiânia Quesede Ayres Henrique o pagamento de R$ 100 mil.

Segundo o conteúdo divulgado, ela escreveu:

“Ô Quesede, tu dá um jeito de fazer esse pix, porra, que o homem tá me cobrando, criatura.”

Pouco depois, voltou a cobrar:

“Fez? Ele vai embarcar e tá me enchendo o saco.”

Naquela noite, Fábio Luís Lula da Silva embarcou no Aeroporto Internacional de Guarulhos com destino a Lisboa, em voo da Latam, na classe premium business. Segundo o Metrópoles, o pagamento de R$ 100 mil acabou sendo feito por uma empresa comercial de Goiânia para a conta da RL Consultoria, empresa de Roberta Luchsinger.

A coincidência temporal entre a cobrança e o embarque é um dos pontos que aparecem no material jornalístico. Ela, entretanto, não prova que os R$ 100 mil tenham sido destinados a Lulinha, e essa ligação precisa ser demonstrada por outros elementos da investigação.

“Meu sócio é guloso”

As mensagens também apresentam outra expressão que chamou atenção.

Em dezembro de 2023, Roberta conversou com Quesede Ayres Henrique e escreveu:

“Meu sócio é guloso, tá.”

Quesede respondeu:

“Eu também seria.”

E completou:

“No lugar dele, né.”

Segundo as reportagens, Roberta utilizava a palavra “sócio” para se referir a Fábio Luís Lula da Silva em conversas com terceiros. Não há, entretanto, indicação nas informações divulgadas de uma sociedade empresarial formal registrada entre os dois.

Quem é Roberta Luchsinger

Roberta Luchsinger é apontada nas investigações como lobista e aparece em diferentes episódios envolvendo contatos com integrantes do governo, empresários e pessoas ligadas ao entorno do presidente Lula.

Segundo o Metrópoles, ela teria atuado na tentativa de facilitar a liberação de recursos federais para a Prefeitura de Goiânia, enquanto mantinha relação próxima com pessoas envolvidas em negócios e interesses perante órgãos públicos.

As mensagens recuperadas do aparelho dela passaram a integrar um conjunto de elementos analisados pela Polícia Federal.

Quesede Ayres Henrique e os R$ 100 mil

Quesede Ayres Henrique, ex-secretário de Saúde de Goiânia, também aparece diretamente nas conversas.

Segundo o material divulgado, Roberta o pressionava para realizar pagamentos e, em determinado momento, cobrou os R$ 100 mil.

Quesede posteriormente foi investigado por suspeitas relacionadas a desvios na Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia. O fato de ele aparecer nas mensagens, contudo, precisa ser separado da identificação dos destinatários finais dos valores.

As investigações no Supremo Tribunal Federal

As informações divulgadas pelo Metrópoles afirmam que fatos relacionados a Fábio Luís Lula da Silva e Roberta Luchsinger são atualmente analisados em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal.

Uma das apurações envolve suspeitas de tráfico de influência no Ministério da Saúde, relacionadas à comercialização de produtos derivados de cannabis medicinal.

Outra investigação envolve supostos pagamentos feitos por Roberta a pessoas do entorno do presidente Lula.

Há ainda uma apuração relacionada a possível tráfico de influência na Dataprev, empresa pública federal de processamento de dados.

As investigações ainda precisam estabelecer responsabilidades individuais e verificar quais informações são confirmadas por documentos, registros financeiros, depoimentos e outros elementos probatórios.

A relação com Antônio Carlos Camilo Antunes

O caso também envolve o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.

Segundo o Metrópoles, Lulinha teria atuado em conjunto com Antunes na empresa Cannabis World, ligada ao segmento de cannabis medicinal.

Os dois também teriam viajado juntos para Portugal e Espanha.

Na viagem de novembro de 2024 mencionada nas mensagens, Antunes estava no mesmo voo que Lulinha, com destino a Lisboa.

