Menos gente, mais apagão: Enel tem hoje quase 4 mil funcionários a menos do que em 2019

Menos gente, mais apagão: Enel tem hoje quase 4 mil funcionários a menos do que em 2019

Mesmo após promessas bilionárias e reforço de equipes, distribuidora opera com quadro reduzido enquanto milhões de consumidores crescem — e a luz some

A Enel São Paulo até voltou a contratar, como prometeu depois das crises recentes, mas os números contam outra história. Em 2025, a distribuidora de energia que atende 24 cidades da Grande São Paulo — incluindo a capital — ainda tem 3.650 funcionários a menos do que tinha em 2019, quando assumiu o controle da antiga AES Eletropaulo.

Segundo o balanço do terceiro trimestre de 2025, a empresa soma 20.185 colaboradores, entre próprios e terceirizados. Em 2019, esse número era bem maior: 23.835 pessoas. Na prática, isso representa um quadro 15,3% menor, mesmo com uma base de consumidores muito maior.

De lá para cá, o número de unidades consumidoras cresceu em mais de 780 mil, mas a força de trabalho encolheu. Só entre terceirizados, são 1.846 a menos; entre funcionários próprios, 1.804 postos desapareceram.

Depois das críticas e dos apagões sucessivos, a Enel passou a anunciar reforços. Desde o fim de 2023, a empresa promete ampliar equipes, modernizar redes e investir pesado para enfrentar eventos climáticos extremos — cada vez mais frequentes. Em setembro de 2024, anunciou a contratação de cerca de 5 mil novos funcionários próprios e a incorporação de 1.650 veículos até 2026.

O discurso, porém, ainda não se reflete totalmente no chão da rua — justamente onde a falta de pessoal pesa mais.

A fragilidade ficou evidente mais uma vez nesta semana, quando um ciclone extratropical atingiu São Paulo e deixou cerca de 2 milhões de imóveis sem energia. A Enel afirma ter mobilizado 1.600 equipes para o restabelecimento, alegando que os danos foram severos e exigiram reconstrução completa de trechos da rede, com troca de postes, transformadores e cabos.

Mesmo assim, na sexta-feira (12), mais de 600 mil imóveis ainda seguiam no escuro.

A crise virou embate político. O prefeito Ricardo Nunes contestou publicamente os números divulgados pela empresa, afirmando que dados de rastreamento não indicavam a circulação das equipes anunciadas. Em outras palavras: no papel, tem gente trabalhando; na rua, a cidade segue às escuras.

O problema não é novo. A recuperação do fornecimento após este ciclone tem sido mais lenta do que em eventos semelhantes de 2023 e 2024, quando a empresa já havia sido multada e duramente criticada. Em apagões anteriores, consumidores chegaram a ficar até uma semana sem luz, o que rendeu multas milionárias da Aneel, do Procon-SP e até uma CPI na Câmara Municipal pedindo o fim do contrato da concessionária.

As promessas também foram feitas diretamente ao presidente Lula, que ouviu da empresa o compromisso de investir R$ 20 bilhões em três anos e garantir que “não haveria mais apagões”. O próprio presidente foi categórico: “São Paulo não pode ficar sem energia”.

Enquanto isso, a realidade insiste em contrariar os discursos. Menos funcionários, mais consumidores, eventos climáticos cada vez mais extremos — e uma pergunta que segue sem resposta clara: como garantir energia para uma metrópole do tamanho de São Paulo com um time menor do que o de seis anos atrás?

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags