
Irã sepulta Ali Khamenei em Mashhad após quatro meses de espera enquanto tensão com os EUA volta a crescer
Funeral do ex-líder supremo reúne multidões no Irã e no Iraque; cerimônia é usada pelo governo iraniano como demonstração de força em meio à escalada militar no Oriente Médio
O Irã realizou nesta quinta-feira (9) o sepultamento do aiatolá Ali Khamenei, ex-líder supremo da República Islâmica, em uma cerimônia marcada por forte mobilização popular, símbolos religiosos e mensagens políticas. O corpo do líder foi enterrado no Santuário do Imã Reza, em Mashhad, no nordeste do país, considerado o local de peregrinação mais importante do Irã.
A despedida encerrou seis dias de cerimônias públicas que, segundo autoridades iranianas, reuniram milhões de pessoas em diferentes cidades do país e também no Iraque. O funeral ocorreu em meio a uma nova escalada militar entre Teerã e Washington, com a retomada de ataques americanos contra alvos iranianos e o enfraquecimento de um cessar-fogo que havia permitido a realização das homenagens.
Uma despedida transformada em ato político
Desde o início das cerimônias, o governo iraniano apresentou a mobilização popular como uma demonstração de apoio ao regime e de unidade nacional diante do conflito com os Estados Unidos e Israel.
A procissão final começou na Rua Imam Reza, em Mashhad, após atrasos causados pela grande quantidade de pessoas que participaram das homenagens anteriores no Iraque. O governador da cidade, Hassan Hosseini, afirmou que esperava a presença de até 15 milhões de pessoas no sepultamento.
O caixão percorreu um trajeto cercado por multidões, enquanto participantes entoavam palavras de homenagem ao líder religioso e gritos contra os Estados Unidos. Durante a cerimônia, parte dos presentes pediu vingança pela morte de Khamenei e manifestou críticas ao presidente americano Donald Trump.
Khamenei foi sepultado ao lado de familiares mortos no mesmo ataque que tirou sua vida: uma filha, um genro, uma neta de 14 meses e outros parentes próximos.
Morte em ataque americano-israelense e quatro meses de espera
Ali Khamenei morreu em 28 de fevereiro, aos 88 anos, durante uma operação militar atribuída ao governo de Israel com apoio dos Estados Unidos. O ataque atingiu Teerã no início de uma ofensiva que desencadeou 40 dias de confrontos diretos entre as partes.
O sepultamento ocorreu apenas quatro meses depois da morte, período considerado incomum dentro da tradição islâmica, que normalmente prevê enterros rápidos após o falecimento.
As autoridades iranianas justificaram o adiamento por motivos de segurança e organização. Segundo o porta-voz do comitê responsável pela cerimônia, Iman Attarzadeh, os corpos foram preservados seguindo normas religiosas e legais, sem detalhar o método utilizado.
O historiador iraquiano Omar Mohammed afirmou que a hipótese mais provável é que o corpo tenha sido mantido em refrigeração. Segundo ele, a tradição xiita permite exceções em situações especiais, especialmente quando envolvem figuras religiosas de grande importância.
Homenagens passaram pelo Iraque antes do retorno ao Irã
Antes do enterro em Mashhad, o corpo de Khamenei passou por cidades consideradas sagradas para o islamismo xiita.
Em Najaf, no Iraque, uma das maiores concentrações ocorreu ao redor do Santuário do Imã Ali. A imprensa estatal iraquiana estimou que cerca de 3,8 milhões de pessoas participaram da procissão.
Depois, o cortejo seguiu para Karbala, outro centro religioso xiita, antes do retorno ao território iraniano.
A participação de líderes religiosos estrangeiros também marcou a cerimônia. Entre os convidados estava o xeque Ibrahim Zakzaky, líder da comunidade xiita da Nigéria.
Khamenei deixa legado de quatro décadas no poder
Ali Khamenei assumiu a liderança suprema do Irã em 1989, após a morte do fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhollah Khomeini. Durante quase quatro décadas, tornou-se a principal autoridade política e religiosa do país.
Sua trajetória foi marcada pela defesa da independência iraniana diante da influência dos Estados Unidos e pela manutenção de uma política externa de confronto com Washington e seus aliados no Oriente Médio.
Após sua morte, o governo iraniano decretou 40 dias de luto oficial e prometeu resposta contra os responsáveis pelo ataque que matou o líder.
“Esse grande crime nunca ficará sem resposta”, afirmou o regime iraniano em comunicado divulgado após a morte.
Funeral acontece em meio à retomada dos ataques
A cerimônia em Mashhad ocorreu em um momento de crescente instabilidade regional.
Dois dias antes do sepultamento, os Estados Unidos anunciaram novos ataques contra posições iranianas. Segundo o Comando Central americano, a ofensiva ocorreu após acusações de que o Irã teria ameaçado embarcações comerciais no Estreito de Ormuz.
Washington também afirmou que o acordo que poderia encerrar o conflito não estaria mais em vigor.
Em resposta, o Irã declarou ataques contra bases americanas no Kuwait e no Bahrein. A Guarda Revolucionária iraniana ameaçou ampliar as operações caso novas ações militares fossem realizadas contra o país.
Futuro do regime e transição de poder
A morte de Khamenei abriu uma nova fase de incerteza política no Irã.
O regime tenta demonstrar continuidade e estabilidade, mas a transição ocorre em meio a uma guerra, tensões internas e pressão internacional.
Um dos pontos de atenção é o desaparecimento público de Mojtaba Khamenei, filho do antigo líder supremo e apontado como uma figura influente dentro da estrutura de poder iraniana. Sua ausência durante os eventos públicos levantou questionamentos sobre os próximos passos da liderança do país.
O funeral, além de uma cerimônia religiosa, tornou-se uma mensagem política: uma tentativa do governo iraniano de mostrar força diante dos adversários externos e reafirmar sua unidade interna em um dos momentos mais delicados da história recente da República Islâmica.