
Neymar, Vasco e Flávio Bolsonaro: quando futebol e eleição se encontram em São Januário
Encontro entre o candidato do PL e o craque do Santos virou um dos episódios mais comentados do primeiro dia oficial da campanha presidencial
Poucas imagens resumiram tão bem a mistura entre política, futebol e celebridades que marcou o primeiro domingo oficial da campanha eleitoral de 2026 quanto a cena de Flávio Bolsonaro diante de Neymar, em São Januário.
O candidato do PL havia acabado de participar do lançamento de sua campanha presidencial em Copacabana. Depois do ato político, dirigiu-se ao estádio do Vasco para assistir ao jogo contra o Santos.
Ali, encontrou o presidente vascaíno Pedrinho e teve contato com Neymar, atacante do Santos. Flávio, torcedor declarado do Vasco, pediu um autógrafo ao jogador em uma camisa da seleção brasileira.
A fotografia poderia ser apenas uma lembrança de torcedor.
No contexto eleitoral daquele domingo, porém, adquiriu outro significado.
Flávio Bolsonaro acabara de colocar seu nome oficialmente na disputa pelo Planalto. O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro assumiu a missão de representar eleitoralmente o grupo político que durante anos teve o pai como principal liderança.
Na manhã daquele mesmo domingo, Flávio havia declarado que recebera do pai o “manto de Bolsonaro” e que estava preparado para comandar o país.
A frase deixou clara a estratégia central da campanha: não romper com o bolsonarismo, mas apresentar Flávio como seu sucessor eleitoral imediato.
O encontro com Neymar, por sua vez, apresentou uma imagem diferente. Em vez do candidato discursando contra adversários políticos, apareceu o torcedor diante de um ídolo esportivo.
Essa dimensão humana é relevante para qualquer campanha presidencial.
O candidato precisa falar simultaneamente com militantes e com eleitores que não participam da política diariamente. Uma fotografia ao lado de Neymar alcança um público muito diferente daquele que acompanha discursos políticos sobre STF, segurança pública, impostos ou governo Lula.
E Neymar também carrega enorme peso simbólico. O atacante é uma das personalidades esportivas brasileiras mais conhecidas internacionalmente. Sua presença em São Januário transformou o jogo em um acontecimento de grande repercussão.
É importante, entretanto, separar encontro pessoal de apoio político.
Não há, nas informações disponíveis sobre o episódio, indicação de que Neymar tenha declarado apoio à candidatura presidencial de Flávio. O encontro ocorreu antes da partida, em um contexto esportivo, e a presença de candidatos no estádio fazia parte de uma política anunciada pelo Vasco de abertura aos presidenciáveis, sem compromisso partidário.
Essa distinção é fundamental para evitar que uma fotografia seja transformada em uma declaração política que não ocorreu.
Nas arquibancadas, a situação foi mais complexa.
Flávio recebeu algumas manifestações favoráveis, mas também foi vaiado e hostilizado por parte da torcida. O episódio mostrou que a candidatura presidencial, mesmo dentro de um ambiente associado à sua identidade pessoal como vascaíno, não está livre da polarização política brasileira.
A derrota por 3 a 0 tornou a tarde ainda mais amarga para o senador.
Neymar participou de momentos decisivos do jogo, enquanto o Vasco sofreu mais um revés no campeonato. A torcida, que já estava insatisfeita com o desempenho da equipe, terminou a partida protestando.
Ainda assim, do ponto de vista político, Flávio conseguiu produzir uma imagem de campanha que dificilmente passaria despercebida.
O candidato apareceu como político, torcedor e integrante da família Bolsonaro em um único dia.
É justamente aí que está o mérito estratégico de sua movimentação.
Flávio compreendeu que uma campanha presidencial não se constrói apenas em palanques. Ela também se constrói por símbolos, imagens, encontros e pela capacidade de ocupar diferentes espaços sociais.
Em São Januário, o senador não estava diante de uma multidão mobilizada exclusivamente para ouvi-lo. Estava diante de um público que havia ido ao estádio para ver futebol.
E mesmo nesse ambiente, seu nome entrou em campo.