
Flávio Bolsonaro diz ter recebido mais de 1,8 mil ameaças de morte durante campanha presidencial
Candidato do PL afirma que 30 casos teriam resultado em investigações da Polícia do Senado; campanha reforçou segurança, enquanto aliados associam os episódios à disputa política e à defesa do enquadramento de facções criminosas como organizações terroristas
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, afirmou ter recebido mais de 1,8 mil ameaças de morte nos últimos meses. A declaração foi feita durante uma transmissão ao vivo na madrugada deste domingo (16), às vésperas do início da agenda de campanha pelo país.
Segundo Flávio, o aumento das ameaças teria ocorrido depois de ele passar a defender publicamente que organizações criminosas como PCC, Comando Vermelho (CV) e milícias sejam classificadas como organizações terroristas.
“Foi só eu dizer que vou classificar PCC, CV e milícias como organizações terroristas, já recebi mais de mil e oitocentas ameaças de morte”, afirmou o senador.
A equipe do candidato sustenta que 30 dos registros teriam evoluído para investigações conduzidas pela Polícia do Senado Federal, instituição responsável atualmente pela segurança de Flávio em Brasília e também durante viagens de campanha.
O próprio senador declarou que agentes teriam conduzido à delegacia uma pessoa que, segundo a acusação apresentada por ele, estaria planejando um ataque contra sua integridade em Juiz de Fora (MG). A cidade tinha sido escolhida para receber uma das primeiras atividades de campanha de Flávio nesta segunda-feira (17), mas o compromisso acabou cancelado por causa do mau tempo que impediu a decolagem de seu avião de Brasília.
Campanha fala em diferentes tipos de ameaça
A campanha de Flávio Bolsonaro já havia divulgado, em 22 de julho, um levantamento interno sobre os conteúdos considerados ameaçadores.
De acordo com a equipe do candidato, os registros estavam divididos em quatro grupos:
- 868 ameaças explícitas;
- 647 manifestações de incitação à violência;
- 640 referências consideradas codificadas;
- 133 conteúdos relacionados a planejamento ou oportunidade de ataques.
Os números apresentados pela campanha aparecem em uma comunicação sobre o reforço da proteção do candidato. Segundo a equipe, diante do que classificou como “crescentes ameaças à vida de Flávio Bolsonaro”, foram adotadas novas medidas de segurança.
Entre elas estaria a ampliação do efetivo de policiais, com o triplo de agentes destacados para acompanhar o senador, além do uso permanente de colete à prova de balas.
Flávio já vinha utilizando o equipamento em aparições públicas. No domingo (16), durante o lançamento oficial de sua candidatura em Copacabana, no Rio de Janeiro, o candidato também apareceu usando colete.
A mudança, segundo ele, alterou a maneira como participa dos atos políticos.
Em uma transmissão realizada em 30 de julho, Flávio afirmou que as ameaças haviam se tornado frequentes e que já não poderia circular entre apoiadores com a mesma liberdade.
“Não posso fazer como eu adoro fazer, de entrar mais no meio da galera, e abraçar e tirar foto”, declarou, argumentando que poderia haver alguém mal-intencionado no meio da multidão.
Na mesma ocasião, pediu aos apoiadores que também assumissem riscos políticos durante a campanha.
Flávio recusou escolta da Polícia Federal
A estratégia de segurança do candidato também provocou uma situação incomum durante a campanha.
Em julho, Flávio Bolsonaro dispensou a escolta da Polícia Federal que havia sido disponibilizada para acompanhá-lo nas viagens pelo país.
A justificativa apresentada pelo senador foi a possibilidade de haver agentes infiltrados na estrutura responsável por sua proteção. Flávio relacionou a desconfiança ao fato de a Polícia Federal ser comandada pelo diretor-geral Andrei Rodrigues, indicado durante o governo do PT.
A PF possui uma estrutura específica para proteção de candidatos. Coordenada pela Diretoria de Proteção à Pessoa (DPP), a área está preparada para atender simultaneamente até dez candidaturas e dispõe de equipes especializadas que podem atuar nos diferentes Estados brasileiros durante o período eleitoral.
Os agentes fazem acompanhamento das agendas e avaliação permanente dos riscos relacionados aos candidatos.
Apesar da estrutura federal disponível, Flávio optou por manter a segurança sob responsabilidade da Polícia do Senado, que, segundo sua equipe, já o acompanha desde o início de seu mandato.
Rogério Marinho atribui ameaças à esquerda
O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, reconheceu que existe preocupação com a possibilidade de um ataque.
