Lula admite que STF “está perdendo credibilidade” e cobra reação de Fachin em meio à crise da Corte

Lula admite que STF “está perdendo credibilidade” e cobra reação de Fachin em meio à crise da Corte

Em entrevista ao Flow, presidente criticou os embates públicos entre ministros, a exposição pela TV Justiça e a duração dos votos; Lula também defendeu mudanças na escolha dos integrantes do Supremo e afirmou ter conversado três vezes com Edson Fachin

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez uma avaliação incomum sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) durante entrevista ao Flow Podcast, na quinta-feira (1º de outubro), e afirmou que a Corte está “perdendo credibilidade na sociedade” diante das divergências públicas entre seus próprios ministros.

A declaração ocorreu em meio a uma fase de forte exposição do STF, marcada por disputas internas, divergências sobre processos de grande repercussão e discussões envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro e informações extraídas de seu celular. Lula afirmou que o problema não estaria apenas no conteúdo das decisões, mas também na maneira como os julgamentos e as divergências são apresentados ao público.

“O que está acontecendo está levando a Suprema Corte a perder credibilidade na sociedade”, afirmou Lula.

A crítica ganhou peso político porque Lula é responsável pela indicação de alguns dos atuais ministros do Supremo, entre eles Dias Toffoli e Flávio Dino. Ao mesmo tempo, o presidente fez questão de afirmar que não espera favores daqueles que indicou e que o Executivo deve respeitar a autonomia do Judiciário.

“Cada um querendo fazer discurso de três horas”

Um dos principais alvos das críticas de Lula foi a forma como as sessões do STF são transmitidas pela TV Justiça.

O presidente afirmou que a exposição das divergências entre ministros transformou determinados julgamentos em longas disputas públicas, na avaliação dele prejudicando a imagem da Corte.

“Depois que inventaram aquela TV Justiça para ficar divulgando aquela briga deles, cada um querendo fazer discurso de três horas, de duas horas, um voto mequetrefe que poderia durar cinco minutos, ele demora cinco horas para fazer um voto. Tudo isso depõe contra eles”, declarou.

A expressão “voto mequetrefe” foi utilizada pelo próprio presidente ao criticar aquilo que considera excesso de duração nas manifestações dos ministros.

Lula também afirmou que alguns integrantes do Supremo acabam assumindo protagonismo excessivo nas sessões.

A avaliação é política e pessoal do presidente sobre o funcionamento da Corte. O STF, por sua vez, possui regras próprias para julgamento colegiado, e votos longos ou divergências públicas não significam, por si só, irregularidade.

Lula diz ter cobrado Edson Fachin

Durante a entrevista, Lula revelou ainda que conversou três vezes com o presidente do STF, ministro Edson Fachin, para tratar dos conflitos internos da Corte.

Segundo o presidente, ele teria pedido a Fachin que assumisse a responsabilidade de impedir que as divergências entre ministros se transformassem em uma disputa pública capaz de prejudicar a imagem do tribunal.

“Falei: ‘Fachin, você não pode deixar a Suprema Corte ficar se digladiando entre eles. Tem que ter responsabilidade com a sociedade. O que o povo humilde vai pensar do que está acontecendo na Suprema Corte? Assuma a responsabilidade como presidente e tome conta disso’”, relatou Lula.

Em outra declaração, Lula afirmou que, na avaliação dele, Fachin “não fez o correto” na condução da situação.

O presidente do STF, portanto, passou a ser diretamente citado por Lula como responsável por administrar institucionalmente os conflitos internos da Corte.

A ironia do episódio: Lula também critica o Supremo que ajudou a formar

A declaração chama atenção por um aspecto político evidente: Lula criticou publicamente a perda de credibilidade de uma instituição para a qual ele próprio indicou ministros.

O presidente mencionou justamente Flávio Dino, nomeado por ele para o STF, ao responder sobre a possibilidade de os ministros sofrerem influência de quem os indicou.

Lula rejeitou essa possibilidade e afirmou que não nomeia ministros para receber favores.

