
Flávio Bolsonaro diz ter recebido o “manto” de Jair Bolsonaro e inicia campanha presidencial com discurso de continuidade
Em vídeo divulgado no primeiro dia oficial da campanha, senador afirma estar preparado para assumir o comando do país; ato em Copacabana reforça ligação com o ex-presidente e aposta na identidade política do bolsonarismo
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) iniciou oficialmente, neste domingo (16), sua campanha à Presidência da República apresentando-se como o sucessor político de Jair Bolsonaro. Em um vídeo publicado nas redes sociais, o candidato afirmou que recebeu do pai o que chamou de “manto de Bolsonaro” e declarou estar preparado para disputar o Palácio do Planalto.
A mensagem foi divulgada justamente no primeiro dia autorizado pelo calendário eleitoral para a realização de campanha nas ruas e na internet. Com a frase “que comecem os jogos”, Flávio marcou a largada de uma disputa presidencial que tem como um de seus principais eixos a polarização com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Começa hoje a campanha Flávio Bolsonaro presidente, 22”, afirmou o senador na gravação, referindo-se ao número eleitoral associado à sua candidatura.
Na sequência, Flávio fez uma defesa contundente do pai e apresentou sua candidatura como uma continuidade direta do projeto político construído por Jair Bolsonaro.
Segundo ele, o ex-presidente seria vítima de uma injustiça política e estaria pagando um preço por enfrentar estruturas que o senador identifica como parte do “sistema”.
Flávio afirmou ainda que, diante da impossibilidade de Jair Bolsonaro disputar a eleição, recebeu dele a responsabilidade de representar o movimento político nas urnas.
“Na impossibilidade dele, ele me passa seu manto e estou aqui diante de todos para reafirmar que estou mais que preparado para comandar esse país.”
A declaração resume uma das principais características da estratégia eleitoral de Flávio: em vez de se afastar da figura do pai, o senador assume explicitamente a condição de herdeiro político de Jair Bolsonaro.
A defesa de Jair Bolsonaro
Na fala divulgada no início da campanha, Flávio também classificou o processo envolvendo seu pai como uma “farsa” e afirmou que Jair Bolsonaro nunca teria cometido irregularidades.
Trata-se de uma posição política do candidato, apresentada como argumento central para mobilizar o eleitorado bolsonarista.
A defesa do ex-presidente ocupa papel estratégico na campanha porque Jair Bolsonaro permanece como a principal referência política do grupo que Flávio pretende representar. O senador procura, portanto, transformar a impossibilidade de seu pai disputar novamente a Presidência em argumento para sua própria candidatura.
A mensagem transmitida aos apoiadores é direta: o projeto político não terminaria com Jair Bolsonaro; continuaria por meio de seu filho.
“Não é sobre Bolsonaro e PT”, afirma Flávio
Flávio também tentou enquadrar a disputa eleitoral para além da tradicional polarização entre Jair Bolsonaro e Lula.
“Essas eleições não são sobre Bolsonaro e PT, mas sobre o Brasil vencer ou o PT acabar com o Brasil”, declarou.
A frase estabelece a campanha em torno de uma escolha nacional, mas mantém o Partido dos Trabalhadores como principal adversário político.
O discurso revela uma estratégia dupla. De um lado, Flávio pretende preservar a identidade bolsonarista e manter o vínculo emocional com os eleitores do pai. De outro, procura apresentar sua candidatura como uma alternativa de governo para além da disputa pessoal entre Jair Bolsonaro e Lula.
Copacabana como cenário da largada
Horas depois da divulgação do vídeo, Flávio levou a campanha para a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
A escolha do local teve forte carga simbólica. A região se transformou, durante os anos de Jair Bolsonaro na política nacional, em um dos principais palcos de manifestações de apoio ao ex-presidente.
O lançamento ocorreu em um trio elétrico instalado na Avenida Atlântica.
