Flávio Bolsonaro encontra ministro de Bukele e defende mais prisões no Brasil: “Tem pouco preso, tinha que ter mais”

Flávio Bolsonaro encontra ministro de Bukele e defende mais prisões no Brasil: “Tem pouco preso, tinha que ter mais”

Candidato do PL à Presidência elogia modelo de segurança de El Salvador, promete criar mais de 500 mil vagas em presídios e defende mudanças na legislação; encontro com Gustavo Villatoro ocorre enquanto o governo de Nayib Bukele é alvo de denúncias de detenções arbitrárias, tortura e mortes sob custódia

O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltou a apresentar o modelo de segurança pública de El Salvador, comandado pelo presidente Nayib Bukele, como uma referência para o Brasil. No domingo (30), Flávio se reuniu, em São Paulo, com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública salvadorenho, e afirmou que o Brasil precisa prender mais pessoas e ampliar de forma significativa sua capacidade prisional.

Depois do encontro, o senador foi direto ao defender sua proposta:

“Tem pouco preso no Brasil, tinha que ter mais. Só não tem mais porque a legislação é frouxa.”

Flávio afirmou ainda que pretende, caso seja eleito, criar mais de 500 mil vagas em presídios e endurecer as punições para determinados crimes, citando como exemplo o furto de telefone celular e o comércio de drogas, para os quais defendeu penas mais severas e maior tempo de permanência na prisão.

A declaração coloca o encarceramento em massa no centro de sua proposta de segurança e aproxima explicitamente sua campanha da experiência salvadorenha.

O problema é que o modelo escolhido como inspiração está cercado por uma das mais intensas controvérsias internacionais sobre segurança pública e direitos humanos.

O encontro com Gustavo Villatoro

A reunião entre Flávio Bolsonaro e Gustavo Villatoro aconteceu em um hotel no centro de São Paulo.

Flávio estava acompanhado de Alfredo Gaspar, candidato a vice-presidente em sua chapa, e do senador Sergio Moro, candidato do PL ao governo do Paraná.

O encontro foi dedicado à discussão de estratégias de combate ao crime organizado e às experiências implementadas pelo governo de Nayib Bukele.

Segundo Flávio, a conversa foi proveitosa e serviu de inspiração para a elaboração de um plano de segurança mais rigoroso no Brasil.

O ministro salvadorenho teria defendido também a importância de eleger uma maioria de parlamentares alinhados ao presidente para permitir mudanças legais necessárias à implementação das medidas.

A proposta de Flávio: mais de meio milhão de vagas

Uma das propostas apresentadas por Flávio é a construção de mais de 500 mil vagas prisionais.

A dimensão da promessa é enorme.

Significaria praticamente criar uma nova estrutura penitenciária de proporções nacionais para ampliar drasticamente a capacidade do Estado de encarcerar.

Para o candidato, a expansão seria necessária porque o sistema atual não possui espaço suficiente para manter presos criminosos por períodos mais longos.

A lógica é simples:

mais crimes → penas maiores → mais presos → necessidade de mais presídios.

Mas essa equação produz uma segunda pergunta:

quanto custaria construir, equipar e manter mais de 500 mil novas vagas?

O Brasil já possui uma população prisional gigantesca

A afirmação de que o país possui “pouco preso” precisa ser contextualizada.

O Brasil já está entre os países com as maiores populações carcerárias do mundo. Segundo dados citados pelo UOL, o sistema brasileiro abriga centenas de milhares de pessoas, colocando o país entre os três maiores sistemas prisionais do planeta.

Por isso, a frase de Flávio não pode ser entendida literalmente como uma constatação de que o país possui poucos presos em termos absolutos.

O que o candidato defende é que, em sua avaliação, há menos encarceramento do que deveria existir diante da quantidade de crimes cometidos.

Essa é uma posição política.

Não é uma conclusão estatística de que o Brasil possua um sistema prisional pequeno.

“Legislação frouxa”

Flávio atribuiu a diferença entre criminalidade e encarceramento principalmente à legislação.

Segundo o candidato, a lei permitiria que criminosos permaneçam pouco tempo presos, mesmo depois de condenados.

Por isso, defende mudanças no Código Penal e na legislação de execução das penas.

O objetivo seria aumentar a duração efetiva da prisão e diminuir a possibilidade de que determinados criminosos retornem rapidamente às ruas.

É uma proposta que agrada ao discurso de setores da direita brasileira, especialmente entre eleitores que consideram insuficiente a resposta do Estado ao avanço do crime organizado.

Furto de celular como exemplo

Flávio citou especificamente o furto de celular como exemplo de crime que deveria receber punição mais severa.

