
“Sou seu irmão”: mensagens da PF expõem proximidade entre Davi Alcolumbre e Daniel Vorcaro
Diálogos encontrados no celular de Daniel Vorcaro mostram troca de mensagens pessoais, articulações e contatos envolvendo o presidente do Senado; Alcolumbre nega qualquer ilegalidade e afirma ser alvo de ataques
Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam uma relação de proximidade entre o banqueiro e Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional. Os diálogos, divulgados pela revista Veja e confirmados por outros veículos, incluem declarações de amizade, referências a encontros privados e conversas que colocam o senador no centro de contatos políticos envolvendo integrantes do governo, do Congresso e outras autoridades.
Um dos trechos mais chamativos ocorreu depois da eleição de Alcolumbre para a presidência do Senado, em fevereiro de 2025.
Vorcaro parabenizou o senador e escreveu que desejava sucesso em sua nova empreitada. Alcolumbre respondeu:
“Fala meu amor! Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Gratidão!”
Na sequência, veio uma declaração ainda mais direta:
“Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!”
Vorcaro respondeu dizendo que também era seu irmão e acrescentou que estaria disponível “a qualquer tempo pra qualquer coisa”, afirmando ainda que nunca esqueceria aquela relação.
O que as mensagens revelam
O conteúdo divulgado não demonstra, por si só, a prática de crime por Davi Alcolumbre ou Daniel Vorcaro. O que os diálogos documentam é uma relação pessoal próxima, com linguagem de amizade e lealdade e, em determinados momentos, contatos relacionados a assuntos políticos e empresariais.
Essa distinção é importante porque a existência de proximidade entre um político e um empresário investigado não constitui automaticamente prova de irregularidade. A questão que passa a exigir esclarecimentos é se essa relação produziu algum tipo de influência, favorecimento ou conflito de interesses em decisões públicas envolvendo o Banco Master.
A relação não aparece apenas em 2025
Os diálogos encontrados pela PF indicam que a aproximação era anterior à eleição de Alcolumbre para a presidência do Senado.
Em outubro de 2023, Vorcaro, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e outros interlocutores conversavam em um grupo de WhatsApp chamado “Macallan”, referência à marca de uísque.
Nas conversas, o nome de Davi Alcolumbre aparece relacionado a encontros e festas privadas.
Em determinado momento, Fábio Faria faz comentários sobre a presença de Alcolumbre, enquanto Vorcaro responde em tom de brincadeira. As mensagens também fazem referências a mulheres convidadas para os eventos.
Outro conjunto de mensagens, de março de 2024, trata da organização de um evento privado em Londres paralelo a um fórum jurídico.
Segundo os diálogos divulgados, Vorcaro demonstrava preocupação com a discrição do encontro. Fábio Faria teria sugerido que parte do grupo fosse para outra suíte depois do evento principal.
Em determinado trecho, Faria fala em fazer um “pacto com Davi” para manter o assunto restrito. As mensagens, entretanto, não demonstram que Alcolumbre tenha participado daquela festa específica nem que tenha cometido qualquer irregularidade.
Londres e o Fórum Jurídico
As conversas também se relacionam ao 1º Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024 e patrocinado pelo Banco Master.
De acordo com as informações divulgadas, Alcolumbre esteve em Londres durante o evento, quando ainda presidia a Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
O Banco Master patrocinou uma degustação de Macallan realizada durante o período do fórum.
A documentação divulgada também menciona a presença, em diferentes atividades relacionadas ao evento, de autoridades como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, embora isso não signifique que essas autoridades tenham participado dos encontros privados descritos nas mensagens.
O Banco Central e a negociação com o BRB
Um dos trechos politicamente mais relevantes aparece em julho de 2025, quando o Banco Central analisava a venda do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB).
Vorcaro procurou Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, dizendo que havia tentado falar com Alcolumbre, mas que o presidente do Senado não tinha informações sobre a negociação.
Motta respondeu que Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, havia combinado de ir à casa de Davi Alcolumbre depois de uma reunião.
“Galípolo ficou de ir lá para casa de Davi quando encerrasse a reunião.”
Motta acrescentou que estava decolando quando Alcolumbre teria telefonado para informá-lo sobre isso.
As mensagens, contudo, não esclarecem se o encontro efetivamente ocorreu, qual foi seu conteúdo ou se houve qualquer interferência de Alcolumbre na decisão do Banco Central.
Esse é justamente um dos pontos que permanecem sem resposta.
O contato entre Vorcaro e Alcolumbre
Outro diálogo divulgado mostra Vorcaro recorrendo diretamente ao senador em busca de informações.
Em julho de 2025, o banqueiro escreveu:
“Fala irmaozao! Se tiver notícias do nosso amigo me chame! Abração.”
Alcolumbre respondeu que estava acompanhando o assunto e, em seguida, escreveu:
“Pressão!!!”
O conteúdo divulgado não permite identificar com segurança quem era o “nosso amigo” mencionado por Vorcaro.
Alcolumbre chegou a negar proximidade?
As revelações ganharam peso político porque, segundo as reportagens, Alcolumbre já havia minimizado ou negado conhecer Vorcaro em declarações anteriores.
Agora, os diálogos extraídos pela Polícia Federal apresentam uma relação muito mais próxima do que uma simples relação institucional.
Os termos “meu amor”, “amizade fraterna”, “meu irmão” e “pra vida toda” aparecem diretamente nas conversas divulgadas.