Flávio chegou ao local acompanhado da mulher, Fernanda, e de aliados políticos. Também participaram do ato o candidato a vice-presidente, Alfredo Gaspar, e Douglas Ruas, candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro.
Vestindo uma camisa verde e amarela com a inscrição “Meu partido é o Brasil”, o senador atravessou um corredor formado na avenida até chegar ao palco.
O simbolismo das cores e da frase escolhida para a roupa reforçou a tentativa de apresentar a candidatura como uma representação nacional, e não simplesmente como uma candidatura partidária.
O discurso contra Lula
Em seu primeiro grande discurso da campanha, Flávio voltou suas críticas ao governo Lula.
O senador afirmou que o atual presidente estaria deixando um legado de “incompetência e corrupção”.
Também direcionou críticas à política de segurança pública e afirmou que pretende tratar organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
A promessa foi acompanhada de uma crítica à atuação do governo federal em questões internacionais.
Na avaliação apresentada por Flávio, o governo estaria disposto a enfrentar conflitos diplomáticos no exterior, mas não teria a mesma disposição para enfrentar organizações criminosas dentro do território brasileiro.
A segurança pública aparece, assim, como uma das bandeiras centrais da campanha.
PCC, Comando Vermelho e milícias
Flávio declarou que pretende classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas.
A proposta integra uma agenda de endurecimento da segurança pública apresentada pelo candidato e procura dialogar diretamente com um eleitorado preocupado com violência, criminalidade organizada e sensação de insegurança.
O programa de governo também apresenta propostas de endurecimento penal e mudanças no sistema prisional, incluindo a criação de novas vagas e medidas inspiradas em experiências internacionais de combate ao crime.
Nesse ponto, Flávio procura diferenciar sua candidatura da política de segurança adotada pelos governos que critica, apresentando-se como defensor de uma atuação mais rigorosa do Estado contra organizações criminosas.
A emoção ao falar do pai
O momento mais carregado de emoção no ato de Copacabana ocorreu quando Flávio falou diretamente sobre Jair Bolsonaro.
Ao tentar explicar a dificuldade de suceder politicamente o pai, recorreu a uma comparação esportiva:
“É difícil comparar o Pelé com o filho do Pelé, mas estou aqui com toda humildade.”
A referência serviu para reconhecer a dimensão política de Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, apresentar Flávio como alguém disposto a assumir a responsabilidade de continuar a trajetória do pai.
Em seguida, o ato foi interrompido para que os participantes ouvissem uma mensagem do ex-presidente.
Jair Bolsonaro afirmou que o Brasil precisa mudar e mencionou o temor de que sua filha caçula fique órfã.
A participação de Jair Bolsonaro, ainda que por meio de uma mensagem, reforçou o caráter familiar da campanha e ajudou a consolidar a imagem de Flávio como sucessor político do ex-presidente.
O peso eleitoral do sobrenome
A candidatura de Flávio parte de uma circunstância singular: seu maior ativo eleitoral também é um dos maiores desafios da campanha.
O senador possui uma trajetória política própria, construída inicialmente no Rio de Janeiro e posteriormente no Senado Federal, mas seu nome está profundamente associado ao de Jair Bolsonaro.
Ao assumir publicamente o “manto” do pai, Flávio não tenta esconder essa relação. Ele a transforma em elemento central da campanha.
A estratégia consiste em apresentar o sobrenome Bolsonaro não como um peso, mas como uma continuidade.
Essa escolha explica também a simbologia de Copacabana, das cores verde e amarela, das referências ao ex-presidente e da defesa explícita de seu legado.
A corrida contra Lula
A largada ocorre em um cenário eleitoral competitivo.
Pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto apontou Lula com 38% das intenções de voto, contra 31% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
Na sequência apareciam Renan Santos (Missão), com 4%; Ronaldo Caiado (PSD), com 4%; Romeu Zema (Novo), com 2%; Augusto Cury (Avante), com 2%; e Samara Martins (UP), com 1%.