Segundo ele, a campanha está adotando medidas preventivas.
Marinho também atribuiu as ameaças ao que classificou como setores mais radicais da esquerda.
“Tem receio de ataque, mas estamos tomando todas as providências”, afirmou.
Na avaliação do coordenador da campanha, existe uma contradição no comportamento desses grupos, que, segundo ele, se apresentam como defensores da democracia, mas praticariam ações que considera agressivas contra o próprio regime democrático.
A acusação, porém, não vem acompanhada, nas informações apresentadas, de evidências públicas que comprovem a existência de uma operação coordenada de grupos de esquerda para assassinar Flávio Bolsonaro.
Esse ponto é central para compreender o episódio: há registros e alegações apresentados pela campanha, mas isso não significa que esteja comprovada uma conspiração política para matar o candidato.
Eduardo Bolsonaro amplia alerta sobre segurança do irmão
O deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, também passou a reforçar publicamente a preocupação com a segurança do candidato.
Em entrevista ao canal Rede Comunica Brasil, Eduardo afirmou que Flávio deveria ter cuidado redobrado.
O deputado relacionou um eventual ataque ao cenário eleitoral e argumentou que a retirada de Flávio da disputa poderia favorecer diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Flávio tem que tomar muito cuidado com a segurança dele”, afirmou Eduardo.
Na sequência, apresentou sua interpretação sobre o impacto eleitoral de um eventual assassinato do irmão, dizendo que, sem Flávio na disputa, a eleição poderia ficar mais favorável a Lula.
A declaração transforma a questão da segurança em parte do próprio discurso político da campanha: o risco de violência deixa de ser apenas uma preocupação operacional e passa a integrar a narrativa eleitoral construída pelo grupo bolsonarista.
Advogados levam acusações contra Lula ao STF
A campanha também levou a discussão ao Supremo Tribunal Federal.
Os advogados Maria Cláudia Bucchianeri e Tracy Reinaldet apresentaram uma petição à Corte depois de declarações do presidente Lula envolvendo a ideia de punição a “traidores da Pátria”.
A defesa de Flávio afirmou que o discurso representaria uma repetição de manifestações que, na avaliação dos advogados, poderiam configurar ameaça ou incitação à violência contra o candidato.
A campanha passou a divulgar comunicados sobre o tema e a destacar publicamente o temor de que o ambiente eleitoral pudesse resultar em violência.
O episódio ganhou dimensão política porque as declarações de Lula foram interpretadas pelos aliados de Flávio dentro do contexto da disputa entre o candidato do PL e o presidente.
O discurso sobre “narcoterrorismo” está no centro da controvérsia
A origem apontada pela própria campanha para o aumento das ameaças está ligada principalmente à proposta de Flávio de enquadrar grandes organizações criminosas brasileiras como narcoterroristas ou organizações terroristas.
O tema ganhou força depois de uma viagem do senador aos Estados Unidos para uma reunião na Casa Branca, ocasião em que ele aproveitou a agenda para defender internacionalmente sua posição sobre o combate ao crime organizado.
A partir daí, aliados passaram a relacionar a defesa da medida ao aumento dos ataques contra o candidato.
A narrativa ganhou ainda mais força após declarações de Lula sobre “traidores da Pátria”, interpretadas pelo grupo de Flávio como uma ameaça indireta.
Aliados também fizeram alertas que não se confirmaram
A discussão sobre um possível atentado não ficou restrita à família Bolsonaro e à coordenação oficial da campanha.
Aliados e apoiadores também passaram a divulgar informações sobre supostos planos para atacar Flávio.
Um dos episódios citados envolve o comunicador Allan dos Santos, que, em 1º de junho, divulgou em seu canal no YouTube uma afirmação segundo a qual o Comando Vermelho estaria planejando matar Flávio Bolsonaro em Minas Gerais.
A informação teria como base supostas conversas em um grupo de WhatsApp relacionadas a uma manifestação contra a entrega de um título de cidadão honorário de Belo Horizonte ao senador.
O atentado anunciado, entretanto, não aconteceu.
Outro episódio ocorreu em junho, quando o deputado federal Maurício Marcon (PL-RS) comentou, durante entrevista ao canal Auri Verde Brasil, declarações de um apresentador que havia associado falas de Lula a uma possível ameaça contra Flávio e Eduardo Bolsonaro.
Marcon recorreu ao conceito de “apito de cachorro” — expressão usada para descrever uma mensagem aparentemente indireta que seria compreendida por determinado grupo como uma orientação.
