
Do voto à frustração: nordestinos que apostaram em Lula agora cobram o que não veio
Alta nos preços, promessas não cumpridas e sensação de abandono fazem crescer o descontentamento com o governo Lula no Nordeste, reduto histórico do PT.
O sonho virou cobrança: “Achei que minha vida ia melhorar, mas só piorou”
Cleber Silva, garçom em um restaurante tradicional no bairro Dois de Julho, em Salvador, vive uma rotina marcada pela frustração. Aos 44 anos, morador da Favela Vista Alegre, ele depositou nas urnas — pela terceira vez — a esperança de dias melhores com Lula na presidência. Mas o que era esperança virou lamento. “Tinha certeza que minha vida ia melhorar, como foi nos outros mandatos. Mas agora, meu dinheiro não dá pra nada. E o Lula? Sumiu”, desabafa.
Ele é um entre tantos eleitores nordestinos que estão repensando seu apoio ao petista. Pesquisas recentes mostram que o Nordeste, tradicional reduto do PT, está dando sinais claros de desgaste com o governo. E o motivo não é um só — são vários.
O que está pegando?
Entre as principais queixas ouvidas estão o aumento no preço dos alimentos, a chamada “taxa das blusinhas” — que cortou o acesso da população de baixa renda ao consumo digital —, a crise no INSS, e a ausência de um novo programa social de impacto semelhante ao Bolsa Família. Soma-se a isso a percepção de que o governo só fala em cortar gastos e aumentar impostos, como a polêmica tentativa de subir o IOF e os boatos (que pegaram) de taxação sobre o Pix.
“A gente só ouve falar em corte e imposto. Ajudar mesmo, nada.”
Giselle Improta, de 37 anos, que está desempregada e faz bolos por encomenda para sobreviver, diz que perdeu a paciência. “Acreditei que o Bolsa Família ia melhorar. Mas o Haddad só fala em cortar e taxar. Não voto mais no Lula nem a pau. Ele sumiu. Cadê quando a gente precisou?”
A percepção de afastamento entre o povo e o Planalto é um fio condutor entre os entrevistados. Muitos dizem não se reconhecer mais no governo. A sensação é de que a conexão que existia entre o presidente e os mais pobres, especialmente no Nordeste, está cada vez mais rarefeita.
Lula voltou à Bahia, mas o encanto parece ter ficado em 2006
Curiosamente, o presidente esteve em Salvador há poucos dias, para as comemorações da Independência da Bahia, ao lado de figuras como Jaques Wagner, Margareth Menezes e Jerônimo Rodrigues. Mas a visita não reacendeu os ânimos como antigamente. A Bahia, que deu 72% dos votos válidos a Lula no segundo turno de 2022, agora vê sua aprovação cair. Segundo o levantamento Genial/Quaest, a popularidade do governo Lula na região despencou 13 pontos percentuais entre dezembro e junho. Ainda há maioria de aprovação, mas a tendência de queda preocupa.
“Cadê o Lula que andava no meio do povo?”
O ambulante Matusalém Abbade, que trabalha na Praia da Barra, lembra com saudade da época em que o governo parecia mais próximo. “Antes, a gente sentia que ele via a gente. Tinha combate à fome, projeto, presença. Hoje, parece que governa pra outro público.”
O lulismo ainda resiste, mas com freios e sem paixão
Apesar da insatisfação, nem todos romperam totalmente com o presidente. A universitária Bruna Villas Boas, por exemplo, diz que pode votar novamente em Lula para evitar uma eventual vitória da direita, mas sem entusiasmo. “Voto contra o bolsonarismo, não mais por esperança.”
A comunicação que falhou
Arthur Ituassu, pesquisador da PUC-RJ, vê um novo tipo de insatisfação: descentralizada, intensa e permanente nas redes sociais. “Respostas fáceis para problemas complexos, mesmo quando são mentiras, circulam rápido. O governo demorou demais para reagir, para se comunicar”, analisa.
Racha silencioso no maior reduto eleitoral do PT
A pouco mais de um ano das próximas eleições, o que se vê é um Nordeste dividido — parte decepcionada, parte resistente, mas todos mais exigentes. O lulismo segue vivo, mas está ferido, e a relação de confiança com a base que garantiu tantas vitórias parece, agora, mais frágil do que nunca.