A proposta representa uma ampliação do endurecimento penal para crimes patrimoniais que hoje podem produzir diferentes consequências conforme o enquadramento jurídico e as circunstâncias.

A ideia do candidato é transformar determinadas condutas em crimes punidos com períodos maiores de prisão.

O efeito esperado, segundo essa visão, seria retirar criminosos das ruas durante mais tempo e aumentar o custo da prática criminosa.

Sergio Moro também adota a inspiração salvadorenha

A presença de Sergio Moro ao lado de Flávio também é significativa.

Moro anunciou que, caso seja eleito governador do Paraná, pretende construir um presídio estadual de segurança máxima chamado “El Salvador”, em homenagem ao modelo de segurança adotado por Bukele.

A proposta demonstra que a experiência salvadorenha não é uma referência isolada na campanha de Flávio.

Ela está sendo incorporada por diferentes candidaturas do campo político de direita.

O modelo de Nayib Bukele

O governo de Nayib Bukele ganhou projeção internacional depois de lançar uma política extremamente agressiva contra organizações criminosas.

Em março de 2022, o governo salvadorenho decretou um regime de exceção após uma escalada de homicídios atribuída às gangues.

Desde então, dezenas de milhares de pessoas foram presas sob suspeita de ligação com organizações criminosas.

O governo afirma que a estratégia destruiu o poder das gangues e reduziu drasticamente os homicídios.

É esse resultado que encanta Flávio e outros políticos brasileiros.

O argumento de Bukele

O ministro Gustavo Villatoro apresentou justamente essa narrativa durante sua passagem por São Paulo.

Em evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Villatoro afirmou que o regime de exceção é uma ferramenta constitucional para combater aquilo que chamou de um “Estado criminoso paralelo”.

Ele argumentou que, antes de Bukele, a impunidade para homicídios era de cerca de 97%.

Segundo sua versão, a política implementada pelo governo conseguiu recuperar o controle territorial e reduzir fortemente a criminalidade.

É essa experiência que o governo salvadorenho apresenta como justificativa para o endurecimento.

O outro lado: direitos humanos

Mas a história não termina na queda dos homicídios.

Organizações internacionais de direitos humanos denunciam graves abusos associados ao estado de exceção.

Segundo informações citadas pelo UOL e por organizações internacionais, mais de 90 mil pessoas foram presas em El Salvador desde o início da política de repressão em massa. Entre os detidos estão também milhares de crianças.

Há denúncias de prisões arbitrárias, tortura, espancamentos, violência sexual, falta de alimentação e água e mortes sob custódia do Estado. Mais de 400 pessoas teriam morrido sob custódia segundo levantamento citado na reportagem.

Essas denúncias não são detalhes secundários.

São o principal contraponto à narrativa de que o modelo salvadorenho seria simplesmente um exemplo de eficiência policial.

Villatoro rebate as críticas

Gustavo Villatoro rejeita essas acusações.

Durante o evento na Fiesp, chamou organizações internacionais de direitos humanos de “hipócritas” e afirmou que elas tentariam “manipular” a população para destruir o trabalho realizado pelo governo salvadorenho.

Segundo ele, o governo respeita os direitos humanos dos salvadorenhos, inclusive dos criminosos, mas considera necessária uma estratégia excepcional diante da atuação das gangues.

O ministro citou o apoio popular ao governo de Bukele como argumento de legitimidade.

O dado de 93%

Villatoro afirmou, sem apresentar fonte durante o discurso, que 93% da população de El Salvador apoia o método adotado pelo governo.

Esse dado foi usado pelo ministro como demonstração de que a população estaria satisfeita com os resultados.

É uma afirmação do governo salvadorenho e, portanto, deve ser tratada como tal.

A aprovação popular, ainda que alta, também não responde à questão jurídica sobre eventuais abusos cometidos pelo Estado.

Uma política pode ter amplo apoio popular e, ao mesmo tempo, ser questionada por violações de direitos fundamentais.

O caso das gangues

El Salvador conviveu durante anos com organizações como a Mara Salvatrucha-13 (MS-13) e o Barrio 18.

Esses grupos exerceram influência sobre territórios, comunidades e atividades criminosas.

O governo Bukele decidiu enfrentá-los com uma estratégia de repressão em larga escala.

A quantidade de prisões aumentou dramaticamente.

Os presídios ficaram superlotados.

E o governo construiu o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), uma megapenitenciária destinada a criminosos considerados perigosos.

O Cecot como símbolo

O Cecot tornou-se um dos maiores símbolos do modelo Bukele.

