
Careca do INSS visitou cinco vezes a Secretaria-Executiva da Saúde comandada por atual assessor de Lula
Registros citados pelo Metrópoles mostram que Antônio Carlos Camilo Antunes esteve cinco vezes no Ministério da Saúde entre 2024 e 2025, quando Swedenberger Barbosa ocupava a Secretaria-Executiva; PF também investiga possíveis relações do lobista com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha
A investigação sobre as relações do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, ganhou um novo capítulo com a revelação de que ele esteve cinco vezes na Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde durante o período em que o cargo era ocupado por Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger.
Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles, as visitas ocorreram entre 2024 e 2025, período em que Berger era o segundo homem na estrutura do Ministério da Saúde. Atualmente, Swedenberger Barbosa ocupa o cargo de chefe do Gabinete Adjunto de Gestão Interna do Gabinete Pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A informação chama atenção porque o nome de Antônio Carlos Camilo Antunes aparece em diferentes frentes da investigação conduzida pela Polícia Federal sobre irregularidades envolvendo descontos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Cinco entradas no Ministério da Saúde
De acordo com os documentos citados pela reportagem, Antunes esteve três vezes no prédio do Ministério da Saúde em 2024.
As entradas ocorreram em:
- 6 de março de 2024;
- 13 de agosto de 2024;
- 20 de dezembro de 2024.
Naquele período, o lobista teria se identificado como diretor de uma empresa de telemedicina. Em uma das visitas, estava acompanhado da empresária Roberta Luchsinger, que também aparece nas investigações envolvendo as relações comerciais e pessoais de Antunes.
Em 2025, ocorreram outras duas visitas, em 13 de janeiro e 17 de fevereiro. Nessa ocasião, Antunes teria se apresentado como presidente da World Cannabis, empresa ligada ao mercado de cannabis medicinal.
Segundo a reportagem, todas as cinco visitas tiveram como destino a Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde, então comandada por Swedenberger Barbosa.
Há, entretanto, uma diferença importante entre os registros de entrada e as agendas oficiais: apenas uma das cinco visitas teria aparecido na agenda oficial de Berger.
O próprio Swedenberger Barbosa confirmou à reportagem que houve uma reunião e afirmou que o assunto tratado foi justamente relacionado a negócios envolvendo cannabis medicinal.
Berger deixou a Saúde e foi para o Palácio do Planalto
A trajetória de Swedenberger Barbosa acrescenta outro elemento à história.
Berger deixou a Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde em março de 2025, quando Alexandre Padilha assumiu o comando da pasta.
Poucos dias depois, foi nomeado para uma função no Gabinete Pessoal da Presidência da República, passando a atuar como chefe do Gabinete Adjunto de Gestão Interna.
O histórico de Berger no PT também é destacado na reportagem. Ele é considerado um nome antigo da estrutura partidária e possui relação próxima com o presidente Lula.
É justamente essa proximidade institucional que dá peso político ao fato de o mesmo lobista investigado pela PF ter mantido encontros com ele quando estava no Ministério da Saúde.
Isso, por si só, não comprova irregularidade ou participação de Berger em qualquer crime. O ponto sob investigação é a natureza das relações, dos negócios discutidos e a eventual existência de influência indevida.
A mensagem sobre uma “orientação”
Um dos elementos considerados mais relevantes pela reportagem é uma mensagem de 6 de novembro de 2024.
Segundo o material obtido pelo Metrópoles e que estaria em posse da Polícia Federal, Antônio Carlos Camilo Antunes recebeu uma mensagem e a encaminhou a um interlocutor.
No texto, aparece a afirmação:
“Berger já está com aquela orientação em mãos.”
A mensagem teria sido trocada entre visitas de Antunes ao Ministério da Saúde.
O conteúdo exato da “orientação” e seu significado são elementos que precisam ser esclarecidos pelas investigações. A existência da mensagem, isoladamente, não permite concluir qual providência teria sido tomada ou se houve qualquer ato irregular.
Cannabis medicinal entra no centro da investigação
A atuação empresarial de Antônio Carlos Camilo Antunes ajuda a explicar parte dos encontros.
O lobista tentou comercializar junto ao Ministério da Saúde produtos relacionados à cannabis medicinal, além de testes rápidos para dengue e produtos de nutrição infantil.
A investigação também passou a examinar relações de Antunes com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo o material citado pelo Metrópoles, a Polícia Federal suspeita que negócios envolvendo Lulinha possam ter sido intermediados por uma pessoa descrita nos documentos como alguém de “grande influência” dentro do gabinete presidencial.
