
Governo aprova gasolina com 32% de etanol e acelera plano para elevar mistura a 35%; medida promete reduzir importações, mas divide especialistas e indústria
CNPE autoriza aumento da mistura obrigatória de etanol anidro de 30% para 32% a partir de 1º de agosto. Governo prevê redução no preço da gasolina, autossuficiência no abastecimento e menor dependência do petróleo importado, enquanto entidades do setor e montadoras alertam para possíveis impactos em veículos movidos apenas a gasolina.
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, criando a chamada gasolina E32. A decisão representa mais um passo da política energética do governo federal para ampliar o uso de biocombustíveis e reduzir a dependência brasileira da gasolina importada.
A medida foi aprovada em reunião realizada em 14 de julho de 2026 e entrará em vigor em 1º de agosto, após publicação no Diário Oficial da União. A autorização terá validade inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada uma única vez por igual período.
Além da adoção da gasolina E32, o governo confirmou que continuam os estudos para elevar futuramente a mistura para 35% de etanol (E35), conforme previsto na política do Combustível do Futuro.
Governo aposta em redução de preços e autossuficiência
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a ampliação da mistura poderá reduzir o preço da gasolina para o consumidor.
Segundo o ministro, a estimativa é de uma queda média de aproximadamente R$ 0,03 por litro nos postos de combustíveis.
A estratégia ocorre em meio à volatilidade do mercado internacional do petróleo, agravada pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio. Ao aumentar a participação do etanol nacional na gasolina, o governo pretende diminuir a necessidade de importação do combustível fóssil.
Atualmente, cerca de 15% da gasolina consumida no Brasil é importada.
De acordo com o Ministério de Minas e Energia, a mudança permitirá evitar a importação de aproximadamente 450 milhões a 500 milhões de litros de gasolina, tornando o país praticamente autossuficiente no abastecimento.
Objetivo é fortalecer o combustível nacional
Em nota, o governo afirmou que a ampliação da mistura faz parte da estratégia para fortalecer a segurança energética brasileira.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, o maior uso do etanol produzido no país reduz a exposição às oscilações internacionais do petróleo e amplia a participação dos biocombustíveis na matriz energética nacional.
Consumidor poderá sentir efeitos diferentes
Embora o governo estime redução no preço da gasolina, especialistas avaliam que a economia poderá ser limitada.
O consultor Pedro Rodrigues, sócio da consultoria CBIE, explica que o etanol possui menor poder calorífico do que a gasolina.
Na prática, isso significa que o veículo percorre uma distância menor utilizando a mesma quantidade de combustível.
Assim, mesmo que o litro fique ligeiramente mais barato, o motorista poderá precisar abastecer com maior frequência.
Executivos do setor estimam que a redução no preço final da gasolina possa ficar em torno de 2%, mas alertam que o ganho pode ser parcialmente compensado pelo aumento do consumo.
Carros flex sentirão queda de autonomia
O diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), Rogério Gonçalves, explica que veículos flex continuarão funcionando normalmente.
Entretanto, por causa do maior teor de etanol, haverá redução da autonomia.
Segundo o especialista, como o etanol produz menos energia por litro do que a gasolina, o consumo tende a aumentar ligeiramente.
Na prática, o motorista poderá notar menor rendimento por tanque abastecido.
Veículos apenas a gasolina preocupam especialistas
A principal preocupação está relacionada aos veículos equipados exclusivamente com motores a gasolina, especialmente os modelos mais antigos.
Segundo Rogério Gonçalves, alguns automóveis podem apresentar:
- desgaste acelerado de borrachas e elastômeros;
- corrosão em componentes do sistema de combustível;
- dificuldades de funcionamento em alguns motores;
- possíveis falhas provocadas pelos sensores eletrônicos que não reconhecem adequadamente a nova composição.
Os maiores riscos recaem sobre veículos produzidos quando a gasolina brasileira continha percentuais significativamente menores de etanol.
Especialistas recomendam que proprietários desses modelos utilizem, quando possível, combustíveis premium, que normalmente possuem menor percentual de etanol na composição.
Governo utilizou testes anteriores
A decisão do CNPE foi baseada nos testes técnicos realizados durante a implantação da gasolina E30, aprovada em 2025.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, os ensaios incluíram margens de tolerância que alcançaram 32% de etanol, sem identificar problemas relevantes no funcionamento dos veículos, inclusive modelos não flex.
Mesmo assim, o governo informou que continuam sendo realizados estudos de longa duração para avaliar os efeitos de misturas superiores, especialmente da futura gasolina E35.
Esses testes analisam:
- durabilidade dos motores;
- resistência de componentes;
- emissões de poluentes;
- desempenho dos veículos;
- comportamento da frota ao longo dos anos.
Indústria automotiva pede cautela
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) manifestou preocupação com a decisão.
A entidade declarou apoiar os biocombustíveis como instrumento importante para reduzir as emissões de carbono, mas afirmou ser contrária ao aumento obrigatório para 32% sem novos estudos específicos.
Segundo a Anfavea, os testes utilizados para validar a gasolina E30 não comprovam tecnicamente a segurança da adoção definitiva da gasolina E32.
A associação argumenta que os ensaios anteriores avaliaram apenas desempenho e dirigibilidade, sem estudos completos sobre:
- durabilidade dos motores;
- emissões;
- autonomia;
- compatibilidade de toda a frota nacional.
A entidade também destaca que a especificação da gasolina E32 admite combustíveis com até 34% de etanol, cenário que, segundo a indústria, ainda não foi suficientemente validado.
Distribuidoras e postos também demonstram preocupação
Entidades que representam distribuidores e revendedores de combustíveis também divulgaram posicionamento conjunto questionando a medida.
Entre elas estão:
- Brasilcom;
- Abicom;
- Fecombustíveis;
- SindTRR.
Segundo essas organizações, ainda seriam necessários estudos mais aprofundados sobre os impactos da nova mistura, principalmente para os cerca de 15% da frota brasileira composta por veículos movidos exclusivamente a gasolina e para motocicletas não flex.
Setor sucroenergético comemora decisão
Já a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) avaliou positivamente a aprovação.
Segundo a entidade, a gasolina E32 aumentará a demanda anual por aproximadamente 1 bilhão de litros de etanol anidro, elevando o consumo para cerca de 13,5 bilhões de litros por ano.
A Unica afirma que o setor possui capacidade para atender esse crescimento, impulsionado pela expansão da produção de etanol de milho e pelo aumento da oferta das usinas de cana-de-açúcar.
A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) também comemorou a decisão, afirmando que a medida fortalece a política nacional de biocombustíveis, amplia a segurança energética e estimula novos investimentos na produção nacional.
Meta do governo é chegar ao E35
A gasolina brasileira passou por sucessivos aumentos na participação do etanol nos últimos anos.
A evolução foi a seguinte:
- 22% durante muitos anos;
- 27,5% a partir de 2015;
- 30% em agosto de 2025;
- 32% aprovados em julho de 2026.
Agora, o governo mantém o objetivo de atingir 35% de etanol na gasolina (E35) nos próximos anos, dentro das metas estabelecidas pela Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024.
Enquanto o governo defende que a medida fortalecerá a segurança energética, reduzirá importações e poderá aliviar o preço da gasolina, parte da indústria automotiva e do setor de combustíveis cobra novos estudos para assegurar que o aumento da mistura não provoque impactos técnicos, principalmente nos veículos mais antigos movidos exclusivamente a gasolina.