O complexo possui capacidade oficial para cerca de 40 mil presos.

Fotografias divulgadas pelo governo mostram milhares de detentos com roupas padronizadas, cabeças raspadas e alojados em grandes ambientes coletivos.

As imagens foram utilizadas pelo governo salvadorenho para demonstrar a força de sua política contra as gangues.

Também provocaram críticas de entidades de direitos humanos.

Flávio quer trazer esse modelo para o Brasil

É justamente esse aspecto que diferencia a proposta de Flávio de outras políticas tradicionais.

O senador não está falando apenas em reforçar o policiamento.

Ele defende mudanças estruturais inspiradas em El Salvador.

Mais presídios.

Mais vagas.

Penas maiores.

Maior tempo de prisão.

Legislação mais rígida.

E uma resposta mais dura contra o crime organizado.

A proposta de um Ministério da Segurança Pública

Flávio também apontou outra medida salvadorenha que considera interessante: a criação de um ministério exclusivo para a segurança pública.

No Brasil, a segurança pública federal está atualmente sob a estrutura do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Na visão do candidato, separar as duas áreas permitiria concentrar recursos e decisões na política de segurança.

A proposta faz parte de sua tentativa de apresentar a segurança pública como prioridade absoluta de governo.

O ponto que Flávio não enfatizou

O problema da comparação com El Salvador é que o modelo importado não envolve apenas presídios.

Envolve também mudanças institucionais profundas, ampliação dos poderes do Estado e suspensão de garantias processuais.

Segundo a Folha, o regime de exceção salvadorenho suspendeu garantias de defesa para pessoas acusadas de integrar organizações criminosas, entre outras medidas.

Esse é o aspecto que mais preocupa organizações internacionais.

O combate ao crime pode exigir firmeza.

Mas o Estado não pode perder o limite entre combate ao crime e violação de direitos.

O Brasil pode simplesmente copiar El Salvador?

Não.

Os dois países possuem sistemas jurídicos, instituições, dimensões territoriais e estruturas criminais diferentes.

El Salvador é um país muito menor.

O Brasil possui 27 unidades federativas, dimensões continentais e organizações criminosas estruturadas em redes interestaduais e internacionais.

Facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho operam muito além de uma única cidade.

Por isso, copiar mecanicamente o modelo salvadorenho seria praticamente impossível.

O debate correto seria avaliar quais instrumentos podem ser adaptados ao contexto brasileiro sem importar violações de direitos.

A questão da eficiência

Flávio está correto em uma questão básica: a população brasileira cobra segurança.

As pessoas querem andar pelas ruas sem medo.

Querem deixar seus celulares no bolso.

Querem utilizar transporte público.

Querem que seus filhos voltem para casa.

Querem que criminosos sejam presos.

Querem que condenações sejam efetivamente cumpridas.

Esse sentimento é legítimo.

O problema é determinar qual política consegue produzir segurança duradoura sem destruir as garantias do Estado de Direito.

Prender mais resolve?

A resposta não é simples.

Prender criminosos perigosos é indispensável.

Mas simplesmente aumentar o número de pessoas encarceradas não garante, sozinho, redução sustentável da criminalidade.

Presídios mal administrados podem fortalecer facções.

Criminosos podem continuar comandando atividades do lado de dentro.

O sistema penitenciário pode se transformar em escola do crime.

Por isso, quantidade de presos não é sinônimo automático de segurança.

A outra dimensão: investigação

Combater organizações criminosas exige também inteligência.

Rastreamento financeiro.

Combate à lavagem de dinheiro.

Apreensão de armas.

Controle de fronteiras.

Integração entre polícias.

Polícia científica eficiente.

Monitoramento de lideranças.

Investigações patrimoniais.

Sem isso, prender dezenas de milhares de pessoas pode não atingir quem realmente controla as estruturas criminosas.

O risco do encarceramento em massa

Um plano de mais de 500 mil vagas também teria de enfrentar uma questão financeira gigantesca.

Construir presídios custa bilhões.

Mantê-los custa bilhões todos os anos.

Há despesas com alimentação.

Agentes penitenciários.

Saúde.

Segurança.

Transporte.

Energia.

Manutenção.

Tecnologia.

A pergunta não é apenas se o Brasil precisa de mais vagas.

É:

quantas vagas, a que custo e para quais criminosos?

Uma proposta de forte apelo eleitoral

Apesar dos problemas, a mensagem de Flávio possui enorme força eleitoral.

“Mais prisão” é uma resposta simples para um problema que o eleitor percebe diariamente.