O levantamento registrou ainda 10% de eleitores indecisos e 8% que declararam voto branco, nulo ou intenção de não votar.
A margem de erro informada para a pesquisa era de dois pontos percentuais.
O resultado mostra Lula numericamente à frente no primeiro turno, mas também evidencia uma disputa relevante pela segunda colocação e pelo eleitorado de oposição.
Para Flávio, reduzir essa distância passa pela capacidade de consolidar o eleitorado identificado com Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, ampliar sua capacidade de alcançar segmentos que não necessariamente se identificam integralmente com o bolsonarismo.
O desafio de ser o herdeiro
A expressão “manto de Bolsonaro” não foi escolhida por acaso.
Ela transforma a sucessão política em uma narrativa quase pessoal: Jair Bolsonaro, impedido de ocupar novamente o centro da disputa presidencial, entrega ao filho a missão de defender aquilo que Flávio apresenta como seu legado.
O mérito político que Flávio procura reivindicar está justamente nessa disposição de assumir uma candidatura que carrega o peso de um dos nomes mais polarizadores da política brasileira.
Ao afirmar que está “mais que preparado” para comandar o país, o senador procura deixar de ser apenas o filho de Jair Bolsonaro e apresentar-se como candidato presidencial com projeto próprio.
Ao mesmo tempo, sua campanha reconhece que o vínculo com o pai é indispensável para manter a força eleitoral do bolsonarismo.
É nessa combinação entre herança política e candidatura própria que Flávio pretende construir sua trajetória presidencial.
O patrimônio também entra no debate eleitoral
A candidatura chega às ruas poucos dias depois de Flávio registrar oficialmente sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral.
Na declaração apresentada à Justiça Eleitoral, o senador informou patrimônio de aproximadamente R$ 8,1 milhões.
O valor é 4,7 vezes superior aos R$ 1,7 milhão declarados por ele em 2018, quando disputou o Senado.
A maior parcela do patrimônio atual corresponde a uma mansão de aproximadamente R$ 6,2 milhões no Lago Sul, em Brasília.
Também aparecem na declaração cerca de R$ 1 milhão em fundo de investimentos, R$ 568,7 mil em conta bancária, R$ 103,7 mil em poupança, um automóvel de R$ 133 mil e participações empresariais.
A evolução patrimonial, por si só, não constitui demonstração de irregularidade. A declaração eleitoral é um retrato dos bens informados pelo candidato à Justiça Eleitoral e precisa ser analisada dentro da evolução de seus ativos, aquisições e demais circunstâncias patrimoniais.
Uma campanha construída sobre continuidade
O primeiro dia oficial da campanha deixou clara a escolha de Flávio Bolsonaro.
O senador não pretende construir uma candidatura que rompa com Jair Bolsonaro. Pelo contrário: pretende herdar sua base, sua simbologia, seu discurso e sua identidade política, acrescentando a isso uma tentativa de apresentar-se como preparado para assumir o comando nacional.
Copacabana funcionou como cenário perfeito para essa narrativa.
Ali, entre bandeiras brasileiras, referências ao ex-presidente e discursos de oposição ao governo Lula, Flávio apresentou-se como aquele que recebeu a responsabilidade de levar adiante um projeto político que, segundo sua própria interpretação, não pode terminar com a saída de Jair Bolsonaro da disputa.
A campanha presidencial, portanto, começa com uma mensagem inequívoca: Flávio quer transformar o sobrenome Bolsonaro em uma ponte entre a trajetória do pai e sua própria tentativa de chegar ao Palácio do Planalto.
E, ao declarar que recebeu o “manto”, o senador não apenas homenageou Jair Bolsonaro. Ele assumiu publicamente a responsabilidade política de provar, ao longo dos 45 dias de campanha, que é capaz de vestir esse manto sem permanecer apenas à sombra de quem o deixou como herança política.