Milei reitera acusações contra Lula: “é um ladrão, é um corrupto” declarações ampliam crise diplomática entre Brasil e Argentina

Milei reitera acusações contra Lula: “é um ladrão, é um corrupto” declarações ampliam crise diplomática entre Brasil e Argentina

Presidente argentino reafirma críticas ao presidente brasileiro, questiona a anulação das condenações da Operação Lava Jato e acusa Lula de promover influência política na América Latina; governo brasileiro reage por meio do Itamaraty.

O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a fazer duras críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), intensificando a tensão diplomática entre os dois países. Em entrevista concedida ao programa “La Cornisa”, exibido pela emissora argentina LN+, Milei classificou Lula como “ladrão” e “corrupto”, além de afirmar que o presidente brasileiro exerce influência política na região por meio das ideias socialistas.

As declarações foram feitas no domingo (2), poucos dias após a participação de Milei em um evento político realizado em São Paulo, onde manifestou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.

Milei questiona anulação das condenações de Lula

Durante a entrevista, Javier Milei voltou a mencionar o processo da Operação Lava Jato envolvendo o presidente brasileiro.

Segundo o líder argentino:

“Ele foi solto devido a um erro processual. Ele não é inocente.”

Em seguida, Milei voltou a usar termos contundentes para se referir a Lula.

“O pior é que eles me acusam com mentiras, e eu respondo com verdades. Eu não menti. Quando respondo com verdades, o senhor Lula se sente atacado? Ele é um corrupto e um ladrão. É um condenado. Saiu da prisão por meio de um recurso administrativo.”

As declarações fazem referência às condenações impostas a Lula na Operação Lava Jato, posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que concluiu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os processos e reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro em um dos casos. Com a anulação, os processos retornaram à fase anterior e Lula recuperou seus direitos políticos.

Críticas ao socialismo e à atuação de Lula na região

Milei também rebateu críticas de que estaria interferindo na política brasileira e afirmou que, em sua avaliação, quem exerce influência política na América Latina é o presidente brasileiro.

“Eles falam sobre interferência política na região. Se alguém está interferindo politicamente na região, é Lula, contaminando tudo com as ideias imundas do socialismo.”

Ao ser questionado sobre o tom adotado em suas declarações, o presidente argentino afirmou que não considera suas palavras ofensivas.

“Agressivo é que alguém roube. É muito mais leve chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar.”

Discurso em São Paulo

As declarações reforçam o posicionamento adotado por Milei durante sua visita ao Brasil no fim de julho.

Na ocasião, o presidente argentino participou do evento de lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, em São Paulo.

Durante seu discurso, Milei elogiou as reformas econômicas implementadas por seu governo na Argentina, criticou governos de esquerda na América Latina e associou a candidatura de Flávio Bolsonaro ao avanço de um movimento político conservador na região.

Segundo o presidente argentino:

“Esse é o método que tem operado em toda a região: causar desequilíbrio econômico com o objetivo de comprar votos para não perder o poder nas eleições seguintes.”

Ele também afirmou acreditar que diversos países latino-americanos estariam migrando para governos de direita e declarou que o Brasil poderá seguir o mesmo caminho nas próximas eleições.

Governo brasileiro reagiu por via diplomática

Após as declarações feitas por Milei em território brasileiro, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para transmitir oficialmente a insatisfação do governo brasileiro.

Em nota, o Itamaraty afirmou que não havia precedentes recentes para um chefe de Estado estrangeiro realizar ataques públicos ao presidente da República, às instituições democráticas brasileiras, ao Poder Judiciário e ao povo brasileiro durante visita oficial ao país.

O ministério também classificou o episódio como incompatível com a tradição de respeito e cooperação que marca as relações entre Brasil e Argentina.

Além disso, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi chamado a Brasília para consultas sobre os desdobramentos da relação bilateral.

Repercussão na Argentina

As declarações também tiveram ampla repercussão na imprensa argentina.

Em artigo publicado pelo jornal La Nación, o jornalista Claudio Jacquelin afirmou que o episódio representa uma das maiores crises diplomáticas entre Brasil e Argentina nas últimas décadas.

Segundo a análise, integrantes do governo argentino deixaram claro que não havia previsão de pedido formal de desculpas nem por parte do presidente Javier Milei nem do embaixador argentino em Brasília.

Publicações nas redes sociais

Dias após o discurso realizado em São Paulo, Milei voltou a abordar o tema em sua conta na rede social X.

O presidente argentino compartilhou diversas publicações críticas a Lula.

Entre elas, uma afirmava:

“Lula é um ex-presidiário e, quando veio à Argentina, visitou sua aliada condenada, Cristina Kirchner.”

Outra postagem compartilhada por Milei dizia:

“Estou enojado com todos os idiotas e hipócritas que vieram se desculpar com Lula.”

Resposta de Lula

Questionado posteriormente sobre as declarações do presidente argentino, Lula minimizou os ataques e afirmou que procura manter uma relação institucional entre os dois países.

Em entrevista, declarou:

“Eu não falei nada, porque a minha relação é uma relação de chefe de Estado com o Estado. E eu gosto do povo argentino e não vou ficar trocando coisa com aquela coisa.”

Em outra ocasião, o presidente brasileiro também classificou a participação de Milei no evento político em São Paulo como uma “patacoada”.

Relação bilateral permanece sob tensão

As declarações de Javier Milei aprofundam um período de tensão diplomática entre Brasil e Argentina, que se intensificou desde a posse do presidente argentino.

Apesar das divergências políticas entre os dois governos, Brasil e Argentina mantêm uma relação estratégica em áreas como comércio exterior, integração regional e cooperação no âmbito do Mercosul. Os dois países são os principais parceiros comerciais um do outro na América do Sul, e os canais diplomáticos permanecem ativos, mesmo diante do aumento das críticas públicas entre seus respectivos chefes de Estado.

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