Flávio Bolsonaro transforma Juiz de Fora em palco de campanha e acusa Flávio Dino de agir para defender Lula

Flávio Bolsonaro transforma Juiz de Fora em palco de campanha e acusa Flávio Dino de agir para defender Lula

Candidato do PL refaz trajeto simbólico do atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 2018, critica decisão do ministro do STF sobre a Polícia Federal e afirma que adversários tentam vencer a eleição “no tapetão”

O candidato à Presidência da República Flávio Nantes Bolsonaro (PL-RJ) escolheu nesta quarta-feira, 9 de setembro de 2026, um dos locais mais simbólicos da trajetória política de sua família para intensificar sua campanha eleitoral. Em Juiz de Fora, Minas Gerais, cidade onde seu pai, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, sofreu um atentado a faca durante a campanha presidencial de 2018, Flávio retomou o discurso de enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal e direcionou críticas especialmente ao ministro Flávio Dino de Castro e Costa.

A visita teve um forte componente simbólico. Flávio afirmou que pretendia “completar o trajeto” que seu pai não conseguiu concluir naquele dia de 2018. A programação incluiu deslocamento de carro, participação em uma motociata e contato com apoiadores. Segundo informações divulgadas durante a agenda, aproximadamente 200 pessoas estavam na região do aeroporto para recepcioná-lo.

O episódio foi utilizado pelo candidato para conectar a memória do atentado contra Jair Bolsonaro à atual disputa presidencial. Ao mesmo tempo em que evocou a trajetória política do pai, Flávio apresentou-se como herdeiro de seu projeto eleitoral e como candidato disposto a enfrentar o que considera uma concentração excessiva de poder no Supremo Tribunal Federal.

O atentado que marcou a trajetória de Jair Bolsonaro

A escolha de Juiz de Fora não foi casual.

Em 6 de setembro de 2018, durante a campanha presidencial daquele ano, Jair Bolsonaro foi esfaqueado enquanto participava de uma atividade política na cidade mineira. O ataque interrompeu sua agenda eleitoral e se transformou em um dos acontecimentos mais marcantes daquela eleição.

O atentado passou a ocupar lugar central na narrativa política do bolsonarismo. Bolsonaro precisou ser hospitalizado e passou por procedimentos médicos antes de retomar gradualmente as atividades de campanha.

Oito anos depois, seu filho decidiu retornar ao mesmo ambiente para construir uma nova narrativa eleitoral.

Flávio afirmou que o objetivo era completar simbolicamente o percurso que o pai não conseguiu terminar. A declaração transformou a agenda em uma espécie de ato de continuidade política entre a campanha de 2018 e a disputa presidencial de 2026.

Flávio Bolsonaro leva a crise do STF para o centro da campanha

Se o cenário carregava uma forte dimensão emocional e familiar, o discurso de Flávio foi essencialmente político.

O candidato aproveitou a passagem por Juiz de Fora para atacar frontalmente o ministro Flávio Dino, especialmente por causa da decisão tomada horas antes que determinou o retorno de Andrei Augusto Passos Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal.

Também foi determinada a reintegração de Leandro Almada da Costa, diretor de Inteligência Policial da PF.

A decisão de Dino anulou a determinação anterior do ministro André Luiz de Almeida Mendonça, que havia afastado preventivamente os dois dirigentes.

Para Flávio Bolsonaro, o episódio demonstra uma disputa institucional que, em sua avaliação, ultrapassou os limites de uma divergência jurídica.

O candidato afirmou que Dino, antigo ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Lula, teria uma “causa para defender”, associando sua atuação no Supremo à defesa dos interesses do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Essa é uma acusação política feita por Flávio Bolsonaro, e não uma conclusão judicial estabelecida.

A acusação contra Flávio Dino

Durante a agenda, Flávio Bolsonaro declarou que Dino “não tem processo para julgar” e que teria uma causa política ligada ao presidente Lula.

Na mesma manifestação, acusou o ministro de tomar decisões que, segundo sua avaliação, contrariariam princípios do Supremo e a Constituição.

