
Estrela pede recuperação judicial após pressão financeira e mudanças no mercado de brinquedos
Dívida de cerca de R$ 109 milhões, juros altos e avanço do consumo digital colocam tradicional fabricante brasileira em nova reestruturação
A tradicional fabricante de brinquedos Estrela entrou com um novo pedido de recuperação judicial nesta quarta-feira (20), em meio a uma combinação de dificuldades financeiras, aumento do custo do crédito e mudanças profundas no comportamento de consumo das famílias.
O pedido foi protocolado na 1ª Vara Cível de Três Pontas (MG) e inclui outras empresas do grupo. O objetivo, segundo a companhia, é reorganizar as dívidas e tentar garantir a continuidade das operações, preservando empregos e a estrutura de produção.
Dívida passa de R$ 100 milhões e grupo tenta evitar falência
De acordo com informações apresentadas no processo, o endividamento consolidado do grupo gira em torno de R$ 109 milhões. A empresa afirma que enfrenta um cenário considerado crítico, especialmente pela dificuldade de acesso a crédito e pelo impacto dos juros elevados na sua estrutura financeira.
O pedido de recuperação judicial também ocorre em meio a uma tentativa de barrar um pedido de falência já protocolado por credores no início de 2026, o que acelerou a decisão da companhia de recorrer à Justiça.
Pressão do mercado e mudança no consumo
Em comunicado, a Estrela aponta três fatores principais para a crise: o aumento do custo do capital, a restrição de crédito e a mudança no comportamento dos consumidores, que passaram a gastar mais com entretenimento digital — como jogos online e plataformas virtuais — em vez de brinquedos físicos tradicionais.
Esse movimento afetou diretamente o desempenho do setor, que já vinha enfrentando retração e maior concorrência de produtos digitais e importados.
Acordo tributário não foi suficiente para estancar a crise
Meses antes do pedido, a empresa havia fechado um acordo com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) para renegociar dívidas tributárias que somavam centenas de milhões de reais.
Mesmo com descontos expressivos em juros e possibilidade de abatimentos com créditos fiscais, o alívio financeiro não foi suficiente para estabilizar o caixa do grupo, que continuou pressionado por dívidas operacionais e financeiras.
Medidas urgentes para manter operação
No pedido enviado à Justiça, a companhia também solicita proteção para evitar interrupções em serviços essenciais como energia, água e conectividade, além de pedir que o processo unifique todas as empresas do grupo como um único devedor, devido à interdependência operacional.
A estratégia busca dar mais controle à reestruturação e impedir a fragmentação dos ativos durante o processo.
Tentativa de adaptação ao novo mercado
Nos últimos anos, a Estrela tentou se reinventar. A empresa investiu em novas frentes, como cosméticos infantis e conteúdo editorial, além de reforçar sua presença em marketplaces como Amazon, Mercado Livre e Shopee.
A aposta também incluiu o público “kidult” — adultos que consomem produtos ligados à infância e nostalgia. Apesar disso, as iniciativas não foram suficientes para reverter a queda estrutural de receita.
Uma marca histórica em nova crise
Fundada em 1937, a Estrela foi uma das maiores fabricantes de brinquedos do Brasil e marcou gerações com produtos como Banco Imobiliário, Genius e Autorama.
A empresa já passou por outras duas recuperações judiciais, em 2004 e 2008, e agora enfrenta seu terceiro processo de reestruturação em pouco mais de 20 anos, em um cenário em que o setor de brinquedos disputa espaço com o entretenimento digital.
O próximo passo será a apresentação de um plano de recuperação, que ainda precisará ser aprovado pelos credores e será decisivo para definir o futuro da companhia no mercado brasileiro.