
Morre aos 95 anos Benedito Ruy Barbosa, autor de clássicos como Pantanal, O Rei do Gado e Terra Nostra
Dramaturgo faleceu nesta terça-feira (7), em São Paulo, em decorrência de complicações causadas por insuficiência renal crônica. Referência da teledramaturgia brasileira, Benedito transformou o universo rural em protagonista de novelas que marcaram gerações.
Brasil perde um dos maiores autores da televisão
O Brasil se despediu nesta terça-feira (7) de um dos mais importantes nomes da história da televisão nacional. O dramaturgo e escritor Benedito Ruy Barbosa morreu aos 95 anos, em São Paulo, em consequência de complicações provocadas por uma insuficiência renal crônica, conforme informou o Hospital do Coração (HCor), onde o autor estava internado.
Reconhecido por criar algumas das novelas mais marcantes da teledramaturgia brasileira, Benedito deixou um legado que atravessou mais de cinco décadas de carreira, com histórias ambientadas no campo, protagonizadas por personagens fortes e enredos que abordavam temas sociais, culturais e históricos do país.
Internação e velório
Segundo o HCor, Benedito enfrentava um quadro de insuficiência renal crônica havia cerca de três anos. Em janeiro deste ano, ele permaneceu 19 dias internado para tratar uma infecção urinária associada à doença.
O velório foi marcado para esta terça-feira, das 15h às 21h, no Funeral Home, localizado no bairro da Bela Vista, na região central da capital paulista. Entre 15h e 16h, a cerimônia foi aberta ao público para que admiradores pudessem prestar as últimas homenagens ao escritor.
Uma trajetória construída com trabalho e perseverança
Nascido em 1931, na cidade de Gália, interior de São Paulo, Benedito Ruy Barbosa foi o mais velho entre cinco irmãos. Ainda criança, mudou-se com a família para Vera Cruz, região marcada por fazendas de café e pela forte presença de imigrantes italianos e japoneses — cenário que mais tarde influenciaria profundamente sua obra.
Após a morte precoce do pai, precisou trabalhar desde muito jovem para ajudar no sustento da família.
Antes de se tornar escritor, exerceu diversas profissões, entre elas:
- vendedor de verduras;
- auxiliar em empresa comercial;
- faxineiro;
- revisor do jornal O Estado de S. Paulo.
Foi justamente o contato diário com os textos jornalísticos que despertou definitivamente sua vocação para a escrita.
Seu primeiro romance, “Fogo Frio”, foi adaptado para o teatro e recebeu prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), abrindo caminho para sua carreira como roteirista.
Início na televisão
A estreia de Benedito na televisão ocorreu em 1966, com a novela “Somos Todos Irmãos”, exibida pela TV Tupi.
Posteriormente, trabalhou também na TV Excelsior, Record e TV Cultura.
Em 1971, escreveu “Meu Pedacinho de Chão”, produção exibida simultaneamente pela TV Cultura e pela TV Globo, marco importante de sua carreira.
Poucos anos depois, assinou contrato definitivo com a Globo, emissora onde consolidou seu nome como um dos principais autores da dramaturgia brasileira.
O autor que colocou o campo no centro da televisão
Benedito Ruy Barbosa ficou conhecido por transformar o universo rural brasileiro no grande protagonista de suas novelas.
Suas histórias exploravam temas como:
- conflitos pela posse da terra;
- imigração italiana;
- tradições do interior;
- preservação ambiental;
- coronelismo;
- disputas familiares;
- grandes histórias de amor.
Ele próprio costumava dizer que seus protagonistas eram personagens de “bom caráter, determinação para a luta e crença em valores positivos”.
Pantanal revolucionou a teledramaturgia
Em 1990, durante passagem pela extinta TV Manchete, Benedito escreveu “Pantanal”, considerada uma das novelas mais revolucionárias da televisão brasileira.
A produção inovou ao utilizar extensas gravações em locações externas, valorizando as paisagens naturais do Pantanal e incorporando elementos da cultura regional.
O enorme sucesso da obra redefiniu padrões de produção das novelas brasileiras e permanece como uma das maiores audiências da história da TV.
Grandes clássicos marcaram gerações
Após o sucesso de Pantanal, Benedito retornou à TV Globo, onde escreveu outras produções que se transformaram em clássicos da dramaturgia.
Entre elas estão:
- Cabocla (1979);
- Renascer (1993);
- O Rei do Gado (1996);
- Terra Nostra (1999);
- Sinhá Moça (1986 e remake em 2006);
- Meu Pedacinho de Chão (remake em 2014);
- Velho Chico (2016).
Em O Rei do Gado, abordou temas como reforma agrária e conflitos fundiários.
Já Terra Nostra retratou a imigração italiana para o Brasil no início do século XX, tornando-se um dos maiores sucessos internacionais da televisão brasileira.
Sua última novela inédita foi Velho Chico, exibida em 2016, ambientada às margens do Rio São Francisco e marcada por conflitos familiares, preservação ambiental e romances intensos.
Obras ganharam novas versões
Décadas após o sucesso original, várias novelas de Benedito ganharam remakes.
Entre elas:
- Pantanal, em 2022;
- Renascer, em 2024.
As adaptações ficaram sob responsabilidade de seu neto, Bruno Luperi, que preservou a essência das histórias criadas pelo avô e apresentou as tramas a uma nova geração de telespectadores.
“Uma novela precisa ter uma grande história de amor”
Ao longo da carreira, Benedito costumava resumir sua filosofia de criação em uma frase que se tornou conhecida entre admiradores da dramaturgia.
“Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor.”
Esse princípio esteve presente em praticamente todas as suas obras, sempre combinando romances, conflitos familiares, tradições culturais e questões sociais.
Legado para a televisão brasileira
A morte de Benedito Ruy Barbosa representa o encerramento de um dos capítulos mais importantes da história da dramaturgia nacional.
Seu trabalho ajudou a redefinir a forma como o interior do Brasil era retratado na televisão, valorizando a cultura rural, os costumes regionais e as paisagens brasileiras em produções que conquistaram milhões de espectadores dentro e fora do país.
Com personagens inesquecíveis, roteiros marcantes e novelas que atravessaram gerações, Benedito deixa um legado permanente para a televisão brasileira e para a cultura nacional, consolidando seu nome entre os maiores autores da história da teledramaturgia do Brasil.