
Lula admite desgaste da esquerda e expõe contradição: “virou sistema”, mas cobra coerência
Presidente reconhece perda do discurso “antissistema”, mas crítica levanta questionamentos sobre práticas do próprio governo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma declaração que soa quase como um diagnóstico incômodo — e, ao mesmo tempo, uma autocrítica tardia — ao afirmar que a esquerda “se tornou o sistema” e perdeu espaço para a direita no campo do discurso “antissistema”. A fala ocorreu durante participação em um evento internacional de esquerda em Barcelona, na Espanha.
Segundo Lula, partidos progressistas teriam se acomodado ao chegar ao poder, priorizando a gestão do modelo econômico vigente em vez de promover mudanças estruturais. “Nós temos sido os gerentes da mazela do neoliberalismo”, afirmou. A consequência, segundo ele, foi a abertura de espaço para que a direita ocupasse o papel de contestadora da ordem estabelecida.
A declaração, no entanto, escancara uma contradição difícil de ignorar. Ao reconhecer que governos de esquerda adotaram políticas de austeridade e flexibilizaram promessas em nome da governabilidade, Lula acaba apontando para um problema que muitos críticos já vinham destacando há anos: a distância entre o discurso eleitoral e a prática no poder.
Ao defender que a esquerda precisa “praticar coerência” e implementar os programas com os quais é eleita, o presidente parece admitir que essa coerência ficou pelo caminho em diferentes momentos — inclusive em gestões lideradas por seu próprio grupo político. A crítica implícita levanta uma questão inevitável: por que essa mudança de postura só ganha força no discurso agora?
Lula também argumentou que a população, mesmo sem se identificar como progressista, apoia pautas tradicionalmente associadas à esquerda, como acesso à saúde, educação de qualidade, melhores salários e políticas ambientais. Ainda assim, o reconhecimento dessas demandas contrasta com a dificuldade histórica de transformá-las em políticas públicas consistentes e duradouras.
Outro ponto levantado pelo presidente foi a necessidade de direcionar críticas aos “verdadeiros culpados” pelas desigualdades, como os bilionários que concentram riqueza global. No entanto, esse discurso também esbarra em um dilema recorrente: a retórica contra elites econômicas nem sempre se traduz em medidas concretas capazes de alterar esse cenário de forma significativa.
Ao final, a fala de Lula funciona quase como um espelho desconfortável para a própria esquerda. Ao mesmo tempo em que aponta falhas estratégicas e ideológicas, expõe uma crise de identidade que vai além da teoria — e que continua impactando diretamente a confiança do eleitorado.