
Justiça de São Paulo absolve jornalista Barbara Gancia em processo movido por filha de Jair Bolsonaro
Tribunal reverte condenação e entende que publicação criticava declaração do ex-presidente, sem intenção de ofender a filha menor de idade
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) absolveu a jornalista Barbara Gancia da acusação de injúria contra Laura Bolsonaro, filha do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A decisão foi tomada pela 5ª Câmara de Direito Criminal da Corte, que reformou integralmente a sentença de primeira instância, a qual havia condenado a jornalista ao pagamento de R$ 10 mil por danos morais, além de multa equivalente a 10 salários mínimos.
O julgamento teve como relator o desembargador Pinheiro Franco, acompanhado pelos desembargadores Mauricio Henrique Guimarães Pereira e João Augusto Garcia. Para o colegiado, embora a linguagem utilizada por Barbara Gancia tenha sido considerada inadequada e “infeliz”, não ficou comprovada a intenção deliberada de ofender diretamente a adolescente, requisito essencial para a configuração do crime de injúria.
Origem do processo
A ação teve origem em uma publicação feita por Barbara Gancia na rede social X (antigo Twitter), em outubro de 2022, durante a campanha presidencial.
Na ocasião, a jornalista escreveu uma mensagem em resposta às declarações feitas por Jair Bolsonaro em um podcast, quando o então presidente relatou ter visitado uma residência onde estavam adolescentes venezuelanas.
Na entrevista, Bolsonaro afirmou:
“Meninas bonitinhas de 14, 15 anos, se arrumando no sábado para quê? Ganhar a vida.”
A declaração provocou ampla repercussão nacional e internacional, sendo interpretada por diversos setores como uma insinuação de exploração sexual das adolescentes.
Em resposta, Barbara publicou uma mensagem mencionando a filha do então presidente. O conteúdo acabou sendo alvo de ação judicial movida pela família Bolsonaro, que alegou que a postagem atingiu a honra, a dignidade e a autoestima de uma criança sem qualquer participação na vida política.
Entendimento do Tribunal
Ao analisar o recurso, os desembargadores entenderam que a publicação estava inserida em um contexto de crítica política e jornalística às declarações do então presidente da República.
Segundo o voto do relator, a intenção principal da jornalista era rebater publicamente a fala de Bolsonaro, utilizando a mesma lógica da declaração para demonstrar sua discordância.
O colegiado concluiu que:
- não houve intenção específica de injuriar Laura Bolsonaro;
- a publicação estava direcionada ao debate político existente naquele momento;
- o simples uso de expressão considerada inadequada não caracteriza, por si só, crime de injúria.
Embora tenha reconhecido que a linguagem utilizada foi imprópria, o Tribunal considerou inexistentes os elementos necessários para manter a condenação criminal.
Condenação de primeira instância foi anulada
Na primeira decisão judicial, Barbara Gancia havia sido condenada ao pagamento de:
- R$ 10 mil de indenização por danos morais;
- multa correspondente a 10 salários mínimos.
Com a decisão do TJ-SP, toda a condenação foi revertida.
Ainda cabe recurso contra o acórdão.
Argumentos da família Bolsonaro
Os advogados da família Bolsonaro sustentaram que a publicação ultrapassou os limites da crítica política ao envolver uma menor de idade.
Segundo a defesa, Laura Bolsonaro nunca exerceu atividade pública nem participou da vida política de seu pai, razão pela qual não poderia ser alvo de manifestações ofensivas.
Os representantes jurídicos afirmaram que o conteúdo da postagem atingiu:
- a honra da adolescente;
- sua dignidade;
- sua autoestima;
- sua imagem perante a sociedade.
Esses argumentos haviam sido acolhidos pelo juiz da primeira instância, mas não convenceram o Tribunal paulista.
Defesa de Barbara Gancia comemora decisão
Após o julgamento, a advogada Maíra Salomi, responsável pela defesa da jornalista, afirmou que a decisão representa um importante precedente em defesa da liberdade de expressão.
Segundo ela, o Direito Penal não pode ser utilizado para criminalizar manifestações críticas produzidas no exercício da atividade jornalística.
Em nota, a defesa destacou que o julgamento reforça a necessidade de preservar o debate público, especialmente em períodos eleitorais, quando críticas a agentes políticos tendem a se intensificar.
Liberdade de expressão e limites jurídicos
O caso reacende o debate sobre os limites entre:
- liberdade de expressão;
- crítica política;
- proteção da honra;
- responsabilidade civil e criminal nas redes sociais.
Ao absolver Barbara Gancia, o Tribunal entendeu que, apesar do tom contundente da publicação, não ficou demonstrado o elemento subjetivo indispensável para caracterizar o crime de injúria.
A decisão também evidencia a diferença entre manifestações consideradas inadequadas do ponto de vista moral e aquelas que efetivamente configuram ilícito penal.
Processo ainda pode continuar
Apesar da absolvição, o processo ainda não está definitivamente encerrado.
A decisão da 5ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo ainda pode ser objeto de recurso às instâncias superiores.
Até o momento, a família Bolsonaro não informou publicamente se pretende recorrer da decisão. Enquanto isso, a absolvição de Barbara Gancia permanece válida e representa uma importante mudança em relação ao entendimento adotado pela primeira instância.