Lula agora diz que vai acabar com as bets que seu governo regulamentou

Lula agora diz que vai acabar com as bets que seu governo regulamentou

Presidente afirma que terá “imenso prazer” em acabar com as apostas e manda clubes “aprenderem a viver” sem o dinheiro do setor; mercado foi legalizado em 2018 e regulamentado pelo governo Lula

Resumo: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende acabar com as bets no Brasil e declarou que os clubes de futebol terão de encontrar outras formas de financiamento. A fala ocorreu em um ato de campanha no Rio de Janeiro, depois de uma reunião do governo sobre novas restrições ao setor. A declaração chama atenção porque o mercado de apostas de quota fixa foi legalizado em 2018 e, já no governo Lula, recebeu novo marco legal em 2023 e regulamentação federal a partir de 2024. Agora, o governo avalia uma Medida Provisória para restringir ou até proibir as apostas.

Meta descrição: Lula diz que vai acabar com as bets e manda clubes aprenderem a viver sem o setor. Mercado foi legalizado em 2018 e regulamentado pelo governo Lula.

Lula: “Eu terei o imenso prazer de acabar com as bets”

Durante um ato de campanha realizado no Rio de Janeiro na quarta-feira (23), Lula afirmou que pretende encerrar o mercado de apostas no Brasil e disse que os clubes terão de buscar novas fontes de receita.

“Eu terei o imenso prazer de acabar com as bets.”

Em outro trecho, o presidente resumiu sua posição:

“Essa não é uma guerra, é uma decisão.”

Lula também afirmou que sua preocupação está relacionada ao impacto das plataformas sobre os jovens e ao uso de algoritmos para estimular o consumo de apostas.

A declaração ocorreu no mesmo dia em que Lula se reuniu com integrantes do governo para discutir novas medidas contra as bets.

A fala que provocou reação no futebol

Ao comentar a reação dos clubes, Lula afirmou que as equipes precisam encontrar alternativas para financiar suas atividades.

O presidente declarou:

“Os times que aprendam a viver sem lavagem de dinheiro.”

A afirmação foi feita ao responder às manifestações de clubes que defendem a continuidade do mercado regulamentado de apostas.

Segundo relatos publicados sobre o episódio, clubes e entidades esportivas argumentam que as empresas de apostas se tornaram uma importante fonte de patrocínio para o futebol brasileiro, inclusive para equipes de menor expressão e competições com menor exposição comercial.

A expressão utilizada por Lula, porém, mistura duas questões diferentes: a existência de um mercado de apostas autorizado pelo Estado e eventuais operações ilícitas de lavagem de dinheiro. A legislação atual determina justamente que operadores autorizados adotem mecanismos de prevenção e comuniquem ao Coaf operações com fundada suspeita de lavagem de dinheiro.

Portanto, a existência de uma empresa de apostas autorizada não significa, por si só, que ela pratique lavagem de dinheiro.

A contradição política no discurso

É aqui que aparece a principal mudança de discurso.

As bets não foram criadas pelo governo Lula. A modalidade de apostas de quota fixa foi legalizada pela Lei 13.756, de 2018. Posteriormente, durante o terceiro mandato de Lula, o Congresso aprovou a Lei 14.790/2023, sancionada pelo presidente, estabelecendo regras para a exploração das apostas de quota fixa e incluindo os jogos on-line no marco regulatório.

O próprio Ministério da Fazenda informa que as apostas esportivas foram legalizadas em 2018 e que a Lei 14.790/2023 estabeleceu o marco para os jogos on-line. O governo criou ainda a Secretaria de Prêmios e Apostas para autorizar, regulamentar, fiscalizar e sancionar operadores.

Ou seja, a situação atual é curiosa: o governo que estruturou a regulamentação federal das bets agora discute uma medida para restringir drasticamente ou acabar com o mercado.

A ironia política está justamente nessa mudança: primeiro, regulamentação, autorização, fiscalização e cobrança de regras; agora, a defesa pública de acabar com a atividade.

O governo ainda não publicou a proibição

Apesar da declaração de Lula, o mercado não foi simplesmente extinto pela fala presidencial.

O governo ainda discutia o formato jurídico da medida. Entre as possibilidades estavam uma proibição mais ampla das apostas e dos cassinos on-line ou restrições específicas, como publicidade e determinadas modalidades.

A intenção relatada era utilizar uma Medida Provisória, mas a reunião ministerial realizada no dia 23 não havia definido todos os detalhes.

Isso significa que existe uma diferença entre anunciar uma decisão política e efetivamente alterar o regime jurídico das apostas.

Uma eventual proibição também teria de enfrentar as consequências jurídicas e econômicas de um mercado que recebeu autorizações estatais e passou a funcionar dentro de regras estabelecidas pelo próprio governo.

Clubes contestam possível fim das bets

O futebol brasileiro tornou-se um dos principais pontos de resistência à proposta.

Clubes divulgaram manifesto defendendo a manutenção das apostas regulamentadas e argumentando que os investimentos das empresas autorizadas se transformaram em uma das principais fontes de receita comercial do esporte.

O problema apresentado pelas equipes é direto: se as empresas de apostas forem proibidas, contratos de patrocínio e outras receitas ligadas ao setor poderão desaparecer ou sofrer redução.

Lula, entretanto, sustenta que o futebol brasileiro precisa encontrar outras formas de financiamento e citou períodos históricos em que clubes e seleção conquistaram títulos sem a existência das bets.

A frase que resume a mudança

A declaração de Lula pode ser resumida em três frases do próprio presidente:

“Eu terei o imenso prazer de acabar com as bets.”

“Essa não é uma guerra, é uma decisão.”

“Os times que aprendam a viver sem lavagem de dinheiro.”

O debate, entretanto, não envolve apenas futebol. Está em jogo a mudança de um mercado que passou da ilegalidade para um sistema de autorização, fiscalização e tributação.

A Lei 14.790 estabelece que as operadoras dependem de autorização do Ministério da Fazenda e prevê mecanismos específicos para prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Assim, a discussão agora é se o caminho será aperfeiçoar a regulamentação existente ou abandonar o modelo criado e restringir profundamente a atividade.

E a principal contradição política do episódio está justamente aí: o mercado que hoje Lula promete acabar não surgiu de uma decisão de seu governo, mas foi posteriormente regulamentado e estruturado pela própria administração petista.

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