A presença dos dois no mesmo voo, por si só, não demonstra irregularidade.

O que diz a defesa de Lulinha

O advogado Marco Aurélio de Carvalho, responsável pela defesa de Fábio Luís Lula da Silva, contestou a divulgação das mensagens.

A defesa afirmou que não reconhece a autenticidade dos diálogos e questiona a cadeia de custódia do material.

O advogado também sustentou que, mesmo que as mensagens sejam consideradas verdadeiras, não seria possível concluir automaticamente que o “Fábio” citado seja Fábio Luís Lula da Silva.

A defesa ainda declarou que Lulinha nunca recebeu dinheiro de Roberta Luchsinger e que ele não participou de qualquer irregularidade.

Essa manifestação é fundamental para o equilíbrio da apuração: há uma acusação jornalística baseada em mensagens atribuídas ao aparelho da lobista, mas a pessoa apontada como destinatária nega ter recebido os valores e questiona a própria autenticidade do material.

Nomes e partes envolvidas

Luiz Inácio Lula da Silva — presidente da República e pai de Fábio Luís Lula da Silva.

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha — empresário e filho mais velho do presidente Lula; aparece nas reportagens como a pessoa que seria identificada pelo nome “Fábio” nas mensagens.

Roberta Luchsinger — lobista cujo celular teria sido apreendido e de onde foram recuperadas as mensagens analisadas pela Polícia Federal.

Ulisses Barbosa Viana Junior — motorista e auxiliar de Roberta, interlocutor nas mensagens sobre dinheiro e pagamentos.

Quesede Ayres Henrique — ex-secretário de Saúde de Goiânia, que aparece nas conversas relacionadas à cobrança de R$ 100 mil.

Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS — empresário citado nas investigações relacionadas a Lulinha e que, segundo a reportagem, estava no mesmo voo de Lulinha para Lisboa.

Polícia Federal — responsável pela apreensão/análise do celular e pelas investigações mencionadas nas reportagens.

Supremo Tribunal Federal — Corte onde tramitam três investigações relacionadas a fatos envolvendo Lulinha e Roberta Luchsinger.

TTW Group — agência de viagens que aparece como destinatária do pagamento de R$ 26.809 mencionado nas mensagens.

RL Consultoria — empresa de Roberta Luchsinger que recebeu o pagamento de R$ 100 mil mencionado no caso.

O destaque do caso

O ponto mais sensível das mensagens é a combinação de três elementos: uma ordem para “deixar grana no Fábio”, um pagamento documentado de R$ 26.809 para uma agência utilizada por Roberta e Lulinha e uma cobrança de R$ 100 mil feita no mesmo período em que Lulinha embarcou para Lisboa. Esses elementos justificam esclarecimentos, mas não permitem concluir, isoladamente, que Lulinha tenha recebido dinheiro ou cometido crime.

O material coloca Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, novamente no centro de uma investigação que envolve relações entre lobistas, empresários e pessoas ligadas ao governo federal.

A expressão “meu sócio”, utilizada por Roberta Luchsinger em referência a Lulinha, acrescenta outro elemento à apuração. Ao mesmo tempo, a defesa afirma que não existe comprovação de sociedade irregular e nega que o filho do presidente tenha recebido dinheiro da lobista.

O caso, portanto, permanece em fase de investigação. O que poderá transformar as mensagens em prova de eventual irregularidade será a confirmação de sua autenticidade, a identificação inequívoca dos destinatários, a origem dos recursos, a finalidade dos pagamentos e a existência — ou não — de contrapartidas relacionadas a órgãos públicos.

Por enquanto, o que está documentado nas reportagens são mensagens atribuídas ao celular de Roberta Luchsinger, ordens de pagamento e registros financeiros mencionados no material jornalístico. A responsabilidade criminal de qualquer pessoa depende de investigação e comprovação pelas autoridades competentes.

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