
Mensagens atribuídas a Lulinha revelam relato sobre suposto perfil fake usado para atacar Janja
Conversa recuperada pela Polícia Federal mostra lobista Roberta Luchsinger relatando que o empresário Kalil Bittar teria criado uma conta falsa para criticar a primeira-dama; Lulinha respondeu com a expressão “barraqueira”
Uma nova frente de mensagens recuperadas pela Polícia Federal (PF) colocou novamente o nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no centro das investigações que apuram possíveis relações empresariais e suspeitas de tráfico de influência envolvendo pessoas próximas ao filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Os diálogos, divulgados a partir de material anexado ao inquérito, mostram uma conversa entre Lulinha e a empresária e lobista Roberta Luchsinger, em 29 de junho de 2025. Na troca de mensagens, Roberta relata que o empresário Kalil Bittar, apontado como sócio de Lulinha, teria criado um perfil falso nas redes sociais com o objetivo de atacar a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja.
A informação, entretanto, aparece no inquérito como relato feito por Roberta em uma conversa privada. A existência da mensagem não comprova, por si só, que Kalil tenha efetivamente criado a conta ou produzido os ataques. A investigação ainda precisa confirmar a autoria do perfil, seu conteúdo e eventual finalidade.
O diálogo que chamou atenção da investigação
Segundo o conteúdo divulgado pela revista Veja, Roberta informou a Lulinha que Kalil estaria utilizando a proximidade com o filho do presidente para apresentar-se como alguém com influência sobre o governo e tentar viabilizar negócios com a Telebras.
Em uma das mensagens, a lobista afirmou que Kalil estaria “vendendo” a influência de Lulinha para interlocutores da estatal e que estaria próximo de fechar um negócio de grande porte. Ela também teria procurado um interlocutor ligado à Telebras para negar que Kalil falasse em nome de Lulinha.
A conversa então avançou para a relação do empresário com Janja.
Roberta relatou que teria informado ao interlocutor que Kalil não representava Lulinha, acrescentando que Janja não teria boa relação com o empresário. Na sequência, segundo o material divulgado, afirmou que Kalil teria criado um perfil falso para falar mal da primeira-dama.
Foi nesse contexto que apareceu a resposta de Lulinha:
“Barraqueiraaaaaaaaaa.”
A expressão ganhou repercussão porque revela uma reação informal de Lulinha ao comentário sobre Janja, mas o trecho isolado não permite concluir que ele tenha participado da criação do suposto perfil ou autorizado qualquer ataque.
Kalil Bittar aparece como personagem central
Kalil Bittar é apontado nas reportagens como sócio de Lulinha e irmão de Fernando Bittar, que também aparece entre os investigados pela PF.
Segundo informações atribuídas à investigação, Roberta, Lulinha e Fernando Bittar seriam integrantes de uma estrutura empresarial que os investigadores descrevem como uma “sociedade oculta”, com atuação coordenada na interlocução de interesses privados diante de agentes públicos. Essa é uma interpretação da investigação e ainda está sujeita à apuração judicial.
As mensagens também mostram Roberta reclamando da maneira como Kalil estaria apresentando sua relação com Lulinha.
Em outro trecho divulgado, ela afirma que o empresário estaria dizendo que os dois eram sócios e que ele cuidaria dos negócios. Lulinha respondeu: “Típico dele.”
A conversa sugere, segundo os investigadores e as reportagens, que havia uma disputa interna em torno da utilização do nome e da proximidade de Lulinha com o poder político.
A Telebras entra na história
A Telebras aparece no episódio porque, de acordo com as mensagens, Roberta teria suspeitado que Kalil utilizava o nome de Lulinha para tentar abrir portas comerciais na estatal.
A lobista afirmou que o empresário estaria apresentando-se como alguém com acesso privilegiado ao filho do presidente e, por consequência, ao governo federal.
Roberta teria procurado um interlocutor próximo à presidência da Telebras para esclarecer que Kalil não falava em nome de Lulinha. Naquele período, o interlocutor mencionado nas reportagens era Frederico de Siqueira Filho, que posteriormente assumiu o Ministério das Comunicações.
O conteúdo das mensagens, portanto, mistura dois assuntos: as tentativas atribuídas a Kalil de fazer negócios com a Telebras e o suposto ataque virtual contra Janja.
Janja aparece no centro da conversa
A primeira-dama surge no diálogo não como participante da conversa, mas como alvo do suposto perfil falso atribuído a Kalil.
Roberta teria afirmado que Janja “odeia” o empresário e que ele poderia se tornar “persona non grata” no Palácio do Planalto caso sua atuação chegasse ao conhecimento da primeira-dama.
O relato também indica que Roberta teria utilizado a questão de Janja para reforçar perante interlocutores que Kalil não possuía autorização para falar em nome de Lulinha.
Nesse sentido, a conversa não apresenta Janja como agente de qualquer negociação. Ela aparece como personagem de uma disputa interna envolvendo relações pessoais, empresariais e políticas ao redor do filho do presidente.
O que a PF investiga
As mensagens fazem parte de um conjunto maior de elementos reunidos pela Polícia Federal em investigações que envolvem Lulinha e pessoas de seu círculo.
A PF apura suspeitas relacionadas a tráfico de influência e possível favorecimento de interesses privados perante órgãos públicos. As mensagens sobre Kalil e a Telebras são analisadas dentro desse contexto mais amplo.
É fundamental, contudo, separar suspeita investigativa de prova definitiva. O fato de Roberta ter relatado determinada conduta a Lulinha não demonstra automaticamente que ela tenha ocorrido exatamente como descrita. A investigação precisa estabelecer a existência do perfil, sua autoria, quem o administrava e se houve efetiva tentativa de influência sobre agentes públicos.
A defesa de Lulinha e os questionamentos sobre vazamentos
O episódio também ocorre depois de a defesa de Lulinha questionar a divulgação de informações provenientes da investigação.
Os advogados do filho de Lula têm solicitado que as autoridades investiguem possíveis vazamentos de material sigiloso, argumentando que trechos de mensagens estão sendo divulgados em meio à disputa eleitoral de 2026.
A defesa sustenta que é necessário identificar quem teve acesso aos documentos e verificar se os conteúdos divulgados correspondem integralmente ao material apreendido, evitando interpretações baseadas em trechos isolados.
Essa preocupação ganhou peso político porque o caso envolve diretamente o filho do presidente em um momento de intensa disputa eleitoral.
Uma conversa privada que ganhou dimensão política
O episódio tem uma característica peculiar: uma conversa aparentemente privada sobre relações pessoais e empresariais passou a integrar um debate muito maior sobre influência política, negócios com o governo, disputas internas e ataques nas redes sociais.
De um lado, a PF investiga se havia uma estrutura de interlocução entre empresários e pessoas próximas ao poder público. De outro, a defesa de Lulinha contesta a utilização pública de informações sigilosas e questiona a interpretação atribuída às mensagens.
No meio dessa disputa está Janja, mencionada no diálogo como alvo de um suposto perfil falso.
O trecho mais chamativo — a resposta “Barraqueiraaaaaaaaaa” — tornou-se o elemento de maior repercussão pública da conversa. Mas, do ponto de vista investigativo, a questão mais relevante é outra: se Kalil Bittar realmente utilizou o nome de Lulinha para buscar negócios com a Telebras e se houve, de fato, participação dele na criação ou operação de um perfil destinado a atacar Janja.
Essas perguntas permanecem dependentes da apuração das autoridades.