A sensação de insegurança facilita discursos diretos.

O candidato apresenta uma fórmula:

crime grave → pena grave → prisão prolongada.

É uma mensagem fácil de compreender.

Mais difícil é explicar como isso será financiado e administrado.

A inspiração de Bolsonaro

A proposta também é coerente com o histórico político da família Bolsonaro.

Jair Bolsonaro construiu grande parte de sua carreira com discurso de endurecimento penal, valorização das forças policiais, flexibilização do acesso a armas e combate agressivo ao crime.

Flávio agora transforma esses princípios em uma plataforma presidencial própria.

A referência a Bukele amplia ainda mais essa identidade.

Flávio e o eleitor conservador

A escolha de El Salvador como inspiração sinaliza também para um eleitorado específico.

São eleitores que consideram as políticas tradicionais de segurança excessivamente brandas e entendem que criminosos têm recebido mais proteção do Estado do que vítimas.

Flávio explicitou essa visão ao dizer que seu objetivo é defender “os cidadãos, as vítimas, e não os bandidos”.

É uma frase construída para falar diretamente ao sentimento de revolta de quem foi vítima de violência.

A crítica que o candidato enfrenta

Os críticos respondem que direitos fundamentais não pertencem apenas a pessoas consideradas inocentes ou “de bem”.

O Estado de Direito existe justamente para impedir que o governo possa decidir arbitrariamente quem pode ser preso, por quanto tempo e em quais condições.

Uma sociedade pode ser dura contra o crime sem abandonar o devido processo.

Esse é o ponto de tensão.

O ministro de Bukele em São Paulo

A presença de Gustavo Villatoro no Brasil transformou a discussão em algo mais concreto.

Ele não veio apenas falar sobre segurança.

Veio defender publicamente o modelo salvadorenho.

E encontrou em Flávio Bolsonaro um candidato disposto a estudá-lo como referência.

A imagem dos dois juntos possui forte significado eleitoral.

É uma aproximação explícita entre dois projetos de segurança baseados no endurecimento penal.

O silêncio sobre as violações

A principal crítica feita à aproximação de Flávio com Villatoro está justamente aqui.

Ao elogiar a experiência salvadorenha, o candidato enfatizou os resultados contra o crime, mas não apresentou a mesma atenção aos relatos de violações de direitos humanos no país.

É possível defender o combate às gangues e, simultaneamente, condenar tortura e detenções arbitrárias.

É possível reconhecer que El Salvador reduziu homicídios e, ao mesmo tempo, exigir transparência sobre o tratamento dado aos presos.

A política pública não deveria obrigar ninguém a escolher entre segurança e direitos fundamentais.

O modelo que Flávio quer importar

A proposta de Flávio precisa, portanto, ser entendida em toda sua dimensão.

Não é apenas:

mais polícia.

É:

mais presídios, mais penas, mais encarceramento e mudanças legais inspiradas em um governo que adotou medidas excepcionais contra organizações criminosas.

Essa é a verdadeira dimensão do projeto.

Observação em destaque

OBSERVAÇÃO: Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil tem “pouco preso” e defendeu mais de 500 mil novas vagas penitenciárias, além do endurecimento das penas. A comparação com El Salvador precisa, entretanto, considerar que o modelo de Nayib Bukele inclui um regime de exceção mantido desde 2022 e é alvo de denúncias internacionais de detenções arbitrárias, tortura, maus-tratos e mortes sob custódia. A defesa do endurecimento penal é uma posição política legítima; isso não elimina a necessidade de avaliar seus custos, sua eficácia e sua compatibilidade com as garantias constitucionais brasileiras.

A pergunta que Flávio terá de responder

Se for eleito, Flávio precisará transformar o slogan em política pública.

Onde serão construídas as novas unidades?

Quanto custarão?

Quem administrará os presídios?

Quantos agentes penitenciários serão contratados?

Como evitar o domínio das facções?

Como garantir atendimento médico?

Como impedir tortura?

Como controlar abusos?

Como separar criminosos de alta periculosidade de presos de menor risco?

E como fazer tudo isso sem transformar o sistema penitenciário em um gigantesco depósito humano?

O debate sobre as vítimas

Há outro lado que não pode ser esquecido.

As vítimas também possuem direitos.

A família de alguém assassinado possui direito à justiça.

A pessoa assaltada possui direito à proteção.

A mulher ameaçada possui direito a segurança.

O comerciante extorquido possui direito de trabalhar.

O cidadão assaltado possui direito de voltar para casa.

Uma política de segurança que não protege essas pessoas também falha.

Esse é o argumento central de Flávio.

