
Milei chama ONU de “inútil”, cobra ação pelas Malvinas e anuncia medidas contra exploração de petróleo
Presidente argentino criticou a atuação das Nações Unidas, afirmou que as Malvinas são uma “causa nacional” e pediu a retomada das negociações com o Reino Unido
O presidente da Argentina, Javier Milei, utilizou seu discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nesta quarta-feira (23), para fazer uma crítica contundente ao funcionamento da organização internacional e recolocar a disputa pelas Ilhas Malvinas no centro de sua agenda diplomática.
Em sua terceira participação como presidente argentino na Assembleia Geral, Milei afirmou que a ONU deixou de cumprir parte de suas funções originais e chegou a classificá-la como uma organização “inútil”. A principal justificativa apresentada pelo argentino foi a dificuldade do organismo em transformar suas resoluções em consequências práticas, especialmente na disputa de soberania entre Argentina e Reino Unido pelas Malvinas.
“Palavras nobres”, mas uma organização que, segundo Milei, perdeu autoridade
Milei iniciou sua argumentação lembrando os princípios que, segundo ele, deveriam orientar a ONU: defesa do direito internacional, proteção da soberania nacional e solução pacífica de conflitos.
Na sequência, afirmou que esses objetivos não estariam sendo cumpridos adequadamente.
O presidente argentino declarou que a organização teria se transformado em uma “organização inútil” e criticou o que chamou de uma estrutura burocrática distante dos problemas concretos enfrentados pelos países.
A fala foi uma das mais duras feitas por Milei contra o sistema multilateral durante sua participação na Assembleia Geral.
A crítica não ficou restrita à estrutura administrativa da ONU. Milei também acusou o organismo de não conseguir fazer valer suas próprias decisões e citou conflitos internacionais, terrorismo e a atuação de organismos vinculados às Nações Unidas como exemplos daquilo que considera falhas do sistema.
Malvinas voltam ao centro do discurso argentino
O principal exemplo utilizado por Milei foi a disputa pelas Ilhas Malvinas, conhecidas no Reino Unido como Falkland Islands.
A Argentina reivindica a soberania sobre o arquipélago, enquanto o Reino Unido administra as ilhas desde 1833. Os dois países entraram em guerra em 1982, depois da ocupação argentina do território, conflito vencido pelos britânicos.
Milei afirmou que as Malvinas são uma “causa nacional” para a Argentina e questionou a capacidade da ONU de fazer com que suas resoluções produzam efeitos concretos.
Segundo o presidente argentino, não seria suficiente aprovar resoluções se elas permanecem sem consequências práticas.
A posição argentina sobre as Malvinas é histórica e antecede o atual governo. O que Milei fez foi utilizar a questão para sustentar sua crítica mais ampla à capacidade das instituições internacionais de fazer cumprir suas próprias decisões.
A questão do petróleo aumenta a tensão
Um dos elementos mais recentes da disputa envolve projetos de exploração de petróleo nas proximidades das ilhas.
Milei citou especificamente o projeto Sea Lion, desenvolvido por empresas britânicas e israelenses em área próxima às Malvinas. O governo argentino considera essas atividades ilegais por ocorrerem em uma região cuja soberania Buenos Aires reivindica.
Durante o discurso, o presidente afirmou que a Argentina apresentou reclamações formais, utilizou instrumentos jurídicos, aplicou sanções contra empresas envolvidas e seus fornecedores e encaminhou ao Congresso um projeto relacionado à defesa da soberania nacional.
A questão ganhou relevância econômica porque o arquipélago e suas águas possuem potencial para exploração de petróleo e gás.
Para Buenos Aires, a exploração de recursos naturais em áreas próximas às ilhas não pode ser tratada apenas como uma questão empresarial. O governo argentino considera que qualquer atividade desse tipo precisa levar em conta sua reivindicação de soberania.
Milei cobra retomada das negociações com Londres
Apesar do tom duro contra a ONU e contra a atuação britânica, Milei também voltou a defender uma solução negociada.
O presidente argentino pediu ao Reino Unido que retome as negociações sobre a soberania das Malvinas.
A posição é apresentada pelo governo argentino como uma busca por uma solução pacífica para a disputa, embora Buenos Aires tenha simultaneamente anunciado medidas contra empresas envolvidas em projetos de exploração de recursos naturais na região.
O Reino Unido, por sua vez, mantém sua posição de que a população das ilhas deve ter seu direito de autodeterminação respeitado.
Essa é uma das principais divergências entre os dois países.
O que diz a ONU sobre a disputa
A questão das Malvinas possui um histórico complexo dentro das Nações Unidas.
A organização trata o arquipélago como um território não autônomo e mantém a orientação para que Argentina e Reino Unido busquem uma solução negociada para a disputa de soberania.
Milei, porém, argumenta que a existência de resoluções não é suficiente se elas não produzem consequências concretas.
É justamente nesse ponto que o discurso argentino procura transformar a questão das Malvinas em um exemplo mais amplo sobre os limites do sistema multilateral.
A crítica de Milei também alcançou a OMS
O discurso não ficou restrito às Malvinas.
Milei também criticou a Organização Mundial da Saúde (OMS) e voltou a questionar a resposta internacional à pandemia de Covid-19.
Segundo o presidente argentino, medidas adotadas durante a pandemia teriam ultrapassado os limites da política de saúde e representado, na avaliação de seu governo, uma forma de controle social.
A Argentina deixou a OMS em março de 2026, em uma decisão que Milei relacionou à sua crítica à atuação da organização durante a pandemia.
Essas afirmações fazem parte da posição política do governo argentino e não devem ser confundidas com uma conclusão independente sobre a atuação da OMS ou sobre as medidas sanitárias adotadas durante a pandemia.
Inteligência artificial também entrou no discurso
Outro tema abordado por Milei foi a inteligência artificial.
O presidente argentino defendeu uma abordagem com menor intervenção regulatória e afirmou que pretende transformar a Argentina em um ambiente competitivo para empresas e investimentos relacionados à tecnologia.
Milei disse que seu governo pretende evitar uma regulamentação preventiva da inteligência artificial e ofereceu incentivos para empresas interessadas em desenvolver a tecnologia no país.
A posição segue uma linha mais ampla defendida pelo governo argentino de redução de barreiras regulatórias e estímulo à iniciativa privada.
Relação com Estados Unidos e Israel
Milei também reafirmou a proximidade diplomática da Argentina com Estados Unidos e Israel.
Em seu discurso, citou os dois países como parceiros que compartilham, segundo sua avaliação, valores importantes para a política externa argentina.
A manifestação reforça o alinhamento internacional que Milei vem adotando desde o início de seu governo.
Um discurso de confronto com o sistema multilateral
O pronunciamento de Javier Milei combinou três elementos principais: crítica à estrutura e à atuação da ONU, reivindicação argentina sobre as Malvinas e defesa de uma política externa mais alinhada aos Estados Unidos e Israel.
A questão das ilhas foi utilizada como principal exemplo para sustentar a crítica à capacidade das instituições internacionais de transformar decisões e resoluções em resultados concretos.
Ao mesmo tempo, Milei afirmou que a Argentina continuará buscando uma solução pacífica e negociada com o Reino Unido.
O ponto central do discurso foi, portanto, uma cobrança para que as decisões internacionais tenham efeitos práticos. Para Milei, uma resolução que não consegue alterar a realidade perde parte de sua autoridade.
Partes envolvidas e pontos ainda em disputa
Entre os principais envolvidos estão o governo argentino de Javier Milei, o governo do Reino Unido, a Organização das Nações Unidas, a população das Ilhas Malvinas e as empresas envolvidas nos projetos de exploração de petróleo na região.
Também permanecem em discussão a interpretação sobre a soberania do arquipélago, o alcance das resoluções da ONU, a exploração de recursos naturais nas áreas disputadas e a forma como Argentina e Reino Unido poderão eventualmente retomar negociações.
A Argentina mantém sua reivindicação de soberania. O Reino Unido mantém o controle administrativo das ilhas e defende a posição de seus habitantes. A ONU continua tratando a questão como uma disputa que deve ser solucionada por meio de negociações.
Nesse cenário, o discurso de Milei representa uma nova ofensiva diplomática argentina para recolocar as Malvinas no centro do debate internacional e, simultaneamente, questionar a capacidade da ONU de fazer cumprir suas próprias decisões.