
Megaoperação em São Paulo prende 15 e apreende cerca de 10 mil celulares; investigação mira toda a cadeia do roubo e da receptação
Operação Frankmobile mobilizou cerca de 1.700 agentes, cumpriu 84 mandados de busca e apreensão e identificou uma estrutura com ladrões, receptadores, técnicos de desbloqueio, adulteradores de IMEI e comerciantes; entre os presos está um PM aposentado
Uma megaoperação realizada em São Paulo e Goiás nesta quinta-feira (10) atingiu uma estrutura organizada que, segundo as investigações, atuava em diferentes etapas do mercado ilegal de celulares: furto, roubo, receptação, desbloqueio, adulteração de identificadores, desmonte e revenda dos aparelhos.
Batizada de Operação Frankmobile, a ação foi conduzida pelo Ministério Público de São Paulo, por meio do Gaeco, em conjunto com as polícias Civil, Militar e Penal e órgãos da administração estadual. Cerca de 1.700 agentes participaram da ofensiva.
Até o momento, 15 pessoas foram presas, enquanto aproximadamente 10 mil celulares e aparelhos eletrônicos foram apreendidos. A Justiça havia autorizado sete mandados de prisão temporária e 84 mandados de busca e apreensão, além do bloqueio ou sequestro de valores e bens superiores a R$ 5 milhões.
Entre os presos está um policial militar aposentado, segundo as informações divulgadas sobre a operação. A investigação procura identificar o papel individual de cada suspeito dentro da estrutura. Prisão durante investigação, porém, não significa condenação: os envolvidos ainda terão direito à defesa e ao devido processo legal.
Uma investigação de dois anos
A Operação Frankmobile é resultado de aproximadamente dois anos de investigação.
Durante esse período, os investigadores reuniram informações obtidas em diferentes operações, análises de aparelhos eletrônicos, rastreamento de celulares, dados financeiros e fiscais, além de informações fornecidas por pessoas presas ou investigadas que ajudaram a esclarecer o funcionamento da cadeia criminosa.
O objetivo não era simplesmente localizar quem roubava os celulares nas ruas.
A estratégia foi avançar até os responsáveis por receber, desbloquear, modificar, desmontar, documentar e recolocar os aparelhos no mercado.
Para os investigadores, atingir essa estrutura econômica é fundamental porque o roubo de celulares só permanece lucrativo quando existe alguém disposto a comprar, modificar e revender os equipamentos.
A operação, portanto, busca atacar justamente o mercado que dá valor ao produto roubado.
Quatro núcleos foram identificados
Segundo o Ministério Público, a investigação conseguiu identificar pelo menos quatro núcleos dentro da estrutura.
O primeiro era responsável pelos furtos e roubos.
O segundo recebia os aparelhos e atuava na receptação.
O terceiro reunia técnicos responsáveis por desbloquear os celulares e alterar seus identificadores.
O quarto estava relacionado à comercialização e à reinserção dos aparelhos no mercado.
A divisão de tarefas permitia que cada participante desempenhasse uma função específica, dificultando a identificação de toda a cadeia criminosa.
A investigação também aponta a utilização de empresas e estabelecimentos comerciais para conferir aparência de legalidade a aparelhos cuja origem seria criminosa.
O celular roubado não termina no momento do crime
Um dos pontos mais importantes revelados pela investigação é que o roubo ou furto representa apenas o primeiro estágio do negócio.
Depois que o aparelho é retirado da vítima, ele pode ser rapidamente encaminhado a receptadores.
Em determinadas situações, operadores tentam acessar dados armazenados no dispositivo, contas bancárias e serviços financeiros vinculados à vítima.
Os investigadores identificaram pessoas que atuariam especificamente na tentativa de desbloquear aparelhos e acessar contas ou serviços digitais.
Em seguida, o celular pode passar por técnicos especializados.
Esses equipamentos podem ser modificados para dificultar a identificação da origem criminosa e posteriormente retornar ao mercado como aparelhos usados ou como peças.
Alteração do IMEI
Uma das técnicas investigadas envolve a adulteração do IMEI, código utilizado para identificar aparelhos celulares.
Segundo as investigações, criminosos utilizavam recursos de software e também modificações físicas em determinados aparelhos para alterar identificadores e dificultar o rastreamento.
Essa prática permitiria que telefones bloqueados ou identificados como roubados fossem novamente utilizados ou comercializados.
A operação encontrou equipamentos e estruturas utilizados nesse tipo de atividade.
O celular, portanto, poderia passar por uma espécie de “transformação” antes de retornar ao mercado.
Um aparelho roubado deixa de circular com sua identificação original e pode ser vendido posteriormente como se tivesse origem regular.
Desbloqueio por cerca de R$ 300
Outro elemento revelado durante as investigações foi a existência de estabelecimentos que cobrariam aproximadamente R$ 300 para desbloquear celulares roubados.
Áudios obtidos pelos investigadores indicaram que funcionários explicavam a utilização de programas pagos para remover restrições impostas aos aparelhos.
