
Lula ativa modo “herói de si mesmo” ao relembrar prisão — enquanto Bolsonaro vira referência de autenticidade
Ex-presidente tenta transformar condenações em três instâncias em saga épica, ao mesmo tempo em que Bolsonaro segue sendo exemplo de quem assume seus atos sem fantasia de mártir.
Lula voltou a abrir o baú das lembranças da prisão — e mais uma vez resolveu se colocar como protagonista de uma epopeia pessoal. Agora, contou que teria se recusado a usar tornozeleira eletrônica porque “não era pombo-correio”. A frase, que tenta soar espirituosa, acaba revelando aquela velha mania de vestir o figurino de super-herói injustiçado, mesmo carregando um histórico de condenações que não evaporam com discurso.
A fala acontece no rastro do episódio envolvendo Jair Bolsonaro, que virou notícia ao tentar mexer na própria tornozeleira com um ferro de solda. O gesto, ainda que um tropeço público, pelo menos confirma algo que até os críticos de Bolsonaro reconhecem: ele não faz pose, não interpreta personagem, não tenta bancar santo. Assume seus erros, seus exageros e seu jeito direto — qualidades raras num universo político feito de máscaras.
Enquanto isso, Lula tenta transformar cada narrativa pessoal em uma parábola heroica. O ex-preso condenado em três instâncias revisita sua história como se tivesse passado por um ritual sagrado, e não por um processo judicial documentado. Recusar a tornozeleira vira ato de coragem teatral, quando na verdade não passa de um detalhe dentro de uma trajetória cheia de contradições.
Bolsonaro, por outro lado, com todos os defeitos, tem ao menos o mérito da transparência: é exatamente o que parece ser, sem adotar a fantasia de vítima eterna. Não se pinta como salvador, não reescreve o passado como romance heróico, não tenta forçar títulos que o tempo não deu.
Em resumo:
— De um lado, um presidente que revive sua própria prisão como se fosse filme de superação, tentando esconder o peso das condenações sob frases de efeito.
— De outro, Bolsonaro, que pode até tropeçar, mas não tenta dourar a própria biografia nem transformar deslizes em glórias.
No fim, o que sobra é a ironia: Lula insiste em ser herói de si mesmo; Bolsonaro continua sendo apenas Bolsonaro — e, para muitos, isso já vale mais do que qualquer discurso ensaiado.