
Guto Zacarias fica fora da Câmara após forte queda nas urnas em São Paulo
Deputado estadual ligado ao MBL despencou de 152 mil votos em 2022 para 41,4 mil em 2026 e não conseguiu transformar sua projeção política em uma vaga na Câmara dos Deputados
Guto Zacarias, do Missão, ficou fora da Câmara dos Deputados nas eleições de 2026 em São Paulo. O deputado estadual, que havia conquistado 152.481 votos em 2022 para a Assembleia Legislativa de São Paulo, terminou esta eleição com apenas 41.423 votos na disputa por uma cadeira de deputado federal — uma queda superior a 110 mil votos.
O resultado representa uma derrota política importante para um dos nomes associados ao Movimento Brasil Livre (MBL), que apostava em Zacarias como um de seus principais candidatos para ampliar a presença do recém-criado partido Missão no Congresso Nacional.
A situação ganhou ainda mais repercussão durante a campanha por causa de uma denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo contra o parlamentar, relacionada a uma acusação de violência psicológica contra sua então companheira, no contexto da Lei Maria da Penha. O caso teria ocorrido durante uma gravidez em 2024 e veio a público em reportagens publicadas ao longo de 2026.
A acusação que marcou a campanha
Segundo a denúncia do Ministério Público, Guto Zacarias teria pressionado a ex-companheira para interromper a gestação e utilizado, de acordo com os documentos citados nas reportagens, mecanismos de manipulação, chantagem emocional e constrangimentos.
A denúncia também menciona supostas sugestões de clínicas e métodos para a interrupção da gravidez. A ex-companheira registrou boletim de ocorrência em fevereiro de 2025 e solicitou medidas protetivas, alegando ter sofrido violência psicológica e temido pela própria segurança.
É importante, porém, separar acusação, investigação e condenação. O caso não deve ser apresentado como uma condenação criminal definitiva contra Guto Zacarias.
Guto Zacarias negou ter coagido a ex-companheira
O próprio parlamentar contestou a acusação.
Após a divulgação do caso, Zacarias afirmou que jamais teria obrigado a ex-companheira a realizar um aborto. Em declaração pública, reconheceu que houve uma discussão sobre a possibilidade de interrupção da gravidez, classificou aquele momento como um erro e disse ter se arrependido.
A própria ex-companheira também posteriormente procurou a imprensa para afirmar que Guto “jamais tentou” forçá-la a nada. Segundo ela, houve uma briga e um período de instabilidade no relacionamento, e ela teria agido por impulso ao registrar a ocorrência. Ela também declarou que considerava o parlamentar um bom pai e pediu o arquivamento do processo.
Apesar disso, o processo foi apresentado pelo Ministério Público, e não simplesmente pela vontade particular da denunciante. Por isso, o pedido de arquivamento feito por ela não encerrou automaticamente a questão.
Conselho de Ética arquivou pedido de cassação
Outro capítulo importante ocorreu na Assembleia Legislativa de São Paulo.
O Conselho de Ética da Alesp decidiu, em maio de 2026, arquivar por 4 votos a 2 a representação que pedia a cassação de Guto Zacarias por quebra de decoro parlamentar.
A decisão significou que, no âmbito disciplinar da Assembleia, o processo não resultou na perda de seu mandato estadual.
O episódio, entretanto, já havia produzido forte desgaste político e colocado em discussão a diferença entre o discurso público defendido pelo parlamentar e os fatos relatados no processo.
Da votação expressiva à derrota nas urnas
A dimensão da derrota pode ser medida pelos números.
Em 2022, Guto Zacarias conquistou 152.481 votos e chegou à Alesp com uma votação expressiva. Quatro anos depois, ao tentar uma vaga na Câmara dos Deputados, caiu para 41.423 votos.
A diferença é de aproximadamente 111 mil votos a menos.
São Paulo elegeu 70 deputados federais em 2026. Entre os eleitos estiveram Lucas Pavanato, com 3.038.438 votos, Erika Hilton, com 1.596.472, Sâmia Bomfim, com 583.107, e Kim Kataguiri, do próprio Missão, com 520.071 votos.
Enquanto Kim conseguiu garantir a cadeira, Guto Zacarias não alcançou votos suficientes para conquistar uma vaga.
O impacto para o Missão e o MBL
O resultado também tem consequência para o partido Missão.
A legenda foi criada com forte ligação com o MBL e buscava utilizar nomes conhecidos do movimento para conquistar espaço no Congresso.
Kim Kataguiri conseguiu a eleição com mais de meio milhão de votos. Guto Zacarias, entretanto, ficou muito distante desse desempenho.
Com isso, o Missão chegará à próxima legislatura com apenas um deputado federal eleito em todo o país, segundo a apuração divulgada após o primeiro turno.
A expectativa de transformar a popularidade de seus principais nomes em uma bancada maior, portanto, não se concretizou.
Uma derrota que fala mais alto que os discursos
Guto Zacarias construiu sua carreira política especialmente nas redes sociais, com um estilo combativo e confrontador. Foi eleito deputado estadual em 2022, tornou-se vice-líder do governo Tarcísio de Freitas na Alesp e também presidiu uma frente parlamentar relacionada à privatização da Sabesp.
Agora, porém, as urnas deram outro recado.
O eleitorado paulista não transformou a visibilidade conquistada nas redes sociais em uma cadeira na Câmara dos Deputados.
E aqui fica uma das maiores lições de qualquer eleição: fama política não é mandato, discurso não é voto e expectativa partidária não substitui a decisão do eleitor.
O caso também mostra como acusações envolvendo a vida pessoal e a conduta de agentes públicos podem produzir forte impacto político, ainda que juridicamente seja indispensável respeitar o devido processo e não confundir uma acusação com uma condenação.
O eleitor deu seu recado
A política é feita de escolhas. Em 2022, São Paulo escolheu Guto Zacarias para a Assembleia com mais de 152 mil votos. Em 2026, o mesmo eleitorado não repetiu a confiança na tentativa de levá-lo para Brasília.
Foram 41.423 votos, número insuficiente para garantir a eleição.
Não cabe ao candidato escolher o resultado. Cabe ao eleitor.
E, desta vez, a mensagem das urnas foi bastante clara: Guto Zacarias continuará tendo espaço para fazer política fora da Câmara, mas não terá, a partir de 2027, uma cadeira de deputado federal conquistada pelo voto paulista.
É uma derrota eleitoral que merece ser analisada com seriedade — sem transformar acusação em condenação, mas também sem ignorar o peso político que um episódio dessa natureza pode adquirir durante uma campanha.
No fim, quem decide é sempre o eleitor.
E São Paulo decidiu.