O objetivo seria permitir que celulares roubados ou furtados voltassem a funcionar e pudessem ser revendidos.
A investigação também identificou diferentes técnicas utilizadas para contornar bloqueios e recuperar o funcionamento dos dispositivos.
Esse mecanismo mostra como existe uma cadeia especializada em transformar um produto criminoso em uma mercadoria novamente comercializável.
Regiões do centro de São Paulo aparecem na investigação
Entre os locais citados nas investigações estão áreas tradicionais do comércio de eletrônicos no centro da capital paulista.
A Rua Santa Ifigênia, a Rua Guaianases, a região da 25 de Março, a Galeria Pagé e o Shopping Mundo Oriental aparecem entre os pontos analisados pelos investigadores.
Segundo a apuração, diferentes regiões tinham funções específicas.
Na área da 25 de Março e do Shopping Mundo Oriental, foram identificados aparelhos associados a roubos com violência e furtos de veículos.
Na Rua Guaianases, a investigação encontrou grande concentração de aparelhos relacionados principalmente a furtos ocorridos durante eventos, shows, festivais e aglomerações.
Shows e grandes eventos também entraram no radar
A investigação identificou aparelhos relacionados a crimes ocorridos em grandes eventos e locais de concentração de pessoas.
Entre os eventos mencionados estão Lollapalooza, Parada do Orgulho LGBT+, Virada Cultural, The Town, Tomorrowland e Só Track Boa.
Nesse tipo de situação, criminosos podem atuar em grupos.
Os chamados “batedores” identificam vítimas e praticam os furtos, enquanto os chamados “recolhedores” recebem os aparelhos logo depois.
A divisão das tarefas dificulta a identificação do autor que efetivamente retirou o telefone da vítima.
O aparelho é rapidamente afastado do local do crime e encaminhado para integrantes responsáveis pelas etapas seguintes.
Cerca de 154 mil celulares roubados ou furtados em 2025
A dimensão do problema ajuda a explicar a importância da operação.
Segundo os dados apresentados na investigação, a cidade de São Paulo registrou 154.058 roubos e furtos de celulares em 2025.
Isso representa uma média próxima de 17 ocorrências por hora.
Do total, aproximadamente 10 mil aparelhos foram recuperados e devolvidos às vítimas, equivalente a cerca de 6%.
Os números demonstram que o problema não termina na criminalidade das ruas.
Existe uma segunda camada: a estrutura que absorve esses aparelhos e transforma o produto do crime em mercadoria.
R$ 122,5 mil em dinheiro também foram apreendidos
Além dos celulares, os agentes apreenderam aproximadamente R$ 122,5 mil em dinheiro, cartões bancários, relógios, notebooks, tablets, pendrives e outros equipamentos eletrônicos.
Também foram determinadas medidas para bloquear ou sequestrar valores e bens que ultrapassam R$ 5 milhões.
Uma das contas analisadas teria movimentado valores expressivos, e os investigadores procuram estabelecer a relação desses recursos com a atividade investigada.
A dimensão financeira é importante porque o Ministério Público tenta atingir não somente os operadores das ruas, mas também aqueles que lucram com a cadeia de receptação e comercialização.
Empresas podem ter dado aparência legal aos aparelhos
Outro ponto relevante da investigação é a suspeita de utilização de empresas para conferir aparência de legalidade aos celulares.
Segundo os investigadores, parte da estrutura utilizaria documentos e notas fiscais para facilitar a comercialização dos aparelhos.
A investigação também identificou empresas que apresentavam movimentações financeiras consideradas incompatíveis com suas atividades ou que não estavam formalmente registradas.
Entre as empresas mencionadas nas reportagens está a Trocafone, que aparece no contexto da investigação sobre a destinação comercial dos aparelhos. A empresa afirmou que entregou documentos e informações solicitados pelo Ministério Público e que está analisando o material relacionado ao caso, colaborando com as autoridades.
É importante destacar que ser citado ou investigado não significa que uma empresa ou pessoa tenha sido condenada por crime.
PM aposentado está entre os presos
A presença de um policial militar aposentado entre os presos aumenta a repercussão da operação.
A participação de um ex-integrante das forças de segurança, caso confirmada pela investigação e posteriormente pela Justiça, levanta questionamentos adicionais sobre a capacidade de organizações criminosas de buscar pessoas com conhecimento de procedimentos policiais.
Entretanto, é necessário aguardar o desenvolvimento da investigação para saber qual teria sido exatamente a função do policial aposentado e quais provas existem contra ele.
A responsabilização criminal depende da comprovação dos fatos durante o processo.
Operação reuniu diversas instituições
A dimensão da Frankmobile também se explica pela quantidade de órgãos envolvidos.
Participaram da ação:
- Ministério Público de São Paulo;
- Gaeco;
- Polícia Civil de São Paulo;
- Polícia Militar;
- Polícia Penal;
- Secretaria da Segurança Pública;
- Secretaria da Fazenda;
- outros setores de inteligência e investigação.
