Miriam Leitão explica por que inflação pode cair enquanto supermercado continua pesando no bolso

Miriam Leitão explica por que inflação pode cair enquanto supermercado continua pesando no bolso

Comentarista afirmou que desaceleração da inflação não significa que os preços voltaram ao patamar anterior; IPCA de julho subiu 0,07% e acumulado em 12 meses ficou em 4,44%

A cena é conhecida por milhões de brasileiros: o consumidor entra no supermercado com uma quantia que, até algum tempo atrás, parecia suficiente para levar uma quantidade razoável de produtos e sai com poucas sacolas. É justamente nesse contraste entre o que mostram os índices econômicos e o que o consumidor encontra diante das prateleiras que a comentarista Miriam Leitão concentrou sua análise durante o Bom Dia Brasil, da TV Globo, na terça-feira (11).

Segundo Miriam, existe uma diferença importante entre a desaceleração da inflação e uma efetiva redução generalizada do custo de vida. Para o consumidor, a sensação de carestia pode continuar mesmo quando os indicadores começam a apresentar números mais favoráveis.

“A sensação que as pessoas têm conversando com as pessoas na rua é que, poxa, que notícia é essa? Que a inflação desacelera, mas eu vou com R$ 100 no supermercado, não consigo comprar quase nada”, afirmou a jornalista.

A explicação passa por um conceito básico da economia, mas que frequentemente provoca confusão: inflação não é o mesmo que preço.

Quando a inflação diminui, isso significa que os preços estão subindo em ritmo menor — não necessariamente que os produtos ficaram baratos. Se determinado alimento sofreu fortes aumentos em anos anteriores, uma desaceleração posterior não devolve automaticamente seu preço ao patamar de antes.

É essa diferença que ajuda a explicar por que uma família pode ouvir que a inflação está controlada e, ao mesmo tempo, continuar sentindo que o dinheiro rende pouco no supermercado.

IPCA ficou em 0,07% em julho

Os dados citados na análise de Miriam Leitão mostram que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador oficial da inflação brasileira, registrou alta de 0,07% em julho.

No acumulado de 12 meses, o índice chegou a 4,44%, segundo os números apresentados na reportagem. O resultado ficou abaixo do teto da meta de inflação de 4,5% mencionado no material.

O número, entretanto, precisa ser interpretado com cuidado.

Um IPCA de 0,07% não significa que os preços tenham retornado aos níveis anteriores. Significa que, na média considerada pelo índice, houve uma pequena elevação dos preços naquele mês.

É possível, portanto, que o consumidor encontre alguns produtos mais baratos e, ainda assim, tenha a impressão de que o supermercado continua caro.

“Os números nem sempre coincidem com a sensação”

Foi justamente esse descompasso que Miriam destacou durante o programa.

“Os números nem sempre coincidem com a sensação. Às vezes, você tem a sensação de preço alto, sensação de carestia, mesmo quando os índices estão mostrando queda”, explicou.

A chamada sensação de carestia não depende exclusivamente do comportamento de um determinado produto. Ela também está relacionada ao conjunto das despesas de uma família.

Aluguel, energia elétrica, transporte, medicamentos, mensalidades, dívidas, impostos e outras despesas fixas podem consumir uma parcela significativa da renda antes mesmo de o consumidor chegar ao supermercado.

Assim, ainda que alguns alimentos apresentem redução, o orçamento doméstico pode permanecer pressionado.

Batata, tomate e café aparecem entre os produtos que caíram

Miriam chamou atenção para um movimento de queda registrado em determinados alimentos.

Segundo os dados apresentados por ela, batata, tomate e café tiveram redução de preços em julho. O grupo de alimentos mencionado na análise apresentou recuo de 0,67% no mês.

Os combustíveis também registraram redução no período.

A queda, porém, não significa que todos os produtos ficaram mais baratos simultaneamente. É justamente por isso que a experiência individual de cada consumidor pode ser diferente daquela indicada pelo índice geral.

Quem compra mais produtos que tiveram redução pode perceber algum alívio. Já uma família cujo orçamento esteja concentrado em itens que permanecem caros pode continuar sentindo forte pressão financeira.

Por que R$ 100 parecem comprar cada vez menos?

A pergunta feita implicitamente pelo consumidor é simples: se a inflação está desacelerando, por que R$ 100 ainda parecem desaparecer tão rapidamente no supermercado?

A resposta está na diferença entre taxa de inflação e nível de preços.

Imagine um produto que custava R$ 10 e, ao longo de determinado período, sofreu sucessivos aumentos. Mesmo que posteriormente a inflação daquele produto caia para praticamente zero, ele pode continuar custando muito mais do que os R$ 10 originais.

Ou seja, inflação menor não significa necessariamente preços baixos.

Para que o produto volte ao preço anterior, seria necessária uma queda efetiva de seu preço — fenômeno diferente de simplesmente registrar uma inflação menor.

Dívidas também pesam sobre o orçamento

Outro ponto levantado pela comentarista foi o comprometimento da renda das famílias.

Mesmo quando alguns preços começam a recuar, consumidores endividados ou com despesas fixas elevadas continuam dispondo de menos dinheiro para compras.

Na prática, o orçamento doméstico não é determinado apenas pelo preço isolado de uma batata, de um pacote de café ou de um tomate. O que importa para a família é quanto sobra da renda depois de pagar todas as obrigações do mês.

Essa diferença entre preço individual, inflação média e renda disponível ajuda a explicar por que a percepção popular pode demorar para acompanhar uma melhora dos indicadores.

Agosto pode trazer algum alívio

Miriam Leitão avaliou ainda que o comportamento dos preços poderia apresentar uma melhora adicional em agosto.

Segundo a comentarista, a inflação do mês poderia ser ainda menor e até apresentar taxa negativa, o que significaria uma queda média dos preços considerados pelo indicador.

Mas mesmo um eventual resultado negativo não significaria automaticamente que o custo de vida voltaria aos níveis anteriores.

O consumidor continuará observando produto por produto, enquanto os índices estatísticos trabalham com uma cesta ampla de bens e serviços.

O desafio de transformar indicador em poder de compra

O debate expõe uma das dificuldades mais comuns na comunicação econômica: um indicador pode melhorar antes que essa melhora seja percebida no cotidiano.

Para quem acompanha os números, uma inflação anual de 4,44% e um IPCA mensal de apenas 0,07% podem representar sinais positivos de desaceleração.

Para quem está diante do caixa, porém, a pergunta é outra: quanto consigo comprar com o dinheiro que tenho?

As duas percepções podem coexistir sem necessariamente haver contradição.

A inflação pode estar desacelerando enquanto o nível geral de preços permanece elevado. E, enquanto os salários, as dívidas e as despesas fixas não acompanharem de maneira suficiente o custo de vida acumulado, a sensação de aperto continuará presente no orçamento de muitas famílias.

É nesse espaço entre a estatística e a experiência cotidiana que se encontra a principal mensagem da análise de Miriam Leitão: a inflação pode estar cedendo sem que o supermercado, imediatamente, pareça barato para quem paga a conta.

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