
Família Riva aparece comemorando vitória de Lula após campanha alinhada a Flávio Bolsonaro; derrota nas urnas aprofunda crise política em Mato Grosso
Janaina Riva e Jéssica Riva enfrentaram reveses eleitorais em Mato Grosso, enquanto imagens da família comemorando a vitória nacional do petista provocaram questionamentos sobre alianças, posicionamentos políticos e os rumos do grupo. O episódio ocorre após 32 anos de presença da família no Legislativo estadual.
A família Riva voltou ao centro do debate político de Mato Grosso após a divulgação de imagens de integrantes comemorando a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial de 2026, apesar de uma trajetória recente de aproximação política com o campo que apoiou Flávio Bolsonaro (PL).
O episódio ganhou repercussão porque ocorreu em meio a uma disputa eleitoral marcada por alianças, divergências e derrotas de integrantes da família. As irmãs Janaina Riva e Jéssica Riva, ambas filiadas ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), não conseguiram os cargos que disputaram nas eleições estaduais.
A situação chamou a atenção por expor as contradições e os rearranjos de um grupo político que, durante décadas, manteve influência no Legislativo mato-grossense. A comemoração da vitória de Lula, por si só, não comprova mudança formal de posicionamento partidário, mas abriu espaço para questionamentos sobre as relações políticas da família e seus próximos passos.
O caso também reacende o debate sobre a coerência dos discursos eleitorais, a fidelidade às alianças e a forma como lideranças regionais se posicionam diante de resultados nacionais que contrariam suas expectativas.
Janaina Riva, Jéssica Riva e José Riva: os nomes por trás da disputa
Janaina Riva construiu sua trajetória política em Mato Grosso e exerceu mandato de deputada estadual desde 2015. Em 2026, disputou uma vaga no Senado pelo MDB, mas terminou em terceiro lugar, atrás dos eleitos Mauro Mendes (União Brasil) e José Medeiros (PL).
Sua irmã, Jéssica Riva, também concorreu pelo MDB, desta vez a uma cadeira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Ela recebeu 25.979 votos, número insuficiente para conquistar uma das 24 vagas do Legislativo estadual.
O pai das duas, José Geraldo Riva, conhecido como José Riva, foi uma das figuras mais influentes da política mato-grossense. Eleito deputado estadual em 1994, ocupou posições de destaque na Assembleia Legislativa e acumulou processos e condenações relacionados à administração pública. Também firmou acordo de colaboração premiada e assumiu o compromisso de devolver R$ 92 milhões aos cofres públicos, conforme relatos publicados sobre sua trajetória.
As derrotas das duas irmãs encerram um ciclo de 32 anos de representação eleitoral da família Riva no estado, iniciado com a eleição de José Riva em 1994. A partir de fevereiro de 2027, nenhum integrante da família deverá ocupar mandato eletivo estadual ou federal em Mato Grosso, conforme os resultados divulgados.
Campanha alinhada a Flávio Bolsonaro e divergências políticas
Durante a campanha, Janaina Riva integrou o cenário de alianças em que o PL buscava fortalecer a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Entretanto, sua presença no campo bolsonarista não eliminou divergências com integrantes da própria coligação.
Em setembro, Odílio Balbinotti, empresário e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro em Mato Grosso, criticou a atuação de José Riva e afirmou que o ex-deputado buscaria recuperar influência política por meio das filhas. Trata-se de uma avaliação política atribuída a Balbinotti, e não de um fato comprovado sobre as intenções de José Riva.
A relação entre Janaina e aliados do PL também enfrentou atritos relacionados à composição da chapa e à divisão do tempo de propaganda eleitoral. Esses episódios evidenciaram que a aliança não era inteiramente livre de disputas internas.
No segundo turno presidencial, Flávio Bolsonaro recebeu 66,06% dos votos válidos em Mato Grosso, enquanto Lula alcançou 33,94%. Apesar da vantagem expressiva do candidato do PL no estado, Lula venceu a disputa nacional, contrariando as expectativas de diversas lideranças mato-grossenses que trabalharam pela candidatura de Flávio.
O racha familiar e o significado da comemoração
A comemoração da vitória de Lula por integrantes da família Riva ganhou repercussão justamente por ocorrer após uma campanha marcada por disputas políticas e derrotas eleitorais.
É importante, porém, separar três questões: a preferência política individual de cada integrante da família, as alianças partidárias estabelecidas durante a campanha e o resultado das candidaturas de Janaina e Jéssica. Esses elementos podem se relacionar, mas não são necessariamente equivalentes.
As imagens divulgadas alimentaram questionamentos sobre a coerência política do grupo. Ainda assim, a comemoração de um resultado eleitoral não comprova, isoladamente, que houve rompimento formal com aliados anteriores, mudança de partido ou acordo com o governo Lula.
O racha mencionado nas reportagens deve ser compreendido dentro desse contexto de divergências e rearranjos políticos, sem atribuir a cada integrante da família declarações ou intenções que não estejam documentadas.
A crítica política: alianças precisam ser explicadas ao eleitor
O episódio deixa uma questão importante para o debate público: até que ponto as alianças firmadas durante uma eleição representam compromissos políticos duradouros ou apenas estratégias circunstanciais?
O eleitor tem o direito de cobrar coerência dos candidatos e explicações sobre mudanças de posicionamento. Isso vale tanto para integrantes da família Riva quanto para qualquer liderança que construa sua campanha com base em determinada aliança e, posteriormente, adote outra postura.
Também é necessário reconhecer que o apoio a um candidato não impede que uma pessoa comemore a vitória de outro por razões pessoais ou políticas. A crítica deve se apoiar em fatos documentados, e não transformar uma manifestação isolada em prova de oportunismo.
O dado político mais significativo é a combinação entre as derrotas de Janaina e Jéssica, o fim da representação eleitoral da família após 32 anos e as divergências que marcaram sua relação com aliados durante a campanha.
O futuro do grupo dependerá de sua capacidade de reorganização, da relação com os partidos e da confiança que conseguir reconstruir junto ao eleitorado de Mato Grosso. A comemoração da vitória de Lula pode render repercussão e alimentar o debate, mas são os resultados eleitorais e as decisões políticas concretas que determinarão o espaço da família nos próximos anos.