O ponto de divergência, portanto, não é mais apenas se Alcolumbre conhecia Vorcaro, mas qual era a natureza dessa relação, quais assuntos eram tratados entre eles e se a proximidade teve alguma consequência na atuação política ou institucional do senador.
O caso também envolve Hugo Motta e Fábio Faria
Embora o foco das mensagens esteja na relação entre Alcolumbre e Vorcaro, outros nomes aparecem nos diálogos.
Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, surge em conversas sobre a negociação do Banco Master com o BRB e sobre uma possível reunião de Gabriel Galípolo na residência de Alcolumbre.
Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, aparece em conversas sobre festas, eventos e contatos com Alcolumbre e Vorcaro.
Também aparecem referências a Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, em razão da negociação envolvendo o Banco Master.
Essas menções, entretanto, precisam ser analisadas individualmente. Ser citado em uma conversa não significa que a pessoa tenha praticado irregularidade.
O caso Master e a cobrança por investigação
As novas mensagens surgem em um momento em que o Banco Master é alvo de investigações e em que parlamentares cobram esclarecimentos sobre as relações de Vorcaro com autoridades.
O próprio Alcolumbre ocupa uma posição institucional particularmente relevante: como presidente do Senado, tem influência sobre a tramitação de requerimentos, comissões e pedidos de investigação na Casa.
Reportagens também apontam que pedidos relacionados a uma eventual CPI do Banco Master não avançaram no Senado. A situação aumenta a pressão para que o presidente da Casa explique sua relação com Vorcaro e esclareça se houve ou não algum conflito entre sua atuação institucional e a amizade pessoal com o banqueiro.
A resposta de Davi Alcolumbre
A Presidência do Senado negou que as mensagens indiquem qualquer ilegalidade.
Em nota, a assessoria de Alcolumbre classificou a divulgação como um “injusto ataque” e afirmou que os diálogos possuem teor pessoal e não demonstrariam irregularidades.
O senador também afirmou ser alvo de uma tentativa de intimidação e declarou que pretende adotar medidas judiciais contra as publicações.
A posição apresentada por Alcolumbre deve ser considerada no contexto da apuração: até o momento, as mensagens divulgadas comprovam proximidade, mas não comprovam, por si mesmas, corrupção, tráfico de influência ou qualquer outro crime.
O que ainda precisa ser esclarecido
O conjunto de mensagens deixa algumas perguntas objetivas para as investigações:
1. Qual era exatamente a natureza da relação entre Alcolumbre e Vorcaro?
2. Quais assuntos envolvendo o Banco Master eram tratados diretamente entre os dois?
3. Houve alguma atuação de Alcolumbre em favor de interesses empresariais de Vorcaro?
4. O que foi tratado na possível conversa entre Gabriel Galípolo e Alcolumbre mencionada por Hugo Motta?
5. Por que Vorcaro procurava o presidente do Senado em momentos relacionados ao banco?
6. Houve conflito de interesses na atuação institucional de Alcolumbre?
7. Qual foi a participação efetiva de cada autoridade nos eventos privados mencionados nas conversas?
Essas perguntas precisam ser respondidas por documentos, depoimentos e demais elementos de investigação, e não apenas pela interpretação isolada de mensagens.
Nomes e partes envolvidas
Davi Alcolumbre — senador pelo União Brasil do Amapá e presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional.
Daniel Vorcaro — ex-controlador do Banco Master, investigado no contexto das apurações envolvendo a instituição financeira.
Hugo Motta — presidente da Câmara dos Deputados, citado em conversas com Vorcaro relacionadas ao Banco Master e a uma possível reunião de Gabriel Galípolo na residência de Alcolumbre.
Fábio Faria — ex-ministro das Comunicações, participante de conversas com Vorcaro sobre festas e eventos.
Gabriel Galípolo — presidente do Banco Central, citado nas mensagens em razão de uma possível reunião na residência de Alcolumbre durante a negociação envolvendo o Banco Master e o BRB.
Banco Master — instituição financeira que esteve no centro da negociação de venda ao Banco de Brasília e que posteriormente passou a ser alvo de investigações.
Polícia Federal — responsável pela extração e análise das mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro.
O destaque do caso
O ponto mais relevante das mensagens não é apenas a expressão “sou seu irmão”, mas o conjunto dos diálogos: eles mostram que a relação entre Davi Alcolumbre e Daniel Vorcaro era próxima, pessoal e anterior ao momento em que o senador passou a presidir o Congresso. O que ainda precisa ser demonstrado é se essa proximidade produziu alguma atuação irregular ou conflito de interesses.
As mensagens, portanto, ampliam o conjunto de fatos que precisam ser esclarecidos no caso Banco Master. Elas mostram uma relação pessoal que contrasta com a ideia de um contato meramente institucional, mas não constituem, isoladamente, prova de crime.
O desafio agora é transformar as mensagens em respostas objetivas: saber quais interesses estavam sendo tratados, quais autoridades participaram das articulações mencionadas e se houve qualquer benefício indevido decorrente dessa rede de relacionamentos.
Enquanto Alcolumbre afirma que não houve ilegalidade e promete recorrer à Justiça, a Polícia Federal e as demais autoridades responsáveis pelas investigações terão de estabelecer o contexto completo das conversas, identificar eventuais documentos relacionados aos diálogos e verificar se houve alguma consequência concreta para decisões públicas envolvendo o Banco Master.
A proximidade está documentada nas mensagens divulgadas. A eventual existência de irregularidade, entretanto, ainda depende de investigação e comprovação.