Governo Lula descobre a tesoura — mas só depois de gastar tudo

Governo Lula descobre a tesoura — mas só depois de gastar tudo

Planalto fala em vetar bilhões de emendas enquanto discurso sobre austeridade soa como piada pronta

O governo Lula parece ter encontrado, finalmente, a palavra “corte” no dicionário — ainda que com atraso e muitas ressalvas. Segundo o ministro da Casa Civil, Rui Costa, o presidente deve vetar cerca de R$ 11 bilhões em emendas parlamentares no Orçamento deste ano, reduzindo o montante previsto de R$ 61 bilhões para algo em torno de R$ 50 bilhões.

A justificativa oficial é técnica, jurídica e cheia de termos elegantes. Rui Costa afirmou que existe uma regra definida, inclusive respaldada por decisões do Supremo Tribunal Federal, que limita o crescimento das emendas. Tudo o que ultrapassar esse acordo, garante o ministro, simplesmente não será executado. Seja por veto, bloqueio ou remanejamento, o dinheiro não sai — pelo menos no discurso.

A fala ocorreu no Palácio do Planalto, durante a cerimônia que marcou os três anos do 8 de janeiro, o que deu ao anúncio um ar quase solene. Afinal, nada como um evento simbólico para anunciar um “corte” que, na prática, ainda deixa R$ 50 bilhões intactos. A austeridade, ao que parece, continua sendo aplicada com luvas de seda.

Rui Costa explicou que a Lei Orçamentária Anual aprovada pelo Congresso extrapolou o que havia sido combinado com o governo. E, quando o assunto é gasto público, o Planalto jura que agora vai respeitar limites — ainda que esses limites sejam generosos o suficiente para manter o apetite parlamentar bem alimentado.

No mesmo evento, o ministro também comentou temas internacionais, defendendo a soberania dos países ao falar da Venezuela e minimizando qualquer impacto de interesses dos Estados Unidos sobre o petróleo brasileiro. Segundo ele, cada nação deve decidir seu próprio destino — inclusive quando o destino envolve gastar muito e cortar pouco.

Já sobre o impasse entre o Tribunal de Contas da União e o Banco Central no caso do Banco Master, Rui Costa adotou tom técnico: disse que a decisão cabe exclusivamente ao BC e que opiniões externas são apenas “palpites”. Um recado claro de que, nesse caso, o governo prefere distância — algo bem diferente da relação próxima que costuma manter com o Orçamento.

No fim das contas, o anúncio do veto bilionário até soa como sinal de responsabilidade fiscal. Mas, diante dos números, fica a ironia: para um governo que fala tanto em cortar gastos, R$ 50 bilhões em emendas ainda parece mais continuação do banquete do que começo da dieta.

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