“Eu não indico ninguém pra fazer favor pra mim. (…) Eu nunca pedi um favor. Eu não indico ninguém pra me fazer favor. Quero que você saiba disso. Isso é uma coisa de caráter.”

Lula também citou Dias Toffoli, indicado por ele durante seu segundo mandato presidencial, para sustentar o argumento de que uma indicação política não significa submissão posterior.

O presidente lembrou que Toffoli, segundo seu relato, havia negado um pedido relacionado à possibilidade de Lula deixar a prisão para visitar o irmão morto.

“O Toffoli que eu indiquei, foi o cara que negou eu sair da cadeia pra ir ver meu irmão morto. E eu não peço favor.”

Assim, a própria entrevista produziu uma situação politicamente curiosa: Lula defendeu a independência dos ministros que indicou e, simultaneamente, reconheceu que o funcionamento atual do Supremo enfrenta um problema de credibilidade perante a sociedade.

Flávio Dino é elogiado por Lula

Apesar das críticas ao ambiente interno do STF, Lula fez questão de defender Flávio Dino.

O presidente classificou o ministro como um “extraordinário ministro” e destacou sua experiência política e institucional antes da chegada ao Supremo.

“O Flávio Dino é um extraordinário ministro. Aliás, uma das pessoas mais cultas e importantes que tem naquela Suprema Corte, e o que tem mais conhecimento político”, afirmou.

Dino foi governador do Maranhão, senador, deputado federal e ministro da Justiça antes de ser indicado por Lula ao STF.

A manifestação mostra que a crítica do presidente não foi dirigida indistintamente a todos os integrantes da Corte. Lula fez distinções entre os ministros e afirmou que divergências internas são parte do funcionamento de um tribunal.

Lula afirma que não interfere no STF

Ao mesmo tempo em que revelou ter conversado com Fachin sobre a crise interna, Lula procurou estabelecer um limite para sua própria atuação.

Segundo o presidente, o chefe do Executivo não pode interferir nas decisões do Supremo.

“O presidente da República, se ele quiser governar com tranquilidade, precisa respeitar primeiro a autonomia de cada Poder.”

Em outro momento, resumiu sua posição dizendo:

“O presidente não pode nada na Suprema Corte.”

Lula afirmou ainda que o STF é o “guardião da Constituição” e que, depois de uma decisão da Corte, cabe aos demais Poderes respeitar sua autonomia.

A declaração contrasta com o fato de que o próprio presidente admitiu ter conversado repetidamente com Fachin sobre a crise interna.

A distinção feita por Lula é que ele diz não ter pedido decisões favoráveis ao governo, mas apenas uma postura institucional para preservar a imagem do tribunal.

A crise do Banco Master aparece no pano de fundo

As declarações ocorreram em um momento particularmente delicado para o STF, devido às divergências relacionadas às investigações envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro.

O caso provocou diferentes posições entre integrantes da Corte e aumentou a exposição pública das divergências.

Lula afirmou que não concordou com determinadas decisões e movimentos processuais, mas sustentou que não cabe ao presidente interferir no Judiciário.

Segundo relatos da entrevista, o presidente também afirmou ter dito ao ministro Alexandre de Moraes que ele “deve uma explicação à sociedade brasileira” em relação a aspectos que vieram à tona nas investigações. Lula defendeu que os fatos sejam esclarecidos e que todos os envolvidos sejam investigados.

As referências às investigações, contudo, não significam que acusações ou suspeitas tenham sido definitivamente comprovadas contra os ministros mencionados.

Lula defende reforma na escolha dos ministros

A entrevista não ficou apenas nas críticas.

Lula afirmou que pretende discutir uma nova reforma do Judiciário e defendeu mudanças no sistema de escolha e permanência dos ministros do Supremo.

Entre as propostas mencionadas estão a criação de mandatos para ministros do STF e a participação de um conselho formado por representantes da sociedade civil no processo de escolha.