Mas direitos não são uma competição

A dificuldade está em entender que proteger vítimas não exige abandonar direitos fundamentais.

Uma sociedade segura precisa das duas coisas.

Polícia eficiente.

Justiça eficiente.

Presídios adequados.

Investigação.

Prevenção.

E respeito à Constituição.

O Estado não ganha força quando abandona as regras.

Ganha força quando consegue cumprir as regras e, ainda assim, derrotar o crime.

O episódio também envolve Sergio Moro

A presença de Sergio Moro no encontro dá uma dimensão adicional à proposta.

Moro possui uma longa trajetória ligada ao combate à corrupção e ao crime organizado e agora apresenta uma proposta própria inspirada em El Salvador para o Paraná.

O discurso de endurecimento penal, portanto, começa a ocupar espaço importante no campo político de direita.

Uma nova batalha eleitoral

A segurança pública deverá ser um dos principais temas das eleições de 2026.

Lula será pressionado pelos resultados do governo na área.

Flávio apresentará uma proposta mais dura.

Outros candidatos também prometem ampliar presídios e endurecer penas.

O eleitor terá de decidir qual modelo considera mais adequado.

No fundo, a escolha é sobre o tipo de Estado

A discussão vai muito além do número de presos.

É uma discussão sobre o papel do Estado.

Quanto poder a polícia deve ter?

Quanto tempo um condenado deve permanecer preso?

Quais crimes devem receber penas mais severas?

Qual deve ser a capacidade do sistema penitenciário?

Quais direitos não podem ser suspensos?

Quanto dinheiro o país está disposto a gastar com encarceramento?

E qual é o limite entre autoridade e abuso?

O legado de Bukele chega ao Brasil

Nayib Bukele transformou El Salvador em uma vitrine internacional de sua política de segurança.

Para seus admiradores, é a prova de que um Estado determinado consegue derrotar organizações criminosas que pareciam intocáveis.

Para seus críticos, é um exemplo de como a luta contra o crime pode ser utilizada para justificar a suspensão de garantias e a concentração de poder.

Flávio Bolsonaro escolheu olhar primeiro para a primeira narrativa.

Se sua candidatura avançar e chegar ao Planalto, terá de responder também à segunda.

A promessa que impressiona pelo tamanho

Mais de 500 mil novas vagas em presídios.

É uma promessa monumental.

Pode mobilizar o eleitor preocupado com a violência.

Mas também exige planejamento, orçamento, engenharia, gestão e uma política penitenciária capaz de não reproduzir os próprios problemas que pretende combater.

Construir paredes é relativamente simples.

Construir um sistema prisional eficiente é muito mais difícil.

Conclusão

O encontro de Flávio Bolsonaro com Gustavo Villatoro não foi apenas uma reunião diplomática ou uma conversa sobre segurança.

Foi a apresentação de uma visão de Estado.

Flávio quer um Brasil com mais prisões, penas mais longas, mais vagas penitenciárias e legislação mais dura.

O modelo que o inspira é o de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, cuja política reduziu drasticamente a violência segundo o governo salvadorenho, mas também passou a ser alvo de graves denúncias de violações de direitos humanos.

O candidato afirma que o Brasil tem “pouco preso” e que, caso seja eleito, deverá criar mais de 500 mil vagas.

É uma promessa que fala diretamente à indignação de milhões de brasileiros cansados da violência.

Mas uma política nacional de segurança não pode ser construída apenas sobre a quantidade de pessoas que o Estado consegue prender.

Precisa responder também quantos criminosos deixam de cometer crimes.

Quantas vítimas deixam de existir.

Quanto dinheiro é gasto.

Quais organizações criminosas são efetivamente desmanteladas.

E quais limites constitucionais jamais poderão ser ultrapassados.

A experiência de El Salvador pode oferecer lições.

Mas também oferece advertências.

O Brasil pode aprender com o que funcionou.

E deve aprender igualmente com aquilo que não pode repetir.

Porque combater o crime com firmeza é obrigação do Estado.

Mas fazer isso sem transformar o cidadão, o acusado ou o preso em alguém sem direitos é justamente o que diferencia segurança pública de simples poder de repressão.

Flávio Bolsonaro escolheu a frase mais dura possível:

“Tem pouco preso no Brasil, tinha que ter mais.”

Agora, o eleitor terá de avaliar a pergunta que vem depois:

mais presos significam necessariamente mais segurança — ou o Brasil precisa de algo maior, mais caro e mais complexo: mais inteligência, mais investigação, Justiça eficiente e prisões capazes de recuperar o controle do crime sem perder o controle do Estado?

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