A crítica faz parte de uma estratégia mais ampla adotada pelo candidato durante a campanha: apresentar o atual cenário institucional como uma disputa entre, de um lado, o grupo político de Lula e setores do STF e, de outro, o campo bolsonarista.

Flávio tem utilizado especialmente a crise envolvendo a Polícia Federal e o Supremo para sustentar a tese de que instituições de Estado estariam sendo utilizadas politicamente. Não há, contudo, comprovação judicial de que Dino tenha tomado a decisão para beneficiar eleitoralmente Lula.

A decisão de Dino que provocou a reação

A origem imediata do confronto está na decisão de Flávio Dino de reintegrar Andrei Rodrigues.

O ministro considerou que a permanência do afastamento poderia representar risco concreto e imediato para investigações em andamento. Por isso, determinou a volta do diretor-geral da PF e do diretor de Inteligência ao exercício de suas funções.

A decisão ocorreu em uma petição relacionada a uma investigação sobre recursos de emendas parlamentares utilizados para financiar o filme “Dark Horse”, obra relacionada à trajetória de Jair Bolsonaro.

O caso envolve também o banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central das investigações relacionadas ao Banco Master.

Dino encaminhou sua decisão para apreciação do Plenário do STF, ampliando a dimensão institucional do episódio.

André Mendonça no centro da disputa

Antes da decisão de Dino, o ministro André Mendonça havia determinado o afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada.

Mendonça sustentou que havia elementos que levantavam dúvidas sobre a atuação de integrantes da Polícia Federal na elaboração de relatórios de inteligência relacionados a autoridades.

O episódio acabou criando um choque direto entre decisões de dois ministros da Suprema Corte.

Para o grupo político de Flávio Bolsonaro, Mendonça passou a ser apresentado como uma figura que estaria tentando preservar a independência da Justiça e impedir possíveis abusos no funcionamento da Polícia Federal.

Para aliados do governo Lula, a interpretação é oposta: a decisão de Mendonça teria criado obstáculos a investigações importantes e provocado uma crise institucional em pleno período eleitoral.

Andrei Rodrigues e Leandro Almada

Andrei Augusto Passos Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, é um dos personagens diretamente atingidos pela disputa.

Indicado para comandar a corporação durante o governo Lula, Rodrigues retornou ao cargo por determinação de Flávio Dino.

Leandro Almada da Costa, diretor de Inteligência Policial da PF, também foi afastado por Mendonça e posteriormente reintegrado por Dino.

A disputa, portanto, não envolve apenas uma questão administrativa. O comando da Polícia Federal é particularmente sensível porque a instituição conduz investigações de grande impacto político e econômico.

É justamente essa circunstância que faz com que as decisões sobre seus dirigentes tenham repercussão muito além da estrutura interna da corporação.

Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro

Outro eixo da crise envolve o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master.

A divulgação de mensagens e informações relacionadas a contatos entre Vorcaro e pessoas ligadas ao ministro provocou forte repercussão política e institucional.

Moraes passou a ser alvo de críticas de setores da oposição, enquanto a controvérsia também atingiu André Mendonça, responsável por procedimentos relacionados ao caso.

A partir daí, a disputa ganhou novas dimensões: questionamentos sobre relatórios de inteligência, acusações de monitoramento, decisões contra integrantes da Polícia Federal e divergências entre ministros do próprio Supremo.

O episódio tornou-se um dos principais temas políticos da campanha presidencial de 2026.

Flávio cobra atuação de Edson Fachin

Durante a passagem por Juiz de Fora, Flávio Bolsonaro também direcionou sua cobrança ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin.

O candidato pediu que Fachin suspendesse imediatamente a liminar de Flávio Dino e convocasse uma sessão plenária para que os ministros discutissem abertamente os pontos ainda controversos.

Para Flávio, uma disputa dessa magnitude não deveria permanecer restrita a decisões individuais.

Sua reivindicação tem uma dimensão política clara, mas também toca em uma questão institucional relevante: como o Supremo deve agir quando dois ministros adotam decisões sucessivas e aparentemente conflitantes sobre o funcionamento de uma instituição estratégica como a Polícia Federal?

