
Lula lava as mãos: a culpa é de Bolsonaro, da Dilma, do tempo e até da “fotografia do momento”
Presidente tenta explicar rejeição recorde jogando fraudes do INSS no colo dos antecessores, enquanto admite que “não entregou nada ainda” — mas promete colher sem plantar.
Em mais um episódio da série “Não fui eu, juro!”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu comentar a queda de sua aprovação popular — que atingiu 35% de avaliação negativa, segundo o último Datafolha — com a leveza de quem culpa a câmera pela própria cara amarrada: “É só uma fotografia do momento”.
Para Lula, o problema não está na falta de entregas de seu governo — que ele mesmo admite não ter feito —, nem nas denúncias de corrupção que voltaram a rondar Brasília. Está tudo sob controle: a culpa é da gestão anterior. E da anterior também. E da próxima, se deixar. “Até o 2º semestre, eu dizia: não há por que achar que o governo está indo bem. A gente não entregou o que prometeu. Mas agora vai. Este é o ano da colheita”, declarou, como quem tenta colher morango de terreno baldio.
A justificativa veio embalada numa participação especial no podcast Mano a Mano, gravado no Palácio da Alvorada — porque, afinal, nada como reclamar da má avaliação sentado no palácio presidencial.
A velha desculpa: “herança maldita” remixada
Ao comentar as denúncias de fraudes no INSS, Lula usou seu bordão preferido: “Foi no governo anterior!”. De acordo com ele, o esquema que desviava dinheiro de aposentados — cerca de R$ 40 mensais por beneficiário — começou ainda no governo Bolsonaro. Mas, curiosamente, os primeiros indícios do esquema surgiram bem antes, lá nos tempos de Dilma Rousseff. Inclusive, um dos nomes apontados como envolvido seria o de Francisco Maximiano, conhecido por sua proximidade com o petismo, e que já figurou no escândalo da Covaxin.
“O pessoal criou entidades fantasmas, colocava os nomes dos velhinhos como sócios sem eles saberem, pra descontar indevidamente da aposentadoria. Isso virou uma febre”, disse Lula, como se estivesse surpreso que gente ligada ao poder usasse os mais pobres para enriquecer — de novo.
Ele garantiu que os culpados “certamente serão presos”. Mas, claro, só depois de um bom julgamento midiático em que o petista já entregou o veredito: a culpa é do clã Bolsonaro.
A disputa de narrativas: Lula versus os fatos
Lula ainda ensaiou um mea-culpa sobre a percepção pública de que os escândalos estouram no seu governo. “Quando sai uma denúncia de corrupção, é normal que pensem que foi no meu governo — porque fomos nós que descobrimos”, disse. Uma lógica digna de quem tropeça no próprio tapete e culpa o vizinho pela queda.
E concluiu com uma frase que, se não fosse real, poderia ter saído de um roteiro de comédia política:
“Eles sempre vão dizer que fomos nós. E nós sempre vamos dizer a verdade.”
O problema é que a tal verdade, aparentemente, é como aquela colheita que nunca chega: só brota quando convém. Até lá, segue o jogo de empurra — com Lula de jaleco branco, bancando o investigador dos próprios escândalos. Como se a responsabilidade de governar fosse opcional. E a indignação do povo, só um efeito da “luz ruim da fotografia”.