Ao todo, cerca de 1.700 agentes participaram da operação.
A integração permitiu combinar investigação criminal, inteligência, análise financeira, fiscalização e tecnologia.
Cães e tecnologia foram usados nas buscas
A operação também utilizou cães treinados para localizar aparelhos eletrônicos, além de recursos tecnológicos e perícia digital.
Os animais foram empregados para ajudar os agentes a localizar celulares em imóveis e locais onde os aparelhos poderiam estar escondidos.
A estratégia permitiu direcionar as buscas com maior precisão.
Além disso, os investigadores utilizaram cruzamento de dados, rastreamento digital, informações fiscais e financeiras e análises de aparelhos apreendidos em operações anteriores.
A combinação entre métodos tradicionais de investigação e tecnologia foi um dos elementos que permitiu chegar à estrutura investigada.
A investigação começou antes da Frankmobile
A operação também é resultado do aproveitamento de informações obtidas em ações anteriores.
Uma das referências foi a Operação Salus et Dignitas, realizada anteriormente na região da Cracolândia.
Dados extraídos de celulares e equipamentos apreendidos naquela investigação ajudaram a identificar conversas e conexões relacionadas ao reaproveitamento e à comercialização de aparelhos de origem suspeita.
Os investigadores também utilizaram rastreamentos realizados pelas próprias vítimas.
Em diferentes casos, celulares roubados ou furtados apontaram repetidamente para determinadas regiões do centro de São Paulo.
A repetição desses sinais ajudou a formar o mapa da cadeia de receptação.
Investigação ainda não terminou
Apesar das prisões e das apreensões, a operação não representa o encerramento das investigações.
Os aproximadamente 10 mil aparelhos apreendidos precisam ser analisados.
A expectativa é cruzar os números de identificação dos celulares com boletins de ocorrência para tentar descobrir quais equipamentos pertenciam a vítimas específicas.
Esse trabalho também poderá ajudar os investigadores a identificar novos integrantes da cadeia criminosa.
A análise dos aparelhos poderá fornecer dados sobre compradores, vendedores, técnicos, empresas e outros pontos da rede.
Objetivo é atacar o lucro do crime
O governador Tarcísio de Freitas afirmou que o objetivo da operação é desmontar a estrutura responsável por dar sustentação econômica aos roubos e furtos de celulares.
A lógica é simples: se não houver mercado para o aparelho roubado, o incentivo financeiro para o crime diminui.
O secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, também destacou que o crime não termina quando o telefone é retirado da vítima.
Depois do roubo, podem surgir novas práticas criminosas envolvendo desbloqueio, acesso a contas, transferências financeiras, empréstimos, adulteração e revenda.
Por isso, a operação procura alcançar todas as etapas.
Uma operação contra uma cadeia inteira
A Frankmobile demonstra que o combate ao roubo de celulares não pode ficar restrito ao patrulhamento das ruas.
É necessário investigar quem recebe os aparelhos.
Quem desbloqueia.
Quem adultera.
Quem desmonta.
Quem fornece documentação.
Quem compra.
E quem revende.
Quando toda essa cadeia é mantida funcionando, o celular roubado passa a ter valor econômico para diferentes criminosos.
É essa engrenagem que o Ministério Público e as forças de segurança tentam desmontar.
Partes envolvidas
Ministério Público de São Paulo: responsável pela investigação em conjunto com o Gaeco.
Gaeco: conduziu a investigação sobre a organização e seus diferentes núcleos.
Polícia Civil: participou das diligências, investigações e apreensões.
Polícia Militar: participou da operação e das ações de campo.
Polícia Penal: integrou a força mobilizada.
Secretaria da Segurança Pública: coordenou a atuação das forças estaduais de segurança.
Secretaria da Fazenda: participou da frente relacionada à fiscalização e aos dados fiscais.
Tarcísio de Freitas: governador de São Paulo, que destacou a importância de atingir os receptadores e a estrutura econômica do crime.
Osvaldo Nico Gonçalves: secretário da Segurança Pública, que explicou a divisão da cadeia criminosa.
Gaeco/promotores responsáveis pela investigação: identificaram os quatro núcleos envolvidos no esquema.
15 presos: são investigados por diferentes funções dentro da estrutura; entre eles está um PM aposentado.
Empresas e estabelecimentos comerciais investigados: aparecem no contexto da recepção, desbloqueio, adulteração e comercialização dos aparelhos. Eventuais responsabilidades individuais ainda dependem da investigação e da Justiça.
DESTAQUE
A Operação Frankmobile mobilizou cerca de 1.700 agentes, prendeu 15 pessoas e apreendeu aproximadamente 10 mil celulares. A investigação, que durou cerca de dois anos, identificou uma cadeia que ia do roubo nas ruas ao desbloqueio, adulteração de IMEI, desmonte e revenda dos aparelhos. Entre os presos está um PM aposentado.