
Lula promete canetas emagrecedoras no SUS após criticar o Ozempic: mudança de discurso a 15 dias da eleição
Presidente anuncia proposta de acesso a medicamentos para emagrecimento pelo SUS, meses depois de dizer que o Ozempic não deveria ser “prêmio para relaxados” e defender que as pessoas se levantassem da cadeira. A promessa reacende o debate sobre saúde pública, responsabilidade fiscal e o momento eleitoral do anúncio.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, em 17 de setembro, durante visita ao complexo industrial da Eurofarma, em Montes Claros (MG), que pretende oferecer gratuitamente canetas emagrecedoras pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a pacientes com obesidade.

O anúncio foi feito no mesmo dia em que o governo divulgou o reajuste do Bolsa Família. A promessa sobre os medicamentos, porém, não veio acompanhada de uma data definida para implantação nacional, nem de uma confirmação de que a distribuição começará ainda em 2026.
A promessa: medicamentos gratuitos para pacientes com obesidade
Durante a visita à Eurofarma, Lula afirmou que as chamadas canetas emagrecedoras poderão ser utilizadas no tratamento de pessoas com obesidade, desde que haja indicação médica.
“Essa canetinha vai ser utilizada para cuidar, de graça, das pessoas que tenham obesidade”, declarou o presidente. Em sua publicação nas redes sociais, afirmou que a iniciativa ampliará o acesso ao tratamento e poderá proporcionar mais qualidade de vida à população.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, explicou que o governo está avaliando a incorporação desses medicamentos ao SUS e trabalha na elaboração de um protocolo clínico. A proposta é estabelecer critérios para selecionar os pacientes, definir o acompanhamento médico e garantir que o tratamento seja utilizado de forma responsável.
Entre os grupos considerados para avaliação estão pessoas que aguardam cirurgia bariátrica, pacientes com obesidade associada a problemas cardíacos e mulheres que tiveram câncer de mama. O objetivo é estudar em quais situações o medicamento pode trazer benefícios e contribuir para o cuidado dessas pessoas.
Março: Lula dizia que o Ozempic não deveria ser “prêmio para relaxados”
A promessa atual contrasta com declarações feitas pelo presidente em 13 de março de 2026, quando comentou o uso de medicamentos para emagrecimento durante um evento no Rio de Janeiro.
Na ocasião, Lula afirmou que o remédio não deveria ser um “prêmio para quem é relaxado” e criticou a ideia de utilizar a injeção sem mudanças nos hábitos alimentares e na prática de exercícios físicos.
“Você não pode dar de presente uma injeção para as pessoas emagrecerem se as pessoas querem comer quatro rabadas por dia, três feijoadas, comer um quilo de torresmo”, disse. Também questionou por que as pessoas não caminhavam meia hora por dia e defendeu que os médicos orientassem os pacientes sobre atividade física.
Agora, seis meses depois, Lula apresenta a possibilidade de disponibilizar gratuitamente esses medicamentos na rede pública. A diferença entre as declarações chama atenção e abre espaço para questionar a mudança de abordagem: aquilo que antes foi descrito em termos de comportamento individual passa a ser apresentado como uma política pública de acesso ao tratamento.
A contradição política e as perguntas que ficam
A crítica ao discurso presidencial está no contraste entre a linguagem utilizada em março e a promessa feita em setembro. Ao associar o uso do medicamento a pessoas “relaxadas”, Lula adotou uma formulação que pode ser interpretada como estigmatizante em relação a quem enfrenta a obesidade.
Na nova declaração, o presidente enfatiza o cuidado médico e o acesso gratuito. A mudança pode refletir uma compreensão mais ampla da obesidade como questão de saúde, mas também levanta perguntas legítimas sobre a consistência de sua comunicação e sobre a forma como o governo pretende transformar o anúncio em atendimento efetivo.
A ironia política está no contraste: em março, a mensagem era que a injeção não deveria ser um presente para quem não mudasse de hábitos; em setembro, a promessa é de que o SUS poderá oferecer o medicamento gratuitamente. O que ainda precisa ser esclarecido é como, quando e para quem essa promessa será concretizada.
O que já existe e o que ainda falta definir
O Ministério da Saúde informou que iniciou estudos e ações para avaliar a utilização de medicamentos da classe dos análogos de GLP-1 no SUS. Também anunciou iniciativas para estimular a produção nacional, após a expiração da patente da semaglutida em 2026.
O ministro Padilha afirmou que o Brasil já conta com 14 produtos registrados para o tratamento da obesidade e que a ampliação da oferta contribuiu para reduzir preços no mercado. Segundo ele, o governo pretende utilizar estudos e protocolos clínicos para definir o acesso no sistema público.
Um projeto-piloto no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, acompanha pacientes com obesidade grave ou associada a outras doenças. O estudo Real-Bari prevê o acompanhamento de 250 pacientes, com avaliação médica e monitoramento contínuo. O ministério relatou que o primeiro paciente atendido pelo projeto perdeu seis quilos e começou a mudar hábitos de vida, mas esse caso individual não permite antecipar os resultados para toda a população.
Ainda não foram detalhados publicamente todos os critérios nacionais de elegibilidade, a quantidade de medicamentos a ser adquirida, o cronograma de distribuição em cada região ou o custo total de uma eventual incorporação ampla. Esses pontos serão fundamentais para avaliar a viabilidade e o alcance da promessa.
Bolsa Família e canetas emagrecedoras: anúncios no mesmo dia
O anúncio das canetas ocorreu horas depois de Lula divulgar um reajuste de 15% no Bolsa Família. O valor mínimo anunciado passará de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro, enquanto o benefício médio estimado subirá de R$ 675 para R$ 777.
Segundo o governo, o reajuste terá impacto de R$ 5,8 bilhões em 2026 e custo estimado de aproximadamente R$ 22 bilhões em 2027. O Executivo afirma que a atualização recompõe perdas inflacionárias acumuladas desde 2023.
A proximidade dos anúncios com a eleição alimenta questionamentos políticos sobre o calendário das medidas. Isso, por si só, não comprova irregularidade ou motivação eleitoral; a avaliação depende das regras aplicáveis, dos procedimentos adotados e da execução efetiva das políticas.
O compromisso que precisa sair do discurso
A promessa de ampliar o acesso a medicamentos para tratar a obesidade envolve uma questão relevante de saúde pública. Para que se torne uma política efetiva, será necessário definir critérios clínicos, garantir acompanhamento profissional, prever recursos orçamentários e informar claramente quando e como os pacientes poderão ter acesso.
A crítica ao governo Lula, neste caso, não precisa ignorar a importância do tratamento nem transformar pacientes em alvo de ironia. O foco deve estar na diferença entre anunciar uma medida e implementá-la, além da responsabilidade de um presidente ao se pronunciar sobre uma condição de saúde que afeta milhões de pessoas.
Em resumo: Lula prometeu canetas emagrecedoras gratuitas no SUS, mas não definiu quando a distribuição nacional começará. A promessa contrasta com sua declaração de março, quando chamou o medicamento de algo que não deveria ser “prêmio para relaxados”. O governo agora fala em prescrição, protocolos e critérios médicos; resta apresentar o cronograma, o financiamento e as regras concretas para que o anúncio se transforme em atendimento.