Empresário ligado à “Picanha Bolsonaro” é acusado por mulher trans de calote, ameaças e transfobia; caso será investigado

Empresário ligado à “Picanha Bolsonaro” é acusado por mulher trans de calote, ameaças e transfobia; caso será investigado

Acompanhante registrou boletim de ocorrência e afirma que empresário deixou de pagar por programa, fez ameaças e tentou impedir divulgação de vídeo. Defesa ainda não apresentou versão oficial sobre as acusações.

Um caso cercado por acusações graves, versões conflitantes e diversos pontos que ainda dependem de investigação policial colocou no centro das atenções o empresário goiano Leandro Batista Nóbrega, proprietário do Frigorífico Goiás, conhecido nacionalmente pelas campanhas de marketing da chamada “Picanha Bolsonaro” e por sua proximidade com lideranças da direita.

O empresário foi denunciado por uma mulher trans, identificada na reportagem apenas como Aline — nome fictício utilizado para preservar sua identidade — que o acusa de não pagar um programa sexual, fazer ameaças e adotar comportamento transfóbico durante um encontro ocorrido em junho deste ano.

As acusações foram formalizadas em um boletim de ocorrência registrado na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam). Até o momento, não há decisão judicial sobre o caso, tampouco conclusão das investigações.

Encontro teria sido marcado após meses de contato

Segundo o relato apresentado à polícia, Aline trabalha como acompanhante de luxo e afirma que Leandro já havia procurado seus serviços em 2024. De acordo com ela, um novo contato foi feito em maio deste ano por meio do WhatsApp, culminando no encontro realizado em seu apartamento.

Ainda conforme a versão registrada no boletim, o empresário permaneceu no imóvel por aproximadamente uma hora. Durante o atendimento, teria surgido um desentendimento relacionado ao tipo de serviço sexual pretendido.

A acompanhante afirma que somente após parte do encontro percebeu que o cliente era o proprietário do Frigorífico Goiás, empresa conhecida pelas frequentes campanhas políticas nas redes sociais.

Discussão teria começado após reconhecimento

Segundo o boletim de ocorrência, ao identificar o empresário, Aline passou a questioná-lo sobre publicações que considera transfóbicas feitas em suas redes sociais, além da aparente contradição entre esse posicionamento público e a contratação dos serviços de uma mulher trans.

A conversa teria rapidamente evoluído para uma discussão.

Nesse momento, ela decidiu gravar parte da situação em vídeo. As imagens mostram um trecho do debate, no qual a acompanhante critica discursos contra pessoas trans e afirma que homens que reproduzem esse tipo de discurso frequentemente procuram mulheres trans de forma privada.

Durante a gravação, Leandro responde brevemente às acusações, mas o vídeo divulgado registra apenas parte da conversa, sem mostrar o contexto completo do encontro nem os acontecimentos posteriores.

Pagamento, ameaças e acusações de extorsão

Após o desentendimento, Aline afirma que o empresário deixou o local sem efetuar o pagamento de R$ 500 combinado previamente pelo programa.

Ela também sustenta que, depois da discussão, Leandro teria enviado mensagens oferecendo dinheiro para impedir que o vídeo fosse divulgado.

Segundo sua versão, ela recusou qualquer negociação e afirma jamais ter pedido dinheiro em troca de silêncio.

O boletim registra ainda a alegação de que o empresário teria passado a acusá-la de tentativa de extorsão e feito ameaças, incluindo a frase:

“Eu tenho dinheiro. Eu mando fazer o que eu quiser com você.”

Essas declarações constam no registro policial e ainda serão objeto de apuração pelas autoridades competentes.

Um detalhe chama atenção

Entre os elementos que chamam atenção no episódio está o fato de a acompanhante ter registrado em vídeo parte significativa da discussão.

Embora gravações feitas por um dos participantes da conversa sejam, em determinadas circunstâncias, admitidas como meio de prova, o conteúdo divulgado mostra apenas um recorte dos acontecimentos e não permite concluir, isoladamente, tudo o que ocorreu antes ou depois da filmagem.

Também não está esclarecido, até o momento, em que momento exato a gravação começou, quanto tempo durou o encontro completo e quais diálogos ocorreram fora das imagens conhecidas.

Esses aspectos poderão ser analisados durante eventual investigação ou processo judicial.

Empresário é figura conhecida nas redes sociais

Leandro Batista Nóbrega ganhou notoriedade nos últimos anos ao transformar o Frigorífico Goiás em uma marca fortemente associada ao bolsonarismo.

Além de comercializar cortes de carne estampados com imagens de Jair Bolsonaro, Donald Trump, Javier Milei e outras figuras públicas, o empresário costuma divulgar vídeos de churrascos, campanhas promocionais e ações beneficentes.

Também protagonizou outras controvérsias.

Em uma delas, instalou na entrada do frigorífico uma placa informando que “petista não é bem-vindo”, posteriormente retirada após decisão da Justiça.

Nas redes sociais, o empresário frequentemente publica conteúdos de cunho político e críticas dirigidas a parlamentares trans, como Erika Hilton e Duda Salabert, além de postagens classificadas por críticos como transfóbicas.

Defesa ainda não apresentou manifestação

A reportagem informa que tentou contato com Leandro Batista Nóbrega e com o Frigorífico Goiás para comentar as acusações.

Segundo o veículo que revelou o caso, não houve resposta até o fechamento da matéria. Também foi informado que o empresário bloqueou o perfil da coluna responsável pela reportagem após a tentativa de contato.

O espaço permanece aberto para eventual manifestação da defesa.

Caso ainda está em fase inicial

Até o momento, as acusações apresentadas pela acompanhante constituem a versão registrada no boletim de ocorrência e deverão ser verificadas pelas autoridades responsáveis.

Não há denúncia criminal oferecida pela Justiça nem decisão judicial reconhecendo a prática dos crimes narrados.

A investigação deverá reunir depoimentos, analisar as mensagens trocadas entre as partes, examinar o vídeo gravado durante o encontro e verificar outros elementos que possam confirmar ou afastar as alegações apresentadas por ambos os envolvidos.

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