“Quero discutir o mandato: tem que haver mandato, não pode ser eterno. Também quero criar um conselho para escolher os ministros, porque essa indicação não deve ficar nas mãos do presidente da República.”

A ideia representa uma mudança relevante em relação ao modelo atual, no qual os ministros do Supremo são indicados pelo presidente da República e posteriormente submetidos à aprovação do Senado Federal.

Lula defendeu que a escolha não fique concentrada exclusivamente no presidente e que a sociedade tenha participação no processo.

“Não pode querer ser rico”

O presidente também fez uma consideração sobre a função exercida pelos ministros do Supremo.

Lula afirmou que aqueles que ocupam uma cadeira na Corte deveriam encarar o cargo como uma missão pública e não como uma oportunidade de enriquecimento.

“Quem vai para a Suprema Corte não pode querer ser rico. É incompatível. Aquilo tem que ser um sacerdócio.”

A declaração adicionou outro elemento à crítica feita pelo presidente sobre o funcionamento do tribunal.

O discurso de Lula ocorre em meio à campanha eleitoral

A entrevista precisa ser compreendida também dentro do contexto eleitoral.

Lula participou do Flow na mesma noite em que estava previsto o debate presidencial da Globo, encontro do qual havia decidido não participar. O debate acabou posteriormente cancelado após decisões judiciais que alteraram suas regras e a desistência de Flávio Bolsonaro.

Enquanto explicava sua ausência do debate, Lula também discutiu temas como o Banco Master, o INSS, as bets, a relação com Donald Trump e a crise no STF.

A entrevista alcançou audiência expressiva, chegando a aproximadamente 1,5 milhão de espectadores simultâneos, segundo levantamento divulgado após a transmissão.

Ou seja, o presidente não ficou fora da exposição pública naquela noite; apenas escolheu um formato diferente daquele planejado para o confronto entre os candidatos.

A frase que resume a crítica

Entre todas as declarações feitas por Lula, uma das mais fortes foi justamente aquela que reconheceu um problema de imagem para a instituição:

“O que está acontecendo está levando a Suprema Corte a perder credibilidade na sociedade.”

A frase é particularmente significativa porque parte do próprio presidente da República, que indicou integrantes da Corte e mantém interlocução direta com seus ministros.

Ao mesmo tempo, Lula não defendeu enfraquecimento do STF. Ao contrário: afirmou que a Corte precisa preservar sua autonomia, classificou-a como guardiã da Constituição e sustentou que o Executivo não deve interferir em suas decisões.

A crítica presidencial está concentrada, segundo suas próprias declarações, na forma como os ministros expõem divergências, na duração dos votos, na transmissão pela TV Justiça e na necessidade de preservar a confiança da sociedade.

Um STF mais exposto e uma cobrança que vem do próprio presidente

O episódio mostra uma mudança importante no debate público brasileiro: a atuação do Supremo deixou de ser assunto restrito aos meios jurídicos e passou a ocupar espaço permanente no discurso político.

Lula reconheceu esse fenômeno e atribuiu parte da perda de credibilidade justamente à exposição pública dos julgamentos.

A crítica não veio de um adversário tradicional do STF, mas do presidente que indicou parte de seus integrantes e que, ao mesmo tempo, defende a autonomia entre os Poderes.

No fim, a cobrança de Lula pode ser resumida em três pontos: menos disputa pública entre ministros, maior responsabilidade institucional e mudanças no modelo de escolha e permanência dos integrantes da Corte.

O debate sobre essas propostas, porém, permanece aberto. Alterações na composição, escolha ou mandato de ministros exigiriam discussão institucional e legislativa própria.

O que ficou registrado na entrevista é a avaliação de Lula de que o Supremo atravessa um problema de imagem e que, na percepção dele, “está perdendo credibilidade na sociedade”. A declaração coloca o próprio presidente entre os principais críticos da maneira como a Corte vem expondo suas divergências — justamente em um momento em que decisões do STF e do TSE estão no centro de algumas das principais controvérsias da eleição de 2026.

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