
Lula visita favela marcada por domínio do PCC com apoio de ONG ligada a ex-traficante
Associação comunitária que articulou a presença do presidente tem histórico de envolvimento com o crime organizado, segundo denúncias do Ministério Público. Mesmo assim, governo defende diálogo em nome da inclusão social.
A recente visita do presidente Lula e da primeira-dama Janja à Favela do Moinho, em São Paulo, foi organizada com o apoio direto de uma associação comunitária cujas raízes, segundo o Ministério Público de São Paulo, estão profundamente ligadas ao crime organizado.
Documentos obtidos mostram que a Associação da Comunidade do Moinho, responsável por intermediar o encontro com o presidente, já foi apontada como ponto de armazenamento de drogas do PCC. A presidente da entidade, Alessandra Moja Cunha, é irmã de Leonardo Monteiro Moja, o “Léo do Moinho”, antigo chefe do tráfico na região, preso no ano passado. Ela própria já foi condenada por homicídio e chegou a cumprir parte da pena em regime fechado.
A favela do Moinho, uma das últimas grandes ocupações urbanas no centro da capital paulista, é considerada pelo Ministério Público uma área sob controle direto do PCC. Mesmo com o histórico de violência e tráfico, a associação da comunidade se tornou o principal canal de interlocução entre os moradores e o governo federal.
Negociação oficial com cenário delicado
Dois dias antes da chegada de Lula, o ministro Márcio Macêdo, da Secretaria-Geral da Presidência, esteve na sede da associação para articular os detalhes da visita presidencial. O local, conforme denúncia do MP-SP, já serviu de esconderijo para mais de 600 porções de crack, tijolos de maconha e cocaína. A Polícia Civil chegou a apreender as drogas em uma operação em agosto de 2023, no mesmo endereço onde o governo realizou reuniões formais.
Apesar disso, Macêdo afirma que o único objetivo da reunião foi discutir a proposta de realocação das cerca de 900 famílias que vivem na favela. Segundo ele, “o diálogo com lideranças comunitárias é essencial para qualquer governo que leve a sério a inclusão social”.
Proposta de realocação e polêmica no entorno
Durante a visita, Lula anunciou que as famílias seriam reassentadas e que o terreno, pertencente à União, se transformaria em um parque. Pelo acordo, cada morador teria direito a até R$ 250 mil para aquisição de um novo imóvel – sendo R$ 180 mil do governo federal e R$ 70 mil do estadual. A desocupação, no entanto, só será feita após todas as famílias serem relocadas.
No vídeo publicado por Alessandra em maio deste ano, ela aparece em reunião com representantes do governo e cita nomes de integrantes do alto escalão, como a secretária-executiva da Presidência, Kelli Mafort. Também participaram da visita representantes dos ministérios da Justiça, dos Direitos Humanos, das Cidades, da Gestão Pública e parlamentares do PT e PSOL.
A situação, no entanto, é complexa. Moradores relatam ameaças e pressões por parte de grupos ligados a Léo do Moinho contra aqueles que aceitam a proposta de mudança. A denúncia do MP afirma que a família Moja se aproveitou da ausência do Estado para transformar a favela em uma base do tráfico e numa zona de repressão a ações policiais.
Reação do governo
Diante das críticas, o ministro Macêdo reiterou que a atuação do governo na Favela do Moinho seguiu protocolos de segurança e teve foco exclusivo na política habitacional. A Secretaria de Comunicação (Secom) afirmou que “não foi identificado nenhum risco à segurança da comitiva presidencial” e defendeu que o diálogo com representantes locais é “parte essencial de um governo comprometido com a dignidade e a inclusão”.
Por fim, a Secom declarou que a principal porta-voz da comunidade na interlocução com o presidente foi Flavia Maria da Silva, uma liderança considerada “idônea e reconhecida” pelos próprios moradores.
Fonte e Créditos; Metrópoles