O nome de Swedenberger Barbosa aparece nesse contexto, mas é fundamental distinguir suspeita investigativa de prova de crime.
Relação com Roberta Luchsinger
Outro nome importante na investigação é o da empresária Roberta Luchsinger, apontada como amiga de Lulinha.
Segundo a reportagem, Lulinha teria atuado juntamente com Roberta para ampliar negócios relacionados ao mercado de cannabis medicinal de Antônio Carlos Camilo Antunes.
A Polícia Federal identificou, ainda de acordo com o Metrópoles, pagamentos que somariam R$ 1,5 milhão feitos por Antunes para Roberta Luchsinger.
Em uma das transferências, o lobista teria escrito a um interlocutor que o dinheiro tinha como destinatário o “filho do rapaz”.
A PF avalia que a expressão poderia fazer referência ao filho do presidente Lula, mas essa interpretação ainda precisa ser comprovada pela investigação.
Viagens à Europa e uma encomenda
Os investigadores também identificaram outros pontos de contato entre Antônio Carlos Camilo Antunes e Fábio Luís Lula da Silva.
Segundo relatório da Polícia Federal citado pelo Metrópoles, os dois viajaram pelo menos três vezes para a Europa em um mesmo período.
A defesa de Lulinha reconheceu que uma dessas viagens teria sido custeada pelo lobista.
Em outro episódio revelado pela reportagem, Antunes teria determinado que uma encomenda fosse entregue no apartamento alugado por Lulinha em São Paulo.
Esses elementos passaram a integrar o conjunto de informações analisadas pelos investigadores para tentar compreender a extensão das relações entre os envolvidos.
Defesa de Lulinha contesta investigação
Fábio Luís Lula da Silva é representado pelo advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas.
O advogado afirmou receber com “perplexidade”, mas também com tranquilidade, a abertura de um novo inquérito envolvendo seu cliente.
Segundo ele, a investigação poderia representar uma espécie de busca ampla por elementos incriminatórios.
Marco Aurélio de Carvalho classificou essa possibilidade como uma “fishing expedition” e afirmou que a defesa terá oportunidade de demonstrar que Lulinha não possui relação direta ou indireta com irregularidades.
A posição da defesa é importante porque, até aqui, as informações apresentadas na reportagem descrevem relações, mensagens, pagamentos e encontros sob investigação, e não uma condenação judicial de Lulinha.
O ponto central: acesso, influência e negócios
O caso ganha relevância porque reúne três dimensões que a investigação precisa separar cuidadosamente: acesso a autoridades, relações empresariais e eventual tráfico de influência.
Antônio Carlos Camilo Antunes não era apenas um empresário interessado em negócios privados. Ele também circulava por órgãos públicos e buscava oportunidades comerciais no setor de saúde.
Ao mesmo tempo, mantinha relações que a PF passou a investigar com pessoas próximas ao núcleo político do governo federal.
O fato de ter entrado cinco vezes na Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde durante a gestão de Swedenberger Barbosa não demonstra, sozinho, qualquer irregularidade. Da mesma forma, uma reunião registrada oficialmente não significa que tenha ocorrido um ato ilícito.
O que torna os registros relevantes é a necessidade de esclarecer o que foi tratado, quem participou, quais interesses estavam envolvidos e se alguma decisão administrativa foi influenciada por contatos externos.
Um assessor de Lula no centro de uma investigação que começou longe do Planalto
Swedenberger Barbosa ocupa atualmente uma posição dentro da estrutura diretamente ligada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Antônio Carlos Camilo Antunes, por sua vez, tornou-se uma das figuras centrais das investigações sobre o esquema de descontos indevidos envolvendo beneficiários do INSS.
A conexão entre os dois não significa que Berger seja acusado de participação no esquema. O que existe, conforme a reportagem, são registros de cinco visitas de Antunes à área que estava sob comando de Berger, além de uma mensagem na qual o lobista menciona que o então secretário-executivo estaria com determinada “orientação” em mãos.
É justamente esse conjunto de circunstâncias que deverá ser esclarecido pelas autoridades.
O caso também amplia o alcance político das investigações porque envolve pessoas que orbitam diferentes círculos de poder: Antônio Carlos Camilo Antunes, Swedenberger Barbosa, Fábio Luís Lula da Silva e Roberta Luchsinger.
Até que as apurações avancem, porém, é necessário manter a distinção entre contato, relação comercial, suspeita investigativa e responsabilidade criminal comprovada. A existência dos encontros e das mensagens pode ser investigada; a conclusão sobre eventual crime depende de provas e das decisões das autoridades competentes.