O deputado interpretou declarações de Lula como uma espécie de sinalização indireta para pessoas dispostas a cometer violência.
Mais uma vez, porém, as informações apresentadas não demonstram publicamente a existência de uma ordem de Lula ou de uma articulação organizada da esquerda para atacar Flávio Bolsonaro.
A sombra da violência política
A preocupação com ataques durante uma eleição não surge em um vazio.
O Brasil viveu episódios de violência política nos últimos ciclos eleitorais, inclusive em 2022, quando ocorreram casos envolvendo pessoas de diferentes posições ideológicas.
É justamente esse histórico que torna a discussão sobre segurança de candidatos particularmente delicada.
De um lado, existe a necessidade concreta de proteger uma candidatura que afirma estar recebendo ameaças. De outro, acusações de que adversários políticos estariam planejando assassinatos exigem comprovação, sobretudo quando são utilizadas dentro de uma campanha eleitoral altamente polarizada.
No caso de Flávio Bolsonaro, a campanha apresenta números expressivos de mensagens classificadas como ameaçadoras e afirma que parte delas chegou às autoridades policiais. Ao mesmo tempo, as informações divulgadas até aqui não comprovam uma conspiração coordenada por grupos de esquerda.
A distinção entre ameaça registrada, investigação policial, suspeita de ataque e comprovação de uma conspiração torna-se, portanto, fundamental.
Juiz de Fora entra novamente no roteiro político de Flávio
A preocupação com segurança ganhou um capítulo adicional nesta segunda-feira (17).
Flávio havia escolhido Juiz de Fora para iniciar sua agenda após o lançamento oficial da candidatura em Copacabana.
A cidade possui um significado especial para o bolsonarismo porque foi ali que Jair Bolsonaro foi esfaqueado em 6 de setembro de 2018, durante a campanha presidencial daquele ano.
Na ocasião, Bolsonaro participava de uma agenda política quando foi atacado com uma faca em meio à multidão.
O episódio tornou-se um dos acontecimentos mais marcantes da campanha de 2018 e passou a integrar a memória política do movimento bolsonarista.
A escolha de Juiz de Fora por Flávio, portanto, carregava forte simbolismo: seria uma tentativa de conectar a nova candidatura à trajetória política do pai e à história do grupo desde a eleição de 2018.
Mas a agenda acabou cancelada nesta segunda-feira por causa do mau tempo, que impediu a decolagem do avião de Brasília.
A campanha manteve, entretanto, os compromissos em Belo Horizonte.
Agenda segue em Minas Gerais
Apesar do cancelamento em Juiz de Fora, Flávio Bolsonaro manteve a programação prevista para a capital mineira.
Em Belo Horizonte, o senador participa do lançamento da candidatura de Flávio Roscoe (PL) ao governo de Minas Gerais, marcado para as 19h.
Antes do evento, o candidato à Presidência tem previsto um almoço com lideranças do partido.
Na terça-feira pela manhã, a programação inclui ainda um adesivaço ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL).
A passagem por Minas ocorre justamente no momento em que a segurança pessoal de Flávio se tornou um dos temas paralelos à campanha presidencial.
Entre a segurança e a disputa eleitoral
A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro começa, assim, marcada por uma combinação de polarização política, discurso de endurecimento contra o crime organizado, reforço da segurança e acusações de ameaças de morte.
O senador afirma ter recebido mais de 1,8 mil ameaças. Sua equipe detalha centenas de manifestações consideradas violentas e diz que 30 casos chegaram a investigações da Polícia do Senado.
O candidato também passou a usar colete balístico de maneira permanente em eventos e recusou a proteção oferecida pela Polícia Federal por desconfiança em relação à estrutura comandada por Andrei Rodrigues.
Seus aliados, entre eles Rogério Marinho e Eduardo Bolsonaro, sustentam que o risco é real e atribuem parte das ameaças ao ambiente político criado por setores da esquerda.
Ao mesmo tempo, não há evidências públicas, segundo as informações apresentadas, que comprovem a existência de uma operação coordenada da esquerda para assassinar o candidato.
É nesse limite — entre uma ameaça que precisa ser investigada e uma acusação política que precisa ser comprovada — que a segurança de Flávio Bolsonaro passou a ocupar espaço dentro da própria estratégia eleitoral de 2026.
A campanha ainda está apenas começando, mas o episódio mostra que, além das urnas, propostas e alianças, a disputa presidencial brasileira volta a carregar o peso da violência política como um dos elementos mais sensíveis de seu roteiro eleitoral.