Flávio defendeu que a resposta seja dada pelo colegiado.

“Brasil está sem comando”

O candidato também aproveitou o episódio para apresentar-se como a alternativa capaz de reorganizar as instituições brasileiras.

Segundo Flávio, o país estaria “sem comando” e precisaria de um presidente com autoridade para reorganizar as relações entre os Poderes.

A declaração faz parte de uma estratégia eleitoral que coloca a crise institucional no centro de sua campanha.

Em vez de concentrar o discurso apenas em economia, segurança pública ou programas sociais, Flávio vem transformando o conflito com o STF em uma das principais bandeiras de sua candidatura.

O candidato também afirmou que pretende vencer a eleição nas urnas e acusou adversários de tentar ganhar “no tapetão”, utilizando a Polícia Federal para perseguir opositores políticos. Essa afirmação representa sua interpretação política do cenário e não uma conclusão judicial de que a PF esteja sendo utilizada dessa maneira.

A estratégia eleitoral em Minas Gerais

A escolha de Juiz de Fora possui ainda uma dimensão eleitoral.

Flávio afirmou que Minas Gerais teria importância estratégica na disputa presidencial e mencionou a conhecida tradição política segundo a qual o desempenho no Estado seria relevante para uma vitória nacional.

A visita também ocorre em um momento em que pesquisas recentes mostram uma disputa bastante competitiva entre Flávio Bolsonaro e Lula em diferentes regiões do país.

Ao recuperar o simbolismo de 2018, Flávio tenta associar sua candidatura à história política construída pelo pai.

A mensagem é direta: o mesmo grupo familiar que esteve no centro da eleição de 2018 pretende voltar ao Palácio do Planalto em 2026, agora com Flávio como candidato.

A campanha como continuidade do legado de Jair Bolsonaro

A imagem de Flávio em Juiz de Fora também procura reforçar a ideia de continuidade.

Jair Bolsonaro permanece como principal referência política do bolsonarismo, embora esteja afastado da disputa eleitoral e enfrente as consequências jurídicas de processos e decisões judiciais.

Nesse cenário, Flávio procura ocupar o espaço de sucessor político do pai.

Ao refazer o trajeto interrompido pelo atentado de 2018, o candidato transforma uma memória traumática da família em elemento de mobilização eleitoral.

A narrativa construída é a de que o projeto político iniciado por Jair Bolsonaro não terminou naquele episódio e teria agora uma nova etapa com seu filho.

Uma campanha cada vez mais concentrada no conflito institucional

A agenda de Juiz de Fora mostrou, portanto, como o conflito entre o bolsonarismo e o STF se tornou um dos principais eixos da campanha presidencial.

Flávio Bolsonaro não apenas visitou o local do atentado sofrido por seu pai. Ele utilizou o simbolismo da cidade para apresentar sua candidatura como continuidade do legado familiar e, simultaneamente, como resposta à atual crise entre Executivo, Judiciário e Polícia Federal.

Sua acusação contra Flávio Dino — de que o ministro estaria atuando para defender Lula — deve ser compreendida como uma posição política do candidato. Até o momento, não há decisão judicial que estabeleça que a reintegração de Andrei Rodrigues tenha sido determinada por interesse eleitoral ou partidário.

Da mesma forma, a decisão de Dino possui fundamentação jurídica própria: o ministro afirmou que o afastamento dos dirigentes poderia comprometer investigações em andamento e determinou que a questão fosse levada ao colegiado do Supremo.

O confronto, contudo, está longe de terminar.

Ao retornar a Juiz de Fora e transformar o local do atentado de 2018 em cenário de sua campanha presidencial, Flávio Bolsonaro apresentou uma mensagem política cuidadosamente construída: o filho pretende concluir o caminho que o pai não conseguiu terminar e, ao mesmo tempo, transformar a atual crise institucional em combustível para sua candidatura.

A campanha de 2026, assim, passa a carregar não apenas a disputa entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, mas também uma batalha narrativa sobre os limites do Supremo, o papel da Polícia Federal e o equilíbrio entre os Poderes da República.

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