
Da picanha à salada: Lula muda o discurso sobre a mesa do brasileiro
Quatro anos depois de transformar a picanha em símbolo de uma promessa de recuperação do poder de compra, presidente afirma que, se o brasileiro não tiver dinheiro para carne ou ovo, pode comer salada
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a falar sobre o preço dos alimentos durante entrevista ao Flow Podcast, realizada na quinta-feira (1º), e provocou uma reação imediata ao recordar a dificuldade enfrentada por brasileiros para comprar carne. Ao ser questionado sobre a promessa feita durante a campanha presidencial de 2022, quando a picanha foi apresentada como símbolo da recuperação do poder de compra, Lula respondeu sugerindo alternativas para quem não consegue comprar determinados alimentos.
“Se não tem dinheiro pra comprar carne, a gente come ovo. Se não tem dinheiro pra ovo, come salada.”
Na sequência, Lula afirmou que conhece dificuldades semelhantes porque, segundo seu próprio relato, trabalhou durante 27 anos em uma fábrica e, em determinados períodos, chegou a comer apenas arroz e feijão, sem ovo.
A declaração ganhou ainda mais repercussão porque ocorre quatro anos depois da campanha de 2022, quando Lula utilizou a picanha e a cerveja como símbolos de uma promessa de melhora das condições de consumo da população.
Durante aquela campanha, Lula afirmou que os brasileiros deveriam voltar a ter condições de comer churrasco, picanha e tomar cerveja. Em 2024, já na Presidência, voltou ao assunto e disse que não havia esquecido a promessa da “cervejinha e da picanha”, acrescentando que o preço da carne havia caído, mas ainda precisava diminuir.
Agora, diante da mesma questão sobre o poder de compra, a resposta presidencial é outra: se não houver dinheiro para carne, compra-se ovo; se não houver dinheiro para ovo, come-se salada.
É justamente essa mudança de discurso que coloca a declaração no centro da discussão política e econômica.
A questão não é simplesmente saber se salada, ovo ou arroz com feijão são alimentos adequados. Eles podem fazer parte de uma alimentação saudável. O ponto crítico está na distância entre uma promessa política feita em 2022 e a resposta apresentada quatro anos depois para explicar as dificuldades de consumo.
A picanha, naquela campanha, foi utilizada como uma imagem direta da expectativa de melhora da renda e do consumo. Agora, a fala de Lula apresenta uma espécie de escala de substituição: carne por ovo, ovo por salada.
E é aí que aparece a ironia inevitável da declaração: a promessa começou na churrasqueira e terminou na saladeira.
Lula também procurou contextualizar a fala a partir de sua própria história. Segundo ele, durante os 27 anos em que trabalhou em uma fábrica, houve momentos em que sua alimentação era formada apenas por arroz e feijão. O presidente utilizou essa experiência para argumentar que conhece as dificuldades enfrentadas por trabalhadores e famílias de menor renda.
Mas a comparação também abre espaço para questionamentos. Uma coisa é relatar as dificuldades enfrentadas durante a própria trajetória pessoal; outra é responder, como presidente da República, sobre as condições econômicas da população depois de ter apresentado justamente a melhora do poder de compra como uma promessa política.
A declaração também acontece em 2026, durante uma nova campanha eleitoral, circunstância que aumenta a dimensão política da discussão. A fala reproduzida na entrevista não veio acompanhada, naquele trecho, de uma nova promessa específica para que o brasileiro volte a consumir picanha.
O contraste, portanto, fica registrado nas próprias declarações de Lula ao longo dos anos.
Em 2022, a referência era voltar a comer picanha. Em 2024, Lula dizia que não havia esquecido a promessa. Em 2026, diante da dificuldade de comprar carne, a orientação apresentada é recorrer ao ovo e, depois, à salada.
A diferença entre as duas mensagens explica por que a declaração repercutiu tanto. Para críticos do governo, a fala pode ser interpretada como uma mudança de expectativa: aquilo que antes era apresentado como símbolo de aumento do poder de compra passa agora a ser tratado pela lógica da substituição do alimento quando o orçamento não permite comprá-lo.
É uma mudança de tom que não passa despercebida.
O debate sobre o preço dos alimentos, porém, não pode ser reduzido apenas à picanha. Inflação, renda, produção agropecuária, custos de transporte, câmbio, políticas econômicas e comportamento dos preços no varejo influenciam o valor final pago pelo consumidor. A própria fala de Lula, no entanto, recolocou a promessa da picanha no debate justamente porque a pergunta feita no podcast estabeleceu essa conexão.
No fim, a frase presidencial acabou resumindo, de maneira involuntariamente irônica, uma discussão que acompanha Lula desde a campanha de 2022.
Quatro anos depois da promessa de picanha, o brasileiro ouviu uma nova alternativa: se a carne estiver fora do orçamento, compra-se ovo; se o ovo também estiver caro, resta a salada.
Para quem esperava medir a recuperação do poder de compra pelo acesso a alimentos que antes estavam fora do orçamento, a declaração inevitavelmente reacende a cobrança sobre uma promessa que o próprio presidente disse, em